DIIV - Is The Is Are: Serpentes em labirintos
85%Overall Score

Is The Is Are é o longamente aguardado, sucessivamente atrasado segundo disco da banda e surge sob o complexo contexto atribulado da vida de Cole Smith. Escrito entre fases de luta e reabilitação contra um problema de heroína, todo o disco revolve à volta do confronto, do desanimo, da vida, da morte e da superação, assumindo assim, um patamar semântico muito diferente de Oshin, o disco de estreia.

Onde o primeiro disco era um conjunto de deambulações sonâmbulas e nebulosas sob um som que banda mostrou dominar desde o início, o segundo (que dilata a sua ambição ao ser um álbum duplo) é algo mais concreto, com um objectivo, com uma voz e uma mensagem, deixando-se tratar pela essência sonora desconexa e hipnotizada que desde o início é puro DIIV.

Não estamos portanto perante uma revolução ou um disco decisivo. Somos, contudo, confrontados com um disco que em muitos aspectos absorve Oshin e dissolve-o junto dele, precisamente por-lhe ser uma continuação em todos os aspectos sónicos, pelo menos. Is The Is Are faz o muito bem construído primeiro esforço parecer um treino e assume-se como um disco cheio de corpo, intenção, brio e competência. Traz também consigo um imaginário real e concreto que liberta os DIIV do seu próprio som e que lhes dá personalidade e textura enquanto banda e indivíduos.

É um trabalho importante, pois a partir daqui já não serão conhecidos mais como “a banda das guitarras e das baterias em loop” mas sim como artistas capazes de fazer música focada, que vai a algum lado. Se há um mérito maior em Is The Is Are é precisamente isso: trazer à banda o rumo e coerência que lhes dá textura “de mundo real” ao mesmo tempo que os deixa permanecer a mesma nuvem enigmática e divergente, com o encantador argumento circular que é o seu som.

Assim, tudo o que se ouve aqui não difere loucamente do que havia em Oshin. Alias, muitas vezes encontramo-nos na sensação de estar a ouvir uma reciclagem directa das mesmas secções rítmicas, rígidas e motorizadas e o mesmo baixo pulsante, que consegue simultaneamente servir como um instrumento de suporte e o elemento verdadeiramente principal e motriz das canções.  Podemos dizer que, em 17 temas, praticamente a totalidade de Oshin é revisitada, revolvida e refrescada, com o som da banda a surgir mais corporeamente que nunca.

Isto reflecte-se na construção das canções, que agora, providas de uma função de veicular os sentimentos e experiências de Zachary Cole Smith, estão mais desenvolvidas e vivas. É particularmente gratificante notar como o trabalho nos DIIV se tornou algo sonicamente mais democrático (o primeiro foi integralmente composto e tocado por Smith) ao explorar as diversas texturas e nuances que despontam em “Incarnate Devil“, por exemplo, que rejeita a típica constância do primeiro disco para se tornar em algo progressivamente mais tenso e afunilado para o fim, como um túnel que se vai apertando à medida que a situação agrava. As canções agora dão-se ao direito de se transmutar, de crescer dentro delas.

A isto acrescenta-se o rol de influências que provavelmente já acompanhava a banda, mas só agora se torna realmente claro com esta sua configuração mais solta. Zachary Cole Smith havia afirmado que em Is The Is Are, se tinha inspirado numa estética muito semelhante a Bad Moon Rising, e é especialmente curioso conseguir perceber onde é que os traços desse disco (e outros dos Sonic Youth) se encontram presentes. O caso mais interessante poderá ser “Blue Boredom”, onde entra a companheira de Cole Smith, Sky Ferreira, a fazer um papel de espectro assombrado que surge a murmurar por cima de uma tribal distorção, ecoando a presença de uma jovem Kim Gordon.

A canção refere muito vagamente algo como uma união marcada com as cicatrizes da vida que é, ainda assim e por isso mesmo, uma união com força e peso, e é um dos momentos com mais personalidade do disco. É também, influências à parte, uma canção muito DIIV-iana no seu próprio direito, sendo de uma ou mais formas até, uma companheira à notória “Doused”, de Oshin.

A grande novidade é mesmo como a banda encontrou uma forma e uma estrutura, algo que sobressai especialmente sendo este um álbum duplo. Temos uma sensação de viagem e progressão e estamos a acompanhar um percurso feito de oscilações. Se a primeira parte se conserva mais aguerrida e sonhadora, o disco rapidamente rodopia para locais mais negros. Essa divisão, feita por uma faixa título que utiliza a linguagem motorik dos NEU! para descrever uma luta pela sobrevivência contra o próprio “eu”, introduz-nos aos contornos mais perigosos e selvagens que os DIIV já nos mostraram.

As guitarras ficam mais pesadas e rasgadas, a entrega vocal mais críptica e paranóica e a sensação de encurralamento surge palpável. Em contraponto com mensagens de esperança e de força como de “Yr. Not Far” e “Under The Sun“, encontramos Smith a lidar com a tentação na já referida “Incarnate Devil” e a esforçar-se para recordar (fazendo-o muito vagamente) uma qualquer presença que possa ajudar a manter-se no seu curso em “Mire (Grant’s Song)“.

Contudo, o momento mais intenso do disco será “Waste of Breath“, onde encontramos um homem a confrontar-se com a total resignação face ao seu vício. É uma forma poderosa e sufocante para uma banda terminar um disco, com uma mensagem discutivelmente tão pouco esperançosa, insistindo num nó que mantém apertado até ao fim.

A verdade é que Is The Is Are é um álbum corajoso e forte. Não é desesperado, mas certamente não é alienado ou inconsequente.  É antes o reflexo de um conjunto de experiências e pontos de vista que ofereceram à banda e a Zachary Cole Smith em particular, uma série de aprendizagens que poderão ser vitais na vida e na arte. Sob a égide de um tema frágil e sério, o estado meio adormecido, meio acordado dos DIIV é agora mais nítido e conciso sem estar propriamente a disparar para um objectivo em concreto.

Encontrando-se num balanço constante entre o mundo real e o nevoeiro onírico, o segundo disco dos nova iorquinos é um registo louvável, conscientemente escrito e meticulosamente arranjado e ainda assim, extremamente ambíguo relativamente aos locais que quer chegar a nível sonoro e lírico. É o perigo desta incerteza que vai fazendo os DIIV uma banda sucessivamente irresistível que, sem sabermos, nos emaranha no meio da sua teia. E nós a gostar.