Halloween, a noite de todos os mortos ou a noite em que os Patráculas se levantam da campa para calcorrear as ruas um pouco por todo o mundo. As criancinhas pedem o Pão Por Dylan em forma de futuras cáries e calorias extra para serem abatidas mais tarde com um MacMorrissey numa roulotte azeiteira e gordurosa enquanto o sol não nasce. Ah, a fabulosa Noite Das Bruxas onde a Olívia Palito, sevilhanas, ursinhos e cangurus, cada uns mais fofos que outros, dançam até o sol raiar em pistas onde o Thriller do Michael Jackson é tão importante numa setlist embruxada como o “Bela Lugosi’s Dead” dos Bauhaus. Meninos, o Carnaval é em Fevereiro (acho eu)… Onde está o Drácula, a bruxa sexy, a múmia das ligaduras presas com pensos com bonequinhos de abóboras florescentes ou os Jasons, Freddy Kruegers e psicopatas afins da vida?! Jezzz, as pessoas perderam mesmo o sentido real das coisas!? Assim tanto?!

A noite de todas as maldições e máscaras inusitadas teve um parceiro à altura em mais este copo de Jameson. Entrar numa casa e a sensação de estar a entrar no corredor da morte… não, não, nada de sangrento, apenas o joguinho onde alguém passa num corredor para apanhar uma pequena surra disfarçada de brincadeira! Gente no balcão e gente na parede em frente, num corredor que anunciava a morte de uma noite logo à nascença. Pouca, tão pouca gente!

Os The Glockenwise desceram de Barcelos mais uma vez até Lisboa para festejar de gin na mão… só para desconversar do whiskey que os transportou até cá. Vestidos de super banda britânica, ou a melhor máscara de Halloween da noite, deviam estar no Barfly, em Camden. Sim, Sim, em Londres… Num clube à pinha, sem qualquer espaço para os corpos mais que suados saltarem, mas ainda assim num movimento de pogo dancing constante! Se eles subissem ao palco vestidos de John, Paul, George e Ringo ninguém estranhava. É a tão famosa pop perfection dos Fab Four de Liverpool (e de Barcelos) mascarada de distorções americanizadas. Ramones (longe da moda da t-shirt, entenda-se), Sonic Youth e Husker Dü, sim, pois claro, mas só ao de leve e à superfície, porque é a essência do melhor rock britânico que compõe os tecidos do corpo sonoro dos The Glockenwise. Se falarmos em The Vaccines, The Jam, The Kooks ou de Stiff Little Fingers e da mais pura genética do rock das terras de “your highess the queen is dead”, estamos no território dos The Glockenwise. “Napoleon”, “Time To Go”, “Stay Irresponsible”, uma viagem entre os dois registos editados e uma novidade em forma de “Up To You”. Excelente máscara… see you back in London, guys!

De repente estamos diante de outra máscara. Os Lower vêm da Dinamarca mascarados de goth-rock. Nesta realidade paralela, a banda dinamarquesa é frequentadora assídua do Batcave, também em Londres. Estão no ano de 1982 ou 1983 e bebem copos de absinto todos os dias com os Sex Gang Chidren e os Alien Sex Fiend, são os melhores amigos de Ian Astbury dos The Cult ainda com o Southern Death e de Siouxsie com os seus Banshees. Não inventem, meninos da imprensa especializada, esta não é a terra dos Joy Division e do post-punk, é a terra do goth-rock, da decadência glamourosa, de corpos elevados ao máximo exponencial do belo e grotesco. E que não se deixem enganar pelo look “vou ao Minipreço” de hooligans de Manchester. Aqui snifa-se rapé, amam-se batons pretos, camisolas de rede rasgadas e chapéus de abas largas! E não se deixem enganar pelo nome do disco, Seeking Warmer Climates, que Toubro e Rothstein, o baterista de trejeitos faciais mais insanos que o pior psicopata assassino desejaria ter, lançaram este ano. Eles não procuram climas mais quentes, eles procuram com toda a sede verde os túmulos de Antonin Artaud e Elizabeth Bathory. Enquanto se escreve, ouve-se o baixo de Emdal e as guitarras rasgadas de Formann e pensa-se que este foi o pior erro de casting nesta noite… ou o melhor, fosse a noite mais para os lados de outros clubes lisboetas onde o negro brilha mais forte! Vamos destacar alguma coisa desta passagem dos Lower pelo palco do Musicbox?! Não, uma sala semi-vazia para uma banda semi-perdida em si mesma, mas com uma das melhores secções rítmicas desde Steve Severin e Budgie. “Exotique”, “Bastard Tactics”, “Peste” ou “Lost Weight, Perfect Skin” fizeram parte da máscara de som death-rock abrasivo circa ’82.

Do Cais Do Sodré passamos para as ruas de Filadélfia… neste caso de Goshen, no Indiana. Terra-mãe da voz da América que sobe ao palco sem máscaras, Tim Showalter canta-te as ruas da real América que não realiza os sonhos. A América que dói e sofre nas suas idiossincrasias com tanto para odiar e amar ao mesmo tempo. Vestido de negro, como se a Harley estivesse algures lá fora, algures num beco sujo e escuro junto ao rio, as longas barbas e cabelos (será que afinal são os Mastodon?), a postura heavy rocker e uma aura do tamanho do Estado que o viu nascer. Tim é toda a encarnação estética daquilo que poderá, ou deveria ser, uma América livre e sentida. São curtos os minutos que Tim, Eliza, Deven e Mike estão em palco. Nove canções de uma intensidade única que sabem a quase nada de tanto que são. Se podíamos ficar horas a ver Tim a encher um palco, a contar as histórias que lhe formam e deformam os dias, a sofrer cada segundo de cada solo de guitarra? Podíamos, e não seriam demais as horas que não foram e souberam a tão pouco. Do início com “Satellite Moon” que em Dark Shores, disco de 2012 que Tim odeia, era filha folk de Neil Young e aqui é a amante rock de todos nós, até aos hinos imensos que são “Goshen’97”, “Heal”, que dá nome ao disco deste ano, “For Me” e um teclado quase a puxar a um Irish Jig, “Sterling” de PopeKillDragon e a despedida com “Wait For Love” de uma intimidade atroz e de uma esperança contagiante.

Yeah that’s you rotting in your room I wasn’t in love I was I here I was an abomination And there was a call, there was high, there was a heaven dawned in roses I’m giving up getting over you I’m giving up getting over you I wait for love here.

Até já, Tim Of The Mights Oaks, algures na Lusitânia ou nas ruas de Filadélfia mascarado de sonho americano… partido e dilacerado.