É numa noite quente, no coração de uma Alfama colorida de azáfama e festa, que vamos encontrar o Lusitano Clube, simpático espaço de convívio e intercâmbio social e cultural que estaria para breve a receber os duros e gélidos motivos de uma muito intrigante banda norueguesa. Ao entrar pelo espaço, encontrando a sua bilheteira improvisada com uma mesa junto ao hall de entrada, as mesas de bilhar e as típicas cadeiras de café junto à entrada do bar acolhem-nos com doce simpatia. A noite é pacata e o ar está fresco; há uma tranquilidade nata a emanar daquele sítio, uma que talvez nos coloque no melhor mood para a abertura, a partilha e a descoberta.

São precisamente esses três pilares que se adornam à volta da música dos Ich Bin N!ntendo. Christian Skar Winther (na guitarra), Magnus Skavhaug Nergaard (no baixo) e Joakim Heibo Johansen (no kit) vêm da Noruega numa configuração de trio e a música que tocam soa tão jovial, carregada e entusiasmada como a precoce idade que todos aparentam ter. Contudo, há uma maturidade desconcertante na sua execução e conduta. A música que fazem sair dos seus amplificadores não é de todo uma brincadeira, apesar de não ter que se privar de sentido de humor. É, antes, uma nuvem densa e carregada de trovões no seu interior, é uma orquestrada tempestade de ritmos, texturas e ocasionalmente, melodias, cuja entrega nunca demonstra descuido, mas antes poderosa ponderação e polimento. Mesmo nos momentos em que estão a improvisar (que nunca serão assim tão poucos), os Ich Bin N!ntendo estão a manusear ao mais alto nível um som que é tão quente como ferro nas brasas.

É este virtuoso malabarismo que torna este som tão creditado às raízes do math como da música extrema, como da ética do jazz e da improvisação erudita, em algo que até em disco poderá parecer mais ambíguo de se compreender. Já em concerto, é uma autêntica sessão de action painting onde as próprias tintas são jorradas contra a plateia, que por sua vez, tem a oportunidade de sentir bem a fundo, todas as ricas e vívidas texturas que esta ficha tripla nos envia. Foi isso que foi possível sentir no pequeno salão de baile/ginásio do Lusitano, num ambiente eminentemente imersivo e acolhedor, onde no fundo da sala se gerou um concerto rock de ruidosas proporções. Sem estrado e sem barreiras, a gigante banda – não só no som como na própria estatura física -, interpretou canções de discos como Look e Lykke directamente na cara das cerca de 20 vinte pessoas que preencheram ordenada e amplamente a sala, sentadas ora nos tradicionais bancos de ginásio, ou nas cadeiras já preparadas para o efeito.

Esta frontalidade é um aspecto decisivo para um som que é realmente de confronto. É importante ver de perto, ter as condições para estar atento e poder desfrutar de perto do som dos dedos a espancar as cordas e acompanhar as energéticas danças livres dos dois homens que podiam estar de pé com a perspectiva constante de nos poderem cair em cima. A visceralidade faz-se sentir desde o início: a banda começa a construir o seu som devagar, a bateria começa como elemento agregador. Um padrão bélico e complexo começa a rodar num loop feito somente de trabalho de braços e aí se junta uma guitarra e um baixo que ao início parecem estar cada um na sua, interpretando o beat à sua própria maneira. As cordas da guitarra esticam e ressaltam, os tons dobram-se para cima e para baixo como maníacos. Do outro lado, o baixo pulsa um ensurdecedor estalo, tão seco concerto que poderia ser uma snare adicional na bateria. O guitarrista e vocalista Christian Skar Winther dobra as pernas e o tronco em espasmos lunáticos e vem à memória uma estranha interpretação alternativa do clássico moonwalk.

Neste ponto, a banda soa como uma espécie de um robô que já não funcionava há anos e está agora a iniciar o sistema ao mesmo tempo que retira a ferrugem, o que não é necessariamente dizer que o mesmo estava a acontecer à banda. Perversa e dançarina, a composição de tom levemente humorístico foi, na verdade, uma mestria de inicio à medida que a banda partiu daí para voos ora mais meditativos, ora mais cortantes, e sempre a elevados volumes. Durante um concerto que ainda se manteve confortavelmente afastado da marca de uma hora, os Ich Bin N!ntendo distorceram não só o som como a própria concepção de espaço e tempo. O rufar dos tambores ecoava numa distância quase entre o mundo acordado e o sonho, enquanto o baixo, serpentino mas imponente, lançava o seu linho à volta de uma guitarra abrasiva e histérica. Todas as texturas tinham a sua própria vida e soaram belíssimamente reais e palpáveis, sendo possível delinear os contornos de qualquer som que era produzido, algo importantíssimo para um espectáculo tão sensorial como este. Destaca-se por isso, a qualidade do som que se obteve naquela noite, não só pelo incontestável brio e perícia dos músicos, mas também pelo rigor da mistura, a cargo do técnico de som casualmente referido como “Pedro”.

Encontrando contornos muito plausíveis na performance art e na escultura sonora, os Ich Bin N!ntendo mantêm no seu espectáculo o incessante e jovial espírito do rock n’roll. Os riffs tempestuosos e matemáticos acompanham consigo danças desorganizadas e gotas de soar a voar pela sala. São as condutas mecânicas (com Winther a pontapear o ar repetida e geometricamente ao ritmo dos seus próprios acordes) que se encontram com a raiva primitiva da música pesada para fazer uma explosiva combinação entre o lado mais cerebral e carnal da música. Talvez uma das mais perigosas, certamente uma das mais fascinantes. No meio de um clima casual e entre a presença de amigos, a banda acabou por voltar ao palco durante duas ocasiões para tocar mais duas canções. Uma das quais, completamente improvisada on the spot sob uma marota melodia de baixo, no fim descrita pelo vocalista, sob risos, como “a melhor puta de canção que já ouvi“.

O grupo eventualmente resguardou-se para o fundo da sala para evitar futuras tentações e tão depressa como começou, o primeiro capítulo desta mini tour dos Ich Bin N!ntendo em Portugal decidiu encerrar-se. Para trás fica o gosto que foi experienciar música tão crua e potente sob o signo da experimentação de novas possibilidades. Arrojados e sem dúvida ávidos contribuidores para a eterna causa do rock e do que o espírito representa, os Ich Bin N!ntendo são uma discreta e escondida pérola musical que deve ser experienciada nesta dimensão orgânica e que com o seu som demonstram que não é preciso atirar pedras à polícia para se ser verdadeiramente transgressor.

 

As imagens de Ana Santos para ver aqui:

ICH BIN N!NTENDO @ Lusitano Clube