O que Bombino fez pela música Tuareg quando aliou o legado musical dessas paisagens desérticas com os riffs impressionantes da sua guitarra eléctrica – daí receber o epítome de Hendrix do Deserto -, encontra o seu doppelgänger egípcio em Islam Chipsy e nos seus parceiros de crime, os EEK, na (aparentemente) vulgaridade da música electrónica. Ao chegar à Casa Independente, dir-se-ia que a noite iria redundar em algo próximo do falhanço, já que o público escasseava dentro da sala e por isso os sortudos pontuais tomam então de assalto o golden circle imaginário da sala. Malas e casacos são abandonados nos parcos bancos e mal existe tempo para ir buscar líquidos para substituir o que vai evaporar durante o set.

No palco não existem MacBooks topo de gama, softwares carregados da parafernália habitual dos DJs, controladores MIDI ou processadores de preço impronunciável. Apenas duas baterias, juntas com um teclado Yamaha comum, absolutamente despretencioso e com ar de ser bastante amado pelo uso que apresenta e pelas incontáveis viagens que já deve ter feito. Islam chega com um sorriso matreiro e uma postura travessa de quem tem orgulho no furacão que está prestes a causar. O seu Suicide Squad Mohamed Karam e Mahmoud Refat, a.k.a. EEK, levantam os braços em jeito de saudação antes de se posicionarem nos seus respectivos lugares e, a partir daí, a loucura invade a pequena e modesta sala.

O concerto de Islam Chipsy foi o equivalente a uma pequena erupção vulcânica em que as melodias árabes jorram timbres electrónicos e sintéticos nuns bons BPM que nos submergem os sentidos. A velocidade das mãos e dos punhos a voar sobre o seu sintetizador diabólico e a explosão ensurdecedora e magnética das batidas orgânicas e impressionantemente articuladas das duas baterias pelos EEK, levanta de imediato uma onda de calor que queima e desfaz qualquer resquício de postura corporal que se teime em ter. Os dedos fervilham sobre o teclado num manancial fervente de vida, um assalto alegre de artilharia de percussão e trituração dos pratos que envolve a sala num frenesim tribal. A ambiência no local era digna de uma actuação da banda de Emir Kusturica com toda a sua energia alegre, anárquica e contagiante ouvida no pulso e no coração palpitante tendo como banda participante os Rammstein. Uma espécie de mash up improvável mas inqualificavelmente eficaz.

Islam Chipsy Casa Independente

Islam, qual maestro, vai impondo um ritmo cada vez mais frenético aos dois percussionistas, e as reverbações daí resultantes sentem-se em cada músculo dos presentes e nos ouvidos das restantes pessoas espalhadas pelas salas contíguas da Casa Independente e, garantidamente, em todo o Largo do Intendente. Um diálogo cruzado, recheado de private jokes, entre estes três personagens, aquele a que temos a sorte de estar a assistir. Sem necessidade de legendas, porque a união que cresce a cada impacto do teclado, a cada tareia nas baterias, as torna desnessessárias. A programação da Yamaha é simples sem toda a exorbitante paleta de efeitos presentes em actuações deste tipo, sendo bem transparente na repeticão em loop de certos ritmos, mas isso só empresta autenticidade e dinamismo ao acto ao invés da robotização de um teclado padronizado.

Todo o set é um retorno à essência primordial da musica de dança: diversão, prazer e alienação, criando um somatório perfeito de raiva e esperança e encontrando até uma afinidade aos primórdios da música punk no que tem de anárquica e crua. Um virtuosismo em estado puro e violento que ataca a espinha dorsal através dos ritmos furiosos da baterias e das sirenes dos teclado. O som é cru e distorcido, o volume ensurdecedor, mas a energia das composições raramente falha e a electricidade que nos trespassa bastante alta. Quando terminam a noite, sorridentes, abandonam o palco e o público está longe de estar satisfeito e pede um bem merecido encore.

A estática da adrenalina é ainda demasiado emaranhada na pele para que a promessa de ar fresco conseguisse seduzir o abandono da sala. Quando Islam Chipsy & EEK entram de novo em cena, resvalamos para outro redemoinho vertiginoso desencadeado por um loop alucinante de set final, aumentando cada vez mais as batidas por minuto até uma espécie de êxtase colectivo final. Alegremo-nos por este constante alargar das fronteiras da música electrónica tal como a conhecemos. É vibrante, surpreendente, emocionante e inventiva. É hipnótica, difícil de ignorar e resplandecente na sua simplicidade. Que nunca nos falte.