Chegada a quarta noite do Jameson Urban Routes ’16, a fila serpenteante à porta do Musicbox – das maiores a que já assistimos -, não deixa dúvidas: o chamamento da sessão mais rock do festival surtiu efeito. E se a casa não esgotou, terá sido por muito pouco, tal era o aconchego sentido na sala.

A estrear o palco nesta noite de finais de Outubro invulgarmente quente, estiveram os Thought Forms, banda formada em Bristol com ligações aos Portishead: para além de os terem acompanhado em digressão, fazendo as primeiras partes dos seus concertos, colaboraram já com Jim Barr e Adrian Utley. A desempenhar as mesmas funções com os 65daysofstatic nesta tour europeia, Charlie Romijn, Deej Dhariwal e Guy Metcalfe não deixaram créditos por mãos alheias, surpreendendo o público lisboeta ao apresentar um set relativamente curto, mas bem poderoso.

O trio apresentou canções do novo Songs About Drowning, terceiro longa-duração editado oficialmente no início de Novembro. Pelo que foi testemunhado, é prometida uma ligeira progressão sónica, pondo um pouco de lado a influência do garage rock esgalhada em trabalhos anteriores a favor de composições mais expansivas e etéreas, sempre assombradas pelo doom que lhes é inerente. Ao vivo, os Thought Forms marcam, em parte, pela mestria em dinâmica musical, executando crescendos e mudanças de andamento com uma agilidade impressionante. Quando damos por nós embalados por um riff hipnótico e baixo a cair em monotonia, somos imediatamente abalroados por um refrão com uma descarga energética que surge sabe-se lá de onde.

Por outro lado, a banda não tem pressa quando pretende criar tensão, levando o seu tempo entre cadências de bateria que podiam estar num disco dos Black Sabbath ou recorrendo a melodias de hulusi, peculiar instrumento de sopro chinês que se assemelha a uma flauta à qual é acoplada uma cabaça. A experimentação sónica do noise é também bem-vinda, como demonstraram as acrobacias de feedback por parte de Deej. Após esta exibição, é claro que os Thought Forms são uma grande promessa da música mais barulhenta feita em terras de Sua Majestade, ficando assim a vontade de os voltar a ver de novo pelo nosso país.

Fotogaleria completa de Thought Forms no Jameson Urban Routes ’16

 

Depois da breve remodelação do palco, era altura da atração principal. Visivelmente bem-dispostos ao longo da noite, os 65daysofstatic debitaram um alinhamento bem recheado que terá facilmente satisfeito tanto os fãs de longa data como os que chegaram mais tarde à música atmosférica do colectivo. Music For An Infinite Universe é a obra que traz os ingleses por cá: composto como banda sonora original do videojogo de ficção científica No Man’s Sky, o álbum foi bem representado ao vivo por alguns dos melhores temas da noite. “Asimov”, pesadíssimo como o nome que carrega foi, sem dúvida, um deles. Após a abertura com um entorpecedor “Monolith” desde logo a exibir a banda em estado de graça, a performance da faixa ponta de lança deste novo disco mostrou a dimensão do portento sonoro que os 65daysofstatic conseguem gerar ao vivo. Exemplo disso, assim como da simultânea exploração espacial sónica para que o som do grupo remete, foram também “Safe Passage”, já mais perto do fim ou “Supermoon”, esta última devidamente acompanhada por imagens de Saturno projectadas no fundo do palco.

Houve ainda vislumbres da influência de subgéneros da electrónica, assim como o techno e drum & bass no som dos 65daysofstatic, principalmente em temas mais antigos como “Prisms”, do muito bem recebido Wild Light de 2013. Foram também as canções mais velhinhas que despoletaram as reações mais efusivas do público, talvez a maior das quais em “Radio Protector” com uma bela melodia ao piano sucedida pela intensa destruição sónica característica dos rapazes de Sheffield. Menção honrosa para “Heliosphere” que se destacou com elegantes gotas melódicas de sintetizador logo na introdução, assim como pela demonstração do absoluto domínio sobre as máquinas de fazer som que o conjunto tem.

Estando o público já musicalmente saciado, a banda ausenta-se, mas não foi preciso esperar muito para que voltassem aos seus respectivos postos no palco. Como disse Joe Shrewsbury, o bastante comunicativo guitarrista e frontman, já que chegámos tão longe, seria um desperdício parar agora. E tem toda a razão: seria como ir à lua e não deixar lá meia dúzia de pegadas. Assim, a banda entregou-se de corpo e alma ao encore, primeiro numa “Debutante” carregada pelas guitarras e de teclas postas de parte para o “miolo” do tema antes de uma viagem a 2004 e ao primeiro longa-duração, The Fall of Math, com a banda a dar tudo num medley baseado em “Default This”, no qual Rob Jones se destacou alternando entre percussão digital e analógica. No fim, era palpável o sentimento de satisfação na sala, tanto por parte da banda, que se dedicou à distribuição de autógrafos, como do público, que bem os recebeu e acarinhou. Fica a promessa do regresso em breve. Aos 65daysofstatic era impossível pedir mais, tal a entrega aos instrumentos e à música que a banda exibe. Até ao infinito, e mais além.

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Na sessão 7 do Jameson Urban Routes ’16, houve ainda tempo para assistir à performance de Teebs, produtor baseado em L.A. com associações à cada vez mais relevante Brainfeeder de Flying Lotus. Nascido Mtendere Mandowa , Teebs é também reconhecido pelo seu trabalho nas artes visuais, actividade que pratica em paralelo com a música. Apesar da relativa fraca afluência para esta sessão – o caráter mais tardio da mesma, a meio da semana, num dia recheado de concertos um pouco por toda a capital terá sido factor contribuinte -, o público mostrou-se dedicado e interessado em acompanhar o set do produtor.

Sempre atmosférica e espaçosa, a música de Teebs foge à categorização fácil, dispensando as batidas mais directas dos seus companheiros de editora a favor de ritmos mid-tempo e melodias que conjuram paisagens sonoras surreais. Raramente a acelerar o passo, mas mantendo uma pulsação constante, Teebs soube recorrer às suas texturas aparentemente orgânicas, mas com nebulosidade caracteristicamente citadina para pôr os corpos a mexer e as mentes a sonhar. Como dizia alguém, é música com pés e cabeça.

Teebs @ MusicBox

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