Os Hurray for the Riff Raff, a banda liderada por Alynda Segarra, regressou aos discos neste Março primaveril com o selo da ATO Records e mergulha novamente pelas imensidões dos ritmos latinos e folks entorpecidos com essência dyliana e a garra de Patti Smith. Assumido as funções de compositora, cantora e a guitarrista protagonista dos norte-americanos e, mais que não fossem estes títulos já de si tão marcantes, Segarra é uma defensora e activista pelos direitos humanos, com uma voz inqualificável que se assemelha a uma mescla de Kim Carnes e Janis Joplin. De origens porto-riquenhas Alynda cresceu no estado de Bronx até aos seus 17 anos de idade já com grandes aventuras para contar. Viveu cruamente entre várias culturas, desconstruindo-se a si própria e aos outros por entre a poesia latina, festas punk e boleias em comboios desconhecidos: Segarra soube desde cedo o seu destino musical.

Os Hurray for the Riff Raff contam já com cinco trabalhos de estúdio que deambulam entre o folk norte-americano e o rock político. Agora The Navigator, o mais recente trabalho de estúdio editado no dia 10 de Março, surge com uma personagem ficcional que permanece numa busca infinita pelas ruas de Nova Iorque. Navita Milagros Negrón, é uma menina crescida nas ruas que se encontra numa encruzilhada em termos de identidade e é a figura deste imenso trabalho de 2017. Segarra explica:

This girl who grows up in a city that’s like New York, who’s a street kid, like me when I was little, that has a special place in the history of her people.

O seu sexto álbum foi gravado no Electric Lady Studios em Nova Iorque e na Casa Panorâmica da Califórnia e produzido por Paul Butler que assina trabalhos com Michael Kiwanula, St. Paul e Devendra Banhart. O álbum conta com nomes de percussionistas da praça como Juan-Carlos Chaurand, Gregory Rogove (Rodrigo Amarante) e cantores doo wop de Nova Jersey.

The Navigator é o sucessor de Small Town Heroes de 2014 e vem com a promessa de ser um dos álbuns mais biográficos e político-sociais dos últimos tempos, pois relata muitas das vivências de Segarra e aborda temas como a gentrificação urbana do sul do Bronx, assim como a cooptação da cultura porto-riquenha em Nova Iorque. Foca ainda temas tão actuais como a eleição de Donald Trump e conta histórias de almas errantes, de mulheres e homens perdidos no mundo caótico de hoje que se querem encontrar a si próprios e ser livres. Diz-nos a cantora:

I feel like my generation, through groups like Black Lives Matter, is really focusing on that type of intersectionality—if one of us is not free, then none of us are free. The Navigator’s role is to tell the story, tell it to the people who don’t know their own story, so they can be free. I also think about women like Frida Kahlo. Once again, she refused to live in a contained space. She refused to simplify herself. That’s something I really struggle with: Being someone who is kind of confusing to people.

Segarra volta aos seus antepassados num tom político e radical concentrando-se em narrativas que contemplam a vida do seu povo, ora norte-americano, ora porto riquenho. São doze faixas que transportam qualquer um para poemas sábios e ancestrais, como é o caso do single “Pa’lante” uma das mais ferozes composições da vocalista, onde aborda a morte espiritual e conta variadas histórias abandonadas e por encontrar. “Pa’lante” é uma afirmação espanhola que significa vai em frente que nos anos 70 foi o título de um jornal do grupo activista da comunidade porto-riquenha, o Young Lords Party. Pela liberdade, pelo amor, pela vida, esta é uma faixa motivadora onde Segarra com a sua voz desesperada e revolucionaria, tão ao seu jeito nos diz:

Colonized and hypnotized
Be Something.
Do your best and fuck the rest
Be Something.
Just searching for my lost humanity
I look for you, my friend,
but do you look for me?

É curioso analisar a apropriação que Segarra fez ao ajustar a estrutura da canção “A Day in the Life” dos The Beatles e o seu grito ao entoar pa’lante com o órgão pulsante. Ouvimos ainda um sample da gravação de um poema de Pedro Pietri de 1969 intitulado Puerto Rican Obituary, neste que é um uivo e um hino gigantesco de Hurray For The Riff Raff. The Navigator é um álbum forte e intenso, entre o amor e o ódio, acompanhado sempre pelo toque selvagem e poderoso de Segarra para nos mostrar a vontade de viver na amargura constante. Para ouvir em baixo e na íntegra, The Navigator, e para ver o vídeo de “Pa’lante”.