Jarvis Cocker, o carismático líder dos Pulp e um dos principais rostos da britpop (talvez o principal fenómeno pop nos anos 90), lançou o EP Music From Likely Stories que sucede ao já muito distante Further Complications de 2009.

Indo ao encontro da faceta cinemática de Jarvis Cocker – memorável desde o icónico vídeoclip para “This Is Hardcore” dos Pulp -, Music From Likely Stories é o conjunto de quatro faixas que o britânico compôs para a mini-série Likely Stories – escrita pelo muito premiado Neil Gaiman -, a convite dos produtores da mesma. Para compôr o tema-título e parte da banda sonora de uma obra televisiva que prometia ser excelente, Jarvis teve muito respeitável companhia para a criação e a interpretação: Adrian Utley dos Portishead que tocou o dramático sintetizador Swarmatron na faixa homónima da série; o percussionista Alasdair Malloy da banda orquestral de Scott Walker, o multi-instrumentista Martin Slattery dos The Hours que tocou guitarras e teclados e o baterista Tom Skinner, além do mini-coro feminino Bas Jan, Serafina Steer e Sarah Anderson e Jenny Moore.

Identificados os artistas, o que tão talentoso ensemble produziu é uma austera sonata contemporânea, que foi coerentemente retalhada em quatro mo(vi)mentos assombrados por um astral assustador, muito creepy, morbidamente narrado por Jarvis Cocker que declama pausadamente em cada um daqueles quatro andamentos, sem cantar (função realizada pelos corais melodramáticos das Bas Jan).

E apesar de um dos temas ter a desafogada expressão “in the woods” no título, “Poor Girls In The Woods” é o lúgubre último exemplar de uma partitura sinistra, com inquietantes soluções instrumentais que fazem recordar baladas emocionalmente tão claustrofóbicas como o clássico “Sour Times” e a psicótica “Too Afraid To Love You” dos The Black Keys – fenómeno logicamente associado a Adrian Utley, o manipulador dos atmosféricos teclados vintage dos Portishead. Tudo enquadrado pelas dedilhadas cordas eruditas (violinos e violas) e pelo classicista piano – talvez os traços mais identitários de Jarvis Cocker, que sempre explicitou o seu gosto por autores como Scott Walker e Burt Bacharach e os colossos da chanson francófona Aznavour, Jacques Brel, Léo Ferré.

Fechem os olhos e abram vossos ouvidos a esta jóia!