Iain Morrison – Eas
80%Overall Score

O sexto álbum de Iain Morrison Eas, palavra gaélica que significa “cascata” ou “queda de água”, assemelha-se de facto a uma queda ou, melhor posto, a uma vertigem. O escocês de voz doce e melancólica leva-nos numa viagem emocional e íntima com a sua folk evocativa, de sons tradicionais e letras sentimentais. Estas palavras não auguram nada de bom, não é? Inspiração tradicional, sentimentalismo, emoção, melancolia… Isso é código para pieguice garantida, uma cascata de melaço peganhento, certo? No caso de Eas, permitam-me responder um rotundo “errado”. Há uma fronteira muito ténue entre o emotivo e o piegas, entre a melancolia e o lamechas, mas não temos que temer com Iain Morrison ao leme nestas águas turvas e traiçoeiras, o barco vai firme e seguro.

Esta folk emotiva não será para todos, obviamente, mas os apreciadores do género não ficarão desiludidos. É um bom bife Angus, passe o paralelismo carnívoro e a referência fácil, sumarento e sanguíneo, é música com artérias pulsantes, alma tangível, se existe tal coisa, com carne quente e pele febril. Com uma voz que recorda em certos momentos Damien Rice, Iain Morrison embala-nos com o seu timbre terno mas carregado; gostamos desta voz como gostamos de um homem que, no fundo, é um menino perdido e atormentado, sabemos que é uma doçura com um travo avinagrado. É um equilíbrio difícil, mas o escocês domina-o aparentemente sem esforço, misturando no seu cadinho de alquimista à voz melancólica, a abordagem contemporânea à música tradicional escocesa e as palavras carregadas de sentido para nos oferecer esta preciosidade que é Eas. É uma carta de amor à Escócia e um diário de bordo íntimo, é uma camisola de lã que aquece e até é macia, mas pica um pouco na pele, embala, mas não deixa adormecer, evoca, mas não estagna. É um álbum que é um organismo vivo, dotado de espírito e músculo.

E os músculos são bem exercitados ao longo de nove temas coesos na sua heterogeneidade, numa diversidade que faz sentido e que nunca deixa de ter uma artéria vital que atravessa todo o álbum. A base tradicional de Eas é o seu alicerce sólido, o que permite a Morrison partir da melancolia assombrosa e quase fantasmagórica da primeira faixa, “Siubhal”, passar pela folk mais pura e dura de faixas como “Crackle” e “Too Long In This Condition” e culminar no raiozinho de sol que é “You’re My Letting Go” sem que uma única telha caia. A estrutura é firme e fiável, e é disso que se precisa para cantar emoções viscerais sem cair numa desordem melosa. Tendo essa infraestrutura, pode-se deitar o coração e as vísceras cá para fora sem cair em clichés e álbuns disformes e confusos, que não sabem muito bem o que são. Iain Morrison sabe perfeitamente o que quer que o seu Eas seja e o ouvinte acaba por compreendê-lo também, não se sentindo defraudado. É um álbum folk extremamente sólido e emotivo, enérgico e cheio de alma, com o piano, a voz e a gaita-de-foles a criar uma ambiência tipicamente escocesa, mas simultaneamente universal. Essa universalidade vem obviamente do cariz emocional do álbum, da tal vertente sanguínea e visceral que é uma linguagem que todos compreendem ou percecionam, sejam fluentes nela ou não.

A conjugação da competência e mestria musical com a veia emotiva bem pulsante fazem deste álbum uma aposta segura para os apreciadores da folk e simpatizantes que não têm receio de se deixar envolver e enredar numa onda mais carregada e melancólica, com todo o prazer e despir de alma que isso envolve. Sem medos, com muita víscera e muita alma.