Serão cerca de duas ou três horas da manhã no fuso horário das paredes de pedra do Musicbox. Ninguém sabe bem, porque o Inverno veio para baralhar as contas aos nossos ponteiros. Ninguém sabe! Ninguém quer saber!

Um homem, um piano e as canções de amor e o escuro das paredes de pedra.

Serão cerca de duas ou três da manhã, ninguém sabe bem já, nem agora nem na altura, quando Spencer anuncia “Fast Peter” e dança para a frente e para trás com as teclas do piano solitário de quem sabe amar bem demais, simplesmente demais. E que bem que este senhor sabe amar demais. Quem não sabe, não escreve assim; não canta assim, não faz chorar assim!

“Fast Peter” nas colunas da sala e as palavras “So Peter loves a girl / The way that only Peter does” e Peter, como só ele sabe amar (de forma tão única como Krug), sorri como só ele sabe sorrir e tu… entre o escuro e os salpicos de ténues luzes de tantas cores em pequenas esferas espalhadas por toda tu, sorris e sabes que são momentos, sabemos que são momentos, sabemos que estes são os momentos que fazem as histórias de amor.

Entre Peter e tu, entre Spencer e as palavras e nós e os todos que, silenciados pelo piano cravado em projecções ao fundo do palco escuro saboreamos cada nota como cada gota de suor que cai nas teclas… houve uma especial que ficou a brilhar reflexos na ponta do cabelo de Spencer por largos momentos em “Barbarian”. Que bom que é ver concertos em salas como esta, onde a distância pode ser tão curta como uma gota de suor!

São paredes de pedra, são florestas concretas, são candeeiros de rua que quase não iluminam, mas dão a luz mais que suficiente nas projecções no palco a noites de Verão com horários de Inverno para que canções como “The Fog”, “Love The House You’re In” de Julia With Blue Jeans On – o disco com a canção com mesmo nome que iria terminar a noite -, “Helsinki Winter 2013” ou “City Wrecker” fechem de forma demasiado humana aquilo que antes Tim Hecker desumanizou de forma alienígena. Virginal I marchou sala dentro entre noise e dissonâncias para apresentar os beats assumidamente não dançantes de “Virgins”!

Hecker é o mestre, o porteiro da noite, abre caminhos densos a uma banda sonora para uma alien abduction colectiva. Talvez tenha sido uma hora – talvez menos – debaixo de um pequeno foco de luz – talvez esbranquiçado, talvez azulado – o tempo que o canadiano esteve ao comando da sala de operações onde, enquanto torcia botões e lançava incisões sonoras lancinantes aos cérebros, nitidamente desconfortáveis e apanhados na surpresa da violência que foi a experiência sem palavras daqueles minutos incontáveis, submeteu a uma cirurgia sónica e extrassensorial de pormenores místicos e encantamentos maravilhosamente quasi religiosos toda uma massa única de almas envolvidas numa espécie de meditação colectiva versão bulldozer industrial. Estranha a sensação, primeira e única até hoje, de ser envolvido num verdadeiro abraço de som: para qualquer lado que os corpos planassem, o som vinha literalmente de todos os lados em envolvências hipnóticas, enquanto os graves estremeciam de baixo da pele que estalava em calafrios a cada variação sonora pela voz das virgens.

Se Wagner fosse vivo, seria Hecker?!

Antes da noite havia a noite, antes das experiências quasi religiosas havia a noite… havia a noite de Medeiros/Lucas, da nacional canção fundida com ideias a surgir, havia José Mário Branco e os cantores da revolução. Antes da noite havia o Ultramar e a poesia açoreana à luz de uns Dead Combo ou das artes electrónicas pintalgadas de Médio Oriente e África de Jibóia, que sobe ao palco como convidado para esta primeira aparição do projecto. Antes da noite havia a noite de Medeiros/Lucas, mas por agora o dia ainda não lhes nasceu.