Foi no passado sábado que se entrou no derradeiro dia do primeiro fim de semana de concertos trazidos pelo Jameson Urban Routes no Musicbox. Para este último dia antes da pausa estiveram agendados concertos de Inga Copeland e PAUS e sets de Andy Stott e Gustavo. Uma noite extremamente sólida marcada pelas sonoridades menos convencionais vindas de três projectos que à sua maneira, desejam experimentar e quebrar barreiras.

O clima foi provavelmente o mais fresco durante as três noites, pelo que o espaço apertado e resguardado do Musicbox certamente ganhou, mais ainda, um ar convidativo. Contudo, apesar de obviamente abrigada, a plateia não se safou da aragem fresca, não fosse a primeira anfitriã a jovem Inga Copeland, qual feiticeira gélida rodeada de engenhos e maquinaria.

Assim se diz porque a jovem produtora russa, que recentemente se lançou a solo depois de uma experiência no duo Hype Williams, é excelsa na arte de esculpir (diria-se no gelo, mas estamos a falar de batidas) agrestes e insinuosas paisagens através de cuidadosos loops e padrões minimalistas a evocar desolamento e claustrofobia.

Apoiada também por uma voz muito particular que ora soa hostil nos seus spoken words, como perversamente cândida em registo cantado, a música de Inga Copeland é de um registo particular e foi isso que veio demonstrar mais um vez no seu regresso a Lisboa. O espetáculo de Alina Astrova no Musicbox foi absorvente, intenso, progressivo, pautado por uma subtileza acima de tudo recompensadora.

Because I’m Worth It, a estreia a solo, foi o motivo da visita e deveras valeu a pena. O cenário era escuro e era nesta mesma penumbra que as visões espectrais de Copeland mais ênfase ganhavam. A certo ponto o público, petrificado no seu lugar, ficava envolvido num manto denso de ruído branco, à medida que a Astrova lançava em tom assombroso, breves e crípticas mensagens, ornadas por sons aleatórios como o tilintar de um triângulo de ferro. A sensação que se tinha era de uma viagem à deriva pelo espaço sideral e negro, onde Copeland era comandante. Profundamente atmosférico e absorvente.

Eventualmente muitas dessas viagens culminavam num crescendo mais intenso de drones hostis e samples descontextualizados, por baixo de uma batida mais orgânica e minimamente familiar com a música de dança. Ainda assim, mesmo que a espiral nos levasse a mais estranheza, como em alguns casos, o caminho que a jovem de expressão impávida traçava era continuamente fascinante, confirmando-a como uma das mais originais e interessantes artesãs da música experimental contemporânea.

No geral, um grande trunfo e um dos melhores espectáculos desta edição do Jameson. Convirá certamente recordar.

Acaba então a música, Inga abandona o palco e podemos todos finalmente respirar. A temperatura volta a subir, não fossem os animalescos PAUS os próximos a tomar conta do público. Donos de uma essência que transpira virtualmente calor e agressão, o quarteto luso é um projeto verdadeiramente diferente na música moderna, tendo consigo muitos poucos pontos de referência no que toca a semelhanças sónicas.

Até um pouco antes das 23:30, hora marcada para o concerto, e depois de arrastarem a carpete com o set up para a borda do palco, estando mais próximos do seu público, Quim Albergaria, Fábio Jevelim, Hélio Morais e Makoto Yagyu põem a pintura de guerra para voltarem a avassalar Lisboa com a sua primalidade e transgressão, isto depois da sua última vez na capital no passado Dia de S. Valentim.

Abrindo com “Língua Franca” e apostando num alinhamento que manteve a sua boa dose de material mais anterior (como a favorita “Mudo e Surdo” ou a incontornável “Deixa-me Ser”), os PAUS (que também aproveitaram a ocasião para a gravação de um novo videoclip) lançaram-se ao espectáculo como seria expectável: unhas e dentes e uma colossal descarga de força que se faz a meias por uma energia primal e por um fantástico exercício de perícia e coordenação.

Os PAUS são um quarteto simultaneamente selvagem e cerebral, encontrando o seu som em composições complexas e cheias de camadas, entre as quais cabem toneladas de pólvora volátil à espera do momento certo para rebentar. Olhemos para especialmente para uma feral intrepretação de “Cauda Turca” a fazer o chão estremecer com o seu ritmo bélico.

Depois da primeira porção do concerto, Hélio Morais apela que toda a gente se junte e dance. Damos-lhe razão. Por detrás de toda a agressão inerente à sua música, há uma componente dançável e tribal profundamente nervosa, no sentido em que se entranha no corpo. Não se fica só por aqui e abre-se um profundo espaço para o misticismo e a eterealidade quando entramos em “Deixa-me Ser”, onde o providencial “levantas-me” assume-se como um dos momentos mais poderosos e um perfeito exemplo de como a música no geral consegue ser de facto, transcendental.

Num emaranhado de dança, força, dentes cerrados e palmas surradas cujo o epicentro caí na monstruosa bateria siamesa, o espectáculo ao vivo de PAUS assume-se como uma verdadeira partilha sinestésica. As harmonias vocais que os quatro em palco fazem ganham um impulso estrastósferico quando a eles se aliam as restantes pessoas da sala. Um uníssono que por fim, funde plateia com banda e cria uma hora de concerto memorável. O grupo despede-se com uma carregada “Pelo Pulso” e a vontade é repetir tudo outra vez, independentemente de como já estejam os pés. Poderoso.

Terminado o concerto, fazia-se hora de ir apanhar algum ar e entretanto ultrapassar a típica confusão provocada pela mudança de fuso horário. Pouco depois seria tempo de mergulhar na electrónica experimental de Andy Stott e testemunhar a incrível proeza do DJ inglês que começou o seu set perto da 1h30 e conseguiu terminá-lo à 1h22.

A sua abordagem não difere muito da absorvente Inga Copeland que o precedeu: as batidas são atmosféricas, progressivas e pouco convencionais. Ainda assim, a direcção que Stott aponta tem diferenças suficientes no seu ADN para ser outra coisa. Muito mais focado na dança do que propriamente na esculptura visual e ambiente, Stott baseia-se num groove muito industrial onde faz caber beats contagiosos que convivem com sonoridades mais agrestes como distorções e breves incursões de glitch.

Apesar de no geral ter sido bem recebido durante os momentos de maior dinamismo e vibração, o espectáculo do produtor inglês não conseguiu deixar de soar um pouco insonso, principalmente quando comparado com os projectos do género que lhe precederam nos passados dias. Isto ora porque por vezes se envergava por caminhos demasiado introspectivos ou então por um progressivo desgaste de certos motivos e estruturas sonoras ao longo de todo o tempo que tocou.

Um espectáculo minimamente satisfatório numa altura em que já se conseguia ver o início do pequeno interregno do evento que voltaria no próximo fim de semana. Mas antes disso, ainda havia muito disco para tocar com Gustavo, luso emigrado para o Reino Unido, que animou o Musicbox até às tantas com a sua mescla e variedade de géneros. O Jameson Urban Routes regressa já nos próximos dias 30 e 31 de outubro com os muito aguardados concertos de Sunns (com Jerusalem in My Heart), La Femme, Sunflowers e mais.