James Dean Bradfield tem feito um verdadeiro serviço público ao não permitir nunca, ao longo de toda a sua obra com os Manic Street Preachers – ou a solo no disco de 2016, The Great Western -, que o rock se esqueça que é roda dentada essencial nas consciências ao atrravessar quase três décadas com palavras de ordem nada subliminares. A mira centrada em temáticas sociais e políticas, e nas formas devastadoras como ambas são duas partes da mesma arma de destruição maciça dos corpos e das almas das sociedades modernas, James Dean é claramente uma das penas mais assertivas e conscientes na cena musical do final do século passado e deste começo de milénio.

Assim sendo não é de estranhar a sua colaboração com os Public Service Broadcasting no mais recente trabalho da banda – Every Valley -, que tem como pedra basilar precisamente de um dos símbolos da terra natal de Bradfield, o País de Gales. O disco dos londrinos conta a história – e estabelece os respectivos paralelos com o state of the nation global -, da industria mineira, da sua glória até ao esquecimento e consequentes reflexos arrasadores na população. O principal compositor dos Manic entrega a sua voz em “Turn No More” que recebe agora o respectivo tratamento visual.

“Turn No More” é, propositadamente ou não, uma canção mais próxima do universo preacheriano do que do habitual som dos Public Service Broadcasting, e distingue-se no corpo de um disco que avança sem dó por entre estilos, carregando numa mão a densidade do post-rock e na outra o hipnotismo do kraut sem deixar de explicar como se pode simplificar os estilos e ao mesmo tempo criar uma obra conceptual de estruturas definidas nas fronteiras do pop (leia-se canções definidas segundo uma estrutura simplificada).

No vídeo realizado por Glashier viaja-se até Ebbw Vale no sul do país para encontrar os cadáveres abandonados e ferrugentos de uma indústria… ou será de uma era de erros que se espera não volte tão cedo? J. Willgoose Esq. explica os conceitos e os sentimentos inerentes tanto de “Turn No More” como de todo o disco:

I wanted the track to have a restrained, plaintive, defiant but still angry feel, and working with James’ voice and the source material was a bit part of that, especially layering the voices towards the end. At its heart it’s a song about the people living with the aftermath – both environmental and personal – of the desolation caused both by the practices of an industry and its subsequent collapse.

Every Valley saiu em Julho passado pela Play It Again Sam e “Turn No More” é já o terceiro vídeo para o terceiro disco dos Public Service Broadcasting depois de “Progress” e de “They Gave Me A Lamp“.

Lê tambémA acessibilidade comunicativa de ‘Every Valley’ dos Public Service Broadcasting