A sexta-feira que marcou o segundo dia do Jameson Urban Routes ficou marcada pelas sonoridades quentes e muito latinas. Desde o house cerebral, mas muito dado à tropicalia colorida dos Holy Nothing ao animadíssimo set de El Guincho, o mote da noite passou maioritariamente pela dança, mas não particularmente por muita euforia ou intensidade. Ficou o leve cheirinho da estação balnear que já se despediu.

A animação arrancou ligeiramente depois da hora com os lusos Holy Nothing. Presente na atenção mediática já por algum tempo, a banda é daquelas que efectuou parte do seu crescimento significativo aos olhos de toda a gente. A começar pelo espólio mais contemplativo e progressivo do seu início e até chegarmos aos ritmos mais quentes e musculados da sua estreia em disco, a música dos Holy Nothing sempre foi orelhuda e apelativa ao corpo. A configuração ao vivo faz por fazer justiça a essa sensorialidade de movimentos, mas a timidez privou-os do pontapé que era necessário para por este motor mesmo a dar.

Dispostos no formato trio, os Holy Nothing ofereceram a um Musicbox a meia sala, uma fusão líquida e límpida de house, batida, dub e muitas outras sonoridades exóticas de fazer mexer as curvas. Concentrados no meio do seu emaranhado de grooveboxes e sintetizadores, trabalharam um pouco como operários fabris da música de dança, cuidadosa e astutamente trabalhando as coloridas camadas que constituem os seus temas.

Seja na muito nocturna “Cumbia” (o tropicalismo, lá está) ou na pop de cabeça mais airosa de “Rely On”, a música deste conjunto luso é consistentemente interessante e atraente através da sua conjugação sempre tão fluída entre os beats mais quadrados da música urbana e a ginga e espiritualidade dos géneros mais tradicionais das sonoridades de dança. O que parece ter faltado um pouco nesta noite foi o tal próximo nível, o domínio destes fantásticos sons e a sua utilização para levar um público ao rubro. Isto porque, embora dançante, a plateia que os recebeu nunca passou de um estado bastante morno, apesar dos algo tímidos esforços de aquecer as hostes por parte da banda.

Independentemente de timidezes ou não, o certo é que os Holy Nothing são uns dos projectos mais interessantes da música de dança portuguesa e deixaram provado no Jameson, espaço para virem coisas maiores e melhores. Aguardamos pacientemente agora para os rever noutra configuração, até no mesmo espaço, mas a horas diferentes e de roda de estados anímicos um pouco mais preparados para receber a dimensão etereamente nocturna dos Holy Nothing.

Num registo mais terreno e mais repetitivo estão as Telepathe, um duo norte-americano composto por Busy Gangnes e Melissa Livaudais. Depois de um período de inactividade a seguir ao primeiro disco, datado de 2009, as nova iorquinas regressam com Destroyer, o novo registo que acrescenta mais paisagens à synthpop de cimento que juntas fazem.

De cimento não porque seja estéril, mas, como se viu em palco, porque as Telepathe são deveras uma combinação robusta, desviando-se do tradicional trilho geralmente levado por estas bandas. Aqui, a repetição é um factor decisivo e a sonoridade traz consigo um peso que mais rápido fez este redactor associa-las ao duo psicadélico White Hills do que aos CHVRCHES. Principalmente quando olhamos para o espalhafatoso comportamento de palco da baixista Busy Gangnes.

Armadas com um imponente teclado e um pesado baixo que muitas vezes acaba por servir como um segundo teclado, as Telepathe entram com uma missão de dissolver a plateia num strobe constante de riffs repetitivos e gritos de guerra que apelam à desejo e ao excesso. Fugitiva a certos lugares comuns do género, a agressividade latente é sem dúvida um elemento fresco.

Contudo, acabou por ser um bocado difícil ignorar a exaustiva repetição que prejudicou algum interesse. Isto, principalmente verdadeiro nos registos tirados do mais recente Destroyer, decididamente mais monocromáticos e monotónos. Em soma, um concerto interessante que cativou pela ferocidade e atitude das duas músicas em palco, mas que deixou a aberto algumas limitações do projecto, nomeadamente a falta de textura e dinamismo no seu som.

A seguir, já a rondar a uma da manhã, estava a subir à sua mesa, El Guincho. O productor espanhol Pablo Diaz-Reixa que também assina pela reconhecida Young Turks, passou por Lisboa para um DJ set cheio de cor e luz, sendo recebido com efectivamente muita dança. Reconhecido pela sua tropicalia psicadélica e pelas canções que foi emprestando a mediums amigos do indie como a banda sonora dos jogos FIFA, El Guincho trouxe com ele toda uma parafernália latina das mais variadas fontes.

Misturando o mainstream com o seu próprio cunho surreal baseado na arte do sample, foi com muita habilidade que o espanhol pegou em géneros como o reggaeton, um pouco de dub e até alguns indícios de trap, para lhe dar aquela roupagem já tão reconhecível deste tipo de artistas. A certo ponto, o Musicbox poderia ser confundido com a pista de dança de um qualquer jantar de curso, e isto dito num excelente sentido.

Quer seja pelo feel Inglesiano que provocou e pela própria irreverência e iconografia do seu registo, o set de El Guincho retirou também os melhores moves de dança da fauna do Musicbox até ao momento e fez por criar um clima de muito bom humor. Sem grande coisa para levar a sério e com um verdadeiro sabor a despretensão e real divertimento, Diaz-Reixa lembra-nos como é bom deixarmos as mentes soltas e o corpo ainda mais.

Estamos a entrar na madrugada profunda e segue-se Nicola Cruz. Seguindo o alinhamento e olhando para a clara unidade temática disposta nesta noite, poderá ser tentador atribuir semelhanças entre o produtor equatoriano e o espanhol que o precedeu. Não obstante, e apesar de essa ligação existir a certo ponto, será surpreendente ver o quanto de comum este Nicola tem com um outro certo Nicholas Jaar. O que faz todo o sentido, visto que os dois homónimos já tocaram juntos.

Cruz também gosta de brincar com as sonoridades hispânicas tanto como El Guincho mas a abordagem é sensívelmente diferente. Aqui as texturas são aplicadas de forma muito mais minimalista, claramente menos vibrante, apostando mais numa subtileza que se entranha debaixo da pele. A dinâmica ora oscila por comprimentos de onda progressivos, ornadas por abafadas linhas de baixo fabricadas pela disco de melhor qualidade, ora deixam-se deslizar por crescendos épicos e pulsantes de uma house vibrante e intelectualizada. Definitivamente bastante agradável.

Por fim, chega a hora de Baba Fox, Nunex e Famifox tomarem conta da casa, numa configuração a lembrar as já habituais e cada vez mais apreciadas noites Príncipe. Se El Guincho até agora havia sido o campeão do groove da noite, o desempenho deste trio também não desiludiu, oferecendo múltiplas horas de diversão e dança, com a sua marca tão própria e reconhecível que a faz actualmente, um dos pontos mais altos da música nocturna lisboeta.

No sábado é o derradeiro dia do primeiro fim de semana do Jameson Urban Routes com concertos de Inga Copeland, Andy Stott, PAUS e Gustavo.