Um teclado, mãos e voz que falam e agem desalentadas em batidas distorcidas e letras melancólicas. Uma viagem ao subconsciente do amor próprio, uma viagem à indagação, a permanência do amor querido e das variações de romances e casos da vida. As vibrações repetidas apontam em determinada direcção mas é verossímil afirmar que o britânico James Yuill vive num constante misto de sensações, um paradoxo: alegres as nuances electrónicas e tristes as composição orais e escritas. A dor constante que parece residir em Yuill é apenas intercalada pelo sorriso irónico com que enfrenta a vida, uma amargura projectada nos seus vídeos  através de um sentimentalismo de soturnidade inerente a qualquer ser humano.

Desde The Vanilla Disc, o seu álbum de estreia lançado em 2005, James mantém um padrão repetido de ambiências sonoras próximas da folktronica do qual não se afasta em Turning Down Water For Air de 2009, Movement In A Storm de 2010 e These Spirits de 2013. O padrão forma uma experiência estranha e imersivamente desconfortável. As batidas vãs e rápidas vão vagarosamente inundando os ouvidos de uma náusea que torna difícil identificar o que se passa com Yuill. Por mais que as suas influências assumidas se alastrem a um largo espectro indo desde Nirvana a Justice e de Nick Drake a Aphex Twin, James Yuill assenta as suas composições nos campos da folk e da electrónica, mostrando a sua melhor veia nas músicas onde a base digital obtém menos destaque e quando paira uma maior presença da folk sobre a sua escrita.

“Fire Breathing’’ é o primeiro single do novo disco a sair no dia 28 deste mês de julho e James aproveita-o para sublinhar o título do disco, A Change In State. Através de um amadurecimento de ideias, Yuill coloca a sua música em conversa com os vários elementos que a compõem. Os beats electrónicos e melódicos concisos provocam um deleite auditivo e abrem caminho a uma viagem, uma viagem realmente boa, reflexiva, intuitiva com vista para os ingredientes de folk que James tão bem manuseia. No novo vídeo para o tema, o britânico cria tudo sozinho no seu quarto, introduz formas abstratas e alguns elementos que não deixam de trazer à memoria a nostalgia tecnológica da vaporwave. Sobre “Fire Breathing’’ James Yuill conta que

I originally set out to write the most depressing acoustic song ever. Written from the perspective of a mother who once was the centre of her baby’s world, but now sits alone, by the phone, waiting for her child to call. For the better, I got side tracked and it turned into a bass heavy banger.

É, de certo, de esperar que as novas canções sigam o padrão de ‘’Fire Breathing’’, mas que também de alguma forma inovem. O britânico coloca-se como um dos propulsores da folktronica do século XXI junto com Fourt Tet, Caribou, Ellie Gouding e Goldfrapp. James Yuill carece apenas de cair mais fundo na sua música, na sua relação com o público e ir buscar inovações que atravessem o oásis das repetidas melodias. Talento, James tem de sobra para isso.