Inês abre a porta como quem abre o coração seja ele qual o mais difícil de abrir. Como Maga faz magia e inventa momentos de partilha, partilha todos os meses a sua sala, a sua cozinha, os seus sofás e a sua vista para a Avenida Da Républica. Dizem que a ocasião faz o ladrão, mas Inês Magalhães fez da ocasião a partilha do seu coração, dos seus amigos e da sua paixão pela música. Inês Magalhães tropeçou em 2012 numa ideia e quase sem querer criou as Maga Sessions. Ela e um batalhão de gente amiga que já o era, que se tornou e que vai crescendo aos poucos na família… entre eles contam-se aqueles que sobem hoje ao palco do 2º Magafest na Casa Independente, Norberto Lobo, Carlos BICA, Filho da Mãe, Lula Pena, Silence is a boy, Minta & The Brook Trout, Garcia da Selva, Simão e JIBÓIA.

Inês fala assim e na primeira pessoa…

Genesis.

A intenção foi preencher uma lacuna. Existiam várias falhas e esta casa tem algum espaço. A casa era dos meus bisavós, passou para os meus pais e quando eles faleceram, eu e o meu irmão ficámos com esta casa. Como é óbvio, passaram-se aqui muitas e muitas noites de música e amigos, eu tenho muitos amigos músicos, quase todo o cartaz, sem ser a Luna Pena e Filho da Mãe, já são amigos meus há muitos anos, o Norberto é amigo da casa há 20 anos – e haviam sempre muitos serões musicais cá em casa, eu trago amigos, alguns não são músicos, alguns são músicos. E o que acontecia era que ficávamos todos a tocar, era giro porque vinham músicos que não se conheciam e acabam por se conhecer aqui e gostavam muito, cada um tocava e aconteceu nascerem as Maga Sessions desses encontros que aconteciam cá em casa. Estávamos em 2012, a crise nessa altura estava no auge, eu não tinha trabalho como designer freelancer nessa altura. A primeira coisa em que as pessoas cortam é nas artes, arquitectura, design, música, também faço ilustração, isso é a primeira coisa a ser cortada e dinheiro não havia muito. Portanto programas haviam poucos, não tinha dinheiro para ir ver concertos, tinha dinheiro para ir ver um concerto ou outro, mas na verdade é que muitas vezes não tinha. Por outro lado os músicos têm projectos muito interessantes mas não têm jeito nenhum para se promoverem, não têm sequer muitas vezes material para se promoverem, ainda por cima se estão a começar não têm álbuns editados, não têm vídeos para se promoverem, portanto estes pedem um concerto numa casa e é quase como numa entrevista de trabalho. “Que experiência é que tens?/Não tenho/ Ah, lamento mas nós queríamos alguém com experiência“. E os músicos é um bocado isso. “O que é que têm para nos mostrar, ah só têm isto?” Faltava essa qualidade. E então como estava a dizer, como conheço muitos músicos, também passei pela fase de ver os projectos nascerem e serem criados de uma forma ou de outra, de uma forma mais próxima ou mais distante. E na altura pensei, bom se o Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé. Não posso fazer isso, mas posso convidá-los a virem cá a casa, abrir portas e partilhar – a casa tem bastante espaço – partilhar isso. Na altura nem foi para abrir portas ao público em geral, foi mesmo só algo de amigos para amigos, de partilharmos entre nós o trabalho de cada um, e nessas sessões  – o nome foi decidido aqui em 10 minutos – Maga Sessions porque eu sou Magalhães e a minha alcunha é Maga – e como designer e ilustradora sou a Maga – na altura foi vamos partilhar o nosso trabalho, e vamos gravá-lo. Logo desde a primeira sessão, o Gonçalo Soares que é quem sempre fez o vídeo – eu fiz alguns porque ele não podia, mas a maior parte dos vídeos foram feitos por ele – veio gravar a primeira sessão. Agora é assim eu gravo o áudio, depois eu edito o áudio, ele edita o vídeo e fotografias. Portanto também  os músicos ganham porque ficam com o registo. Vamos fazer isto, vamos fazer bem feito, começar  uma coisa com qualidade e muito sincera, é numa casa, é numa sala, o som é mais acústico, não há muita artilharia, tenho um PA e essas coisas mas sempre muito home made, mas o home made muitas vezes não quer dizer que tenha falta de qualidade. Então aconteceu o primeiro concerto, Coreto, foi o com Simão Palmeirim e o João Nuno Marques – o Simão vai estar agora outra vez. Esteve o ano passado no primeiro Magafest com Não Simão e agora vai estar como Simão, a solo. Foi a primeira Maga Sessions, dia 7 de Abril de 2012. E o concerto foi muito bom, muito bonito, elesmag2 foram uma banda que infelizmente não chegou a avançar, porque viver da música é muito difícil. O João era advogado e portanto não dava para conciliar ensaios e quando és músico tens sempre que ter outro trabalho quando começas senão não dá, é impensável. Quase todos os músicos que eu conheço, salvo raras excepções, tipo o Norberto já cá está há muito tempo consegue viver da música, quase todos o do cartaz. Por ex o  Simão não consegue, Garcia da Selva não consegue, músicos que ainda não têm nome não conseguem viver da música e isso às vezes cria incompatibilidades e faz com que os projectos não cresçam como foi o caso de Coreto. Podem ir ver ao Vimeo, no arquivo que entretanto se criou com os 4 anos de concertos que houve cá por casa, e eles são incríveis, são harmonias incríveis, cantautores os dois, duas vozes e duas guitarras, dos melhores projectos que tenho visto e tenho muita pena que não tenha seguido para a frente,  mas quando o concerto acabou – éramos 30 pessoas no máximo – e quando acabou ficou a sensação geral que se tinha assistido a algo especial. Não havia entradas nem pouco mais ou menos, no fim, quem pudesse e quisesse dava o que queria, havia um pagamento sugerido de 3€ mas nessa altura até havia pessoas que não davam porque não tinham, uma pessoa pode querer ajudar mas todos precisamos de comer. Havia outras que quando tinham também faziam questão de dar um maior apoio para os músicos – era um concerto que eles tinham dado, é tempo que uma pessoa perde.

Então aconteceu o primeiro, entretanto estava cá também a Mariana Ricardo de Minta & The Brook Trout que disse que a ideia era muito gira, gostou imenso, vou falar com a Francisca Cortesão e vamos fazer já a próxima sessão. Fizeram a sessão.

Maga Laboratory.

De todo havia a ideia de um continuidade, foi ir fazendo sessão após sessão, um festival então era impensável, nem pensar nisso.  E foi assim, dois anos em que as sessões foram correndo a par com a necessidade que falávamos de um espaço alternativo e do porque delas surgirem, o apresentar um produto diferente.  Em quase todas as casas há vários constrangimentos, seja de pagares à entrada, seja teres que estar sentado naquele lugar o tempo todo, tens um horário muito rígido de entrada, de saída, os músicos normalmente vão tocar o seu último álbum, ou alguma coisa que chame gente, ou seja, portanto a própria música fica muito constrangida com essas regras, que não são regras mas que os outros espaços têm e que impõe limites de certa maneira.

E aqui não havia isso. Era um espaço onde as pessoas podiam, até eu queria, que as pessoas trouxessem para os concertos, uma peça alternativa daquilo que estavam a fazer. Isso com os músicos é o que acontece mais vezes, a maior parte deles tem não sei quantas bandas, uma ou duas talvez saia cá para fora, e é por essa que as pessoas os conhecem , mas muitas vezes, como estava a dizer, músicos que se conhecem aqui e depois andam a “namorar” durante um mês ou 2 ou 3 porque artisticamente se encontraram e isso, muitas vezes, nós nunca chegamos a ouvir porque não vai para um álbum, porque não há concertos disso, porque não chama gente, portanto o que aqui se passou foi um pouco um laboratório, um espaço onde os músicos e conhecem e fundem… ou seja, quando me fazem a proposta, é o músico que me faz uma proposta, é o que é que ele vem cá tocar, a proposta é ele vir, e se eu conheço o trabalho dele e sei que tem qualidade tudo o que ele trouxer para mim é bem-vindo.

Não tenho vizinhos, nem em baixo nem em cima, senão era impensável. Houve um concerto do Gabriel Ferrandini, a solo de bateria, ele estava a partir a bateria, e eu estava na porta de entrada e a dizer se a polícia não vem cá hoje não vem mais. As bandeiras em cima das portas são de vidro. E o som criava um efeito impressionante. Ou com o Hugo Antunes, veio cá tocar com Miguel Mira e o Carlos Zíngaro, o contrabaixo, ele estava com um arco, quando dava a nota mais grave eram todas as bandeiras de vidro em vrooom. Há assim coisas que acontecem, a casa não está nada preparada para som, portanto às vezes acontecem assim uns insólitos.

DIY.

Cada vez mais recebo propostas de artistas que não conheço. Oiço sempre e respondo sempre mas como é um concerto por mês, há muitos artistas na calha. Mas isto requer bastante tempo. Eu faço toda a parte de design gráfico, eu é que edito o som, faço a promoção, eu é que faço a produção, eu sou a técnica de som também nos concertos.  Sou eu que faço os bilhetes, sou eu que vou imprimir os bilhetes, sou eu que corto os bilhetes. Tenho uma comparsa de trabalho e de armas, a Raquel Lains, que é a minha colega de trabalho, se assim se pode dizer, porque é a única pessoa com quem estou a trabalhar. Basicamente eu sou o projecto e a equipa inteira! E para o Magafest também.  Eu é que sou a produtora, sou eu que estou a alugar materiais, sou eu que fiz o cartaz, sou eu que faço os banners para os sites, sou eu que faço tudo, basicamente, que falo com os patrocinadores, que falo com os músicos, que vejo se eles têm jantar… Está a ser um pouco complicado porque realmente está a crescer e por isso também é só um dia o Magafest, porque enquanto eu não tiver possibilidade pagar alguém para me ajudar é impensável. Eu trabalho muito mas também tenho a boa vontade de muito boa gente, boa vontade para quando quando peço alguma coisa, não serem chatos e ajudarem a facilitar, a tornar as coisas mais suaves.

Familiaridade & Proximidade.

Passou um ano, passaram dois, as propostas foram sempre aparecendo e houve em Dezembro de 2013 a apresentação da Dream & Drone Orchestra que foi um mini Magafest, estavam 80-90 pessoas cá em casa, quase todas conhecidas, mas aí já nessa altura já muita gente que eu não conhecia, ao fim de 2 anos começa a aparecer muita gente que não conheces. O Dream & Drone Orchestra era a Mariana Ricardo, era o Manuel Mesquita, o João Lobo, e o Daniele, foi uma orquestra idealizada pelo Michael Biberstein, um pintor que era nosso amigo, bastante mais velho, mas que entretanto já tinha morrido há um ano atrás e ele tinha inventado uma orquestra, a Dream & Drone Orchestra. No primeiro aniversário da sua morte houve um concerto na Igreja de Santa Isabel e depois no dia a seguir aqui em casa. E aí, há medida que o tempo vai andado tu começas a perceber que as coisas só continuam quando há essa necessidade, se o projecto não for bom, ou se já houver muito disso não continua, naturalmente não continua. E portanto se as coisas continuavam e cada vez existem mais propostas, se calhar eu tinha encontrado um espaço alternativo ao bolo que nos dão. O bolo que nos dão é uma sala de concerto, normalmente, tens casas que felizmente dão-te outra experiências, a ZDB apesar de tudo dá-te outra experiência, mas normalmente qualquer sala é sempre a mesma coisa, e isso também afecta bastante os músicos. Tu notas nos concertos, tens o músico a 1 metro de ti, tens o pré-concerto e o pós-concerto, não há backstage, portanto os músicos estão aqui a beber uma cerveja mag4com a malta toda, às vezes se a casa está muito cheia já vão para o meu quarto, que é backstage, porque tens 80 pessoas que estão a querer falar e portanto é preciso uma certa paz de espírito antes de entrar em palco, mas quando acaba o concerto anda tudo pela casa a convive, não há constrangimentos. O que é bom é que é uma casa e por isso toda a gente acaba por ficar ficar afectado por esse ambiente de casa, mais descontraído  mesmo para os músicos. E depois entram em palco, estão a 1 metro das pessoas, e a sala fica abafada e tem que se ter cuidado em andar pela casa, as pessoas estão em respeito e há uma troca entre público e artista. O artista é bastante afectado, como nós, nós somos bastante afectados pelo que nos rodeia, portanto o artista quando está em palco sente muito a energia que vem do público e notas que há uma maior disponibilidade e também uma maior descontracção, sentes-te mais em casa. Acontecem conversas durante o concerto que tu não estás à espera, acontecem insólitos como parar a meio do concerto e pedir uma cerveja e a malta ri-se, não há constrangimentos, isto é assumidamente uma casa, está toda a gente à vontade, as pessoas estão no concerto, cansam-se um pouco, vêm para aqui, se há crianças as crianças normalmente estão aqui na sala, que é uma coisa que também não acontece numa casa de espectáculos, as crianças ou não vão porque não conseguem estar muito tempo sentadas no mesmo lugar, a certa altura fartam-se, e normalmente os pais só não as levam a programas porque isso acontece, e não querem também eles estar a sair. Muitas vezes acaba por as crianças estarem pela casa descontraidamente, e eu acho que essa diferença de espaço faz com que as pessoas fiquem surpreendidas e queiram voltar.

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Singularidade & Evolução.

Eu acho que a razão das Maga Sessions terem conseguido crescer, é porque o projectos aqui apresentados são diferentes. Tens o caso de Minta & The Brook Trout que vieram apresentar, fizeram um concerto que não fizeram em mais lado nenhum em que recantaram o CD de Beck, One Foot In The Grave, fizeram esse concerto aqui e em mais lado nenhum porque há espaço para se expressarem e para expressarem aquilo que andam a fazer. Não é que elas tivessem intenções de gravar aquilo, que não tinham. Ou, por exemplo, Garcia da Selva, que é o Manuel Mesquita, já cá esteve duas vezes e numa dessas vezes fez um video mapping. Ele é músico mas trabalha muito bem com vídeo e fez um vídeo mapping na parede lá atrás com ele a tocar piano e foi incrível porque aproveitou os frisos das paredes e fez realmente um projecto muito interessante. Este ano fizemos outra coisa, pusemos vários amplificadores pela casa em que ele criou uma linha musical em que se ia andando pela casa e entrando em vários momentos musicais que iam fade in fade out de um espaço para o outro. Não havia ninguém sentado em lado nenhum, as pessoas sentavam-se aqui, depois levantavam-se e iam mudando de lugar, havia sempre uma dinâmica pela casa. São estas coisas que fazem as pessoas ficaram curiosas. Às tantas, quando tenho 90 pessoas cá em casa, pensa-se que se calhar as pessoas gostam disto, vou criar um fest, um dia por ano porque não dá para mais, mas para mais gente. E daí também a escolha óbvia da Casa Independente, é uma casa muito parecida com esta, antiga, tectos altos, a escolha musical deles também é muito idêntica, graficamente também. Se não for noutra casa não faz sentido. Se o que faz a experiência ser diferente, é estar numa casa, se eu de repente for para outro lado, então estou a fazer o Magafest, um festival, a celebração das MagaSessions que nada tem a ver com as MagaSessions e em que a experiência é totalmente diferente. Adultera o conceito e já só é fazer um festival por fazer. Uma coisa que começou com tanto amor e que deu tanto trabalho, não pode ser adulterado assim, para mim, era desrespeitar-me ao fazer isso. Então falei com a Inês Valdez e a Patrícia Craveira da Casa Independente e elas deram-me a liberdade total, tanto do espaço da Casa Independente como de artistas como na arte gráfica, claro, e foi assim que o Magafest apareceu.

O Fest. A Diferença.

A mudança de espaço de espaço para um espaço maior foi a maior diferença entre as MagaSessions e o Magafest. E ter várias bandas num dia, essa se calhar foi a maior diferença. Eu já cá tinha experiências como a Dream & Drone Orchestra em que eles tocavam em orquestra e depois tocaram individualmente em vários espaços da casa. Houve aqui um solo do Daniele só com o saxofone em que ele brincava com os feedbacks. Mas foi sair para outro sítio maior, com muita gente, foi óptimo, foi incrível. Perdes um bocado a noção quando pensas, eu aqui não posso ter mais gente, perdes um bocado a noção da dimensão do que fizeste. Então este ano está totalmente a ganhar uma dimensão que eu não previa. 2000 pessoas dizer que vão, cabem 250 na Casa Independente. É bonito, tanto para mim como para os músicos, porque como deves calcular sem apoios – hoje felizmente tenho a Jameson, já no ano passado me apoiou e apoiou as MagaSessions e entretanto apareceram mais patrocinadores, o que dá para melhorar algumas coisas na produção. É muito trabalho e eu estou praticamente sozinha. Todos os nomes no alinhamento do Magafest já vieram cá tocar, sabem como é que o projecto funciona. Eles quando aceitam o convite já sabem o que é e aceitaram todos logo. Todos os que eu perguntei aceitaram e aceitaram com um sorriso porque também vêem o trabalho que é aqui feito ao longo do ano para eles, para a música, é o espaço deles, este é o espaço dos músicos. Eles dizem-me, tenho um projecto com não sei quem e quero ir mostrar. Fixe, bora lá.

A passagem foi muito suave, ficas sempre muito feliz de ver que as coisas que andam para a frente, mas há uma pergunta que me fizeram este ano que eu não estava à espera. Então e o que mudou, da primeira edição para a segunda? E eu disse, felizmente pouco. Porque no que está bem não se mexe. Eu fico tão feliz que pouco tenha mudado, porque o primeiro já foi tão bonito. Tens músicos de qualidade reunidos num dia, o preço é baixo, correu tudo bem, toda a gente super fixe, a equipa que eu juntei, correu tudo muito bem. No segundo ano eu quero que corra assim, eu espero que nada mude. claro que em termos de produção fica tudo mais suave, especialmente em relação aos tempos. De resto, está praticamente tudo igual.

Privacidade & Estranheza.

Quando tens a casa onde vives e a partilhas uma vez por mês ou mais com 60 pessoas que tu não conheces de parte nenhuma, a mexer nas tuas coisas, a mexer no sofá, descalços às vezes. Isso ao fim de 2 anos passou-me, agora as
pessoas perguntam-me isso e já nem me consigo quase identificar com essa estranheza que ao princípio existia. Mas tudo se conjugou para que as coisas acontecessem desta forma. Dinheiro não havia mas havia know-how tanto da parte do som, do vídeo, como de tudo o resto, dá para criar o mínimo de condições, um conjunto de características que faz com que seja um projecto com qualidade e sinceridade, mais do que tudo.

Mag1

A forma como eu olho para a casa, a casa onde eu vivo, onde eu tomo o meu pequeno-almoço e jantar é a sala de concertos. Há dias, a maior parte do tempo, eu lembro, mas a maior parte do tempo não me vem à cabeça. Mas às vezes estou a tomar o pequeno, especialmente sozinha, e lembro-me de concertos. Aqui ouvi Carlos Bica, ou Tape Junk ou They’re Heading West e outros, e é bonito. Claro que a mim me altera. A casa praticamente não se altera, sai apenas a mesa de jantar por razões óbvias de espaço, que fica totalmente diferente.

Em tom de brincadeira, eu era bastante apegada às minhas coisas. Faço os concertos cá em casa, é um desapego enorme, mudou-me imenso como pessoa, abrir e confiar. Tenho aqui as minhas coisas, esse confiar nos outros, esse crescimento pessoal. É um domingo, às 18h, uma vez por mês, às vezes mais. Eu trabalho durante a semana, portanto os fim-de-semana são para descansar. Às vezes não me apetece nada ter um concerto ao domingo, acordar cedíssimo para arrumar a casa, para tratar de toda a produção, para fazer o som e são 10 da noite, acordei às 10 e estou-me a deitar às 10. Não me apetece nada, fico cansadíssima, até porque o meu domingo passou para a segunda, quase sempre. É também um bocado o forçares-te mesmo quando não me apetece mas tem que ser. Eu gosto disto, isso acontece com o trabalho mas não é a tua casa, a coisa de ser a tua casa é uma coisa muito intrusiva. Vocês vão para casa para o vosso ninho para se recolherem e ás vezes estás mal, estás triste com algo. Acho que ensina muito o desapego e isso para mim é muito importante.

Lembro-me perfeitamente da primeira pessoa que veio cá a casa que eu não conhecia. Era uma italiana que entanto já veio a não sei quantos concertos, a Romina, tocam à porta, eu vou à porta,

«-Concerto?

-Sim, mas… quem é que conheces?

-Eu não conheço ninguém…

-Então, mas como é que sabes do concerto?

-Ah, porque está na agenda tal.

-Bom, então, entra!»

Magafest.

É uma festa, uma festa musical, um dia de celebração. As pessoas perguntam-me qual é a regra para vir aqui às MagaSessions, eu digo regra não sei, mas há uma coisa que é serem boa gente, boas pessoas. E eu acho que isso acontece também no Magafest, há sempre uma boa onda, as pessoas dão-se todas bem, ninguém se chateia, eu acho que as pessoas podem esperar um dia de festival muito bom e diferente. Quero que o público sinta a continuidade das MagaSessions no Magafest, senão não faz sentido. Acima de tudo qualidade e sinceridade. Sinceridade principalmente. São músicos incríveis.

A minha preocupação é que as pessoas que vêm à casa ou ao Fest tenham uma experiência diferente. Não só pelo espaço, toda a envolvência, maioritariamente e obviamente por quem eu trago, pelo músico, por quem vem à casa, e que esse músico faça sentido. Todos os músicos que vêm à casa, todos que vieram cá são músicos que me tocaram e me mudaram e que chegaram perto, e provocam um alvoroço cá dentro. Se gostares e se te afecta – quando te afecta é porque tiveste um alvoroço e isso afecta-te amanhã e afecta-te no dia a dia e faz-te um pouco diferente – quando és atingido e alguma coisa te transforma. E o que eu gosto de trazer aqui é essa transformação, é esse transtorno às pessoas de virem, chegarem de uma forma e saírem diferentes. Acontece muita vez as pessoas chegarem cá, não saberem o que é o projecto, ouvem e acabam o concerto com uma dose de adrenalina que parece que saltaram de pára-quedas. Foram atingidas, houve essa mudança nelas e isso acontece.

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globetrotter, infografista frustrada, seinfeldo-dependente, apreciadora de aviões, perfeccionista ocd e com vários títulos académicos em factos irrelevantes.

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