Uma das últimas rainhas do rock passa pela primeira vez por Portugal sábado, dia 1 de Novembro, em Lisboa.  The Doors em Dinner Key ou The Beatles em Shea Stadium? Black Bananas na ZDB. Jennifer Herrema está a chegar. Nos anos 90 a invasão do grunge deu o mote à década, tornando mundialmente conhecidas bandas como Pearl Jam e Nirvana. Mas no submundo emergia uma cultura de inconformadas tribos que semeavam o subsolo com experimentalismo e sem medo de serem rock stars.

Jennifer Herrema foi uma das mais icónicas figuras dos anos 90 que prevaleceram. Dedicada a nunca se deixar embrenhar pelas regras do mainstream, ela e Neil Hagerty levaram os Royal Trux a encabeçar gloriosamente o inconformismo sujo e heróico do rock alternativo.

Quem vive sem olhar para trás acumula experiências que não paralisam nem comprometem o “future of the future”. Black Bananas foi a continuação lógica dos RTX, a banda que se seguiu a Royal Trux e que terminou no “Pound Of The Pound”, último trabalho em conjunto com Neil Hagerty, evoluindo para um som mais sofisticado e transpondo para os dias de hoje as influências mais clássicas de Herrema. “Electric Brick Wall” é o novo álbum que espelha na perfeição a ideia de que a coesão do trabalho de uma banda não passa pela constante exploração do mesmo som mas, também, por se permitirem absorver novas ideias e fechar o ciclo dos álbuns passados.

Talvez o grande segredo dos trabalhos de Jennifer Herrema seja a realidade e não a versão abrilhantada de um glamour de submundo que não existe. É indigente, é puído e é genial.

Vou já começar pelo Electric Brick Wall porque é um enorme murro no estômago – no bom sentido – com uma abordagem completamente distinta dos trabalhos anteriores. Como é que te sentes em relação a isto? E, como é que estes sons mais pop se tornaram apelativos? O facto de eu estar a fazer as perguntas e tu estares a responder, é por si só a resposta para a genialidade criativa de conseguir misturar inúmeras influências sem produzir uma confusão, mas sim um som coeso, brilhante, imediato e tridimensional.

Fantástico! Fico muito contente que vejas este trabalho dessa forma. É exactamente essa a forma como nos sentimos em relação a ele. Eu acho que este álbum é a narrativa da minha carreira desde que tinha 16 anos. Com o tempo as coisas ficam mais palpáveis e algumas tornam-se mais importantes que outras. Durante o ano em que gravámos o Electric Brick Wall, andava a ouvir muitas coisas do passado, muitas coisas que ouvia na infância como Chocolate City Washington DC, muito funk e muito gogo. E no meu subconsciente essas coisas começaram a crescer. Não de forma a tomarem, inteiramente, conta do álbum. Este trabalho tem inúmeras influências e sons. Mas no que diz respeito às músicas mais directas como a “Physical Emotions”, nem sequer mexemos muito nelas, deixámos como nos surgiu. Soava tão honesto depois de uma simples gravação que a deixámos assim mesmo. Acho que essa é uma das grandes diferenças, termos assumido muitas músicas de forma simples.

É muito orgânico.

Exacto. É dessa forma que nós trabalhamos. Muita gente vai para um estúdio de gravação e tem as horas contadas e tem de o fazer numa semana ou duas. Nós temos o nosso próprio estúdio e estamos lá o tempo todo, e vamos criando, editando, ao nosso ritmo. Por exemplo, nas músicas “Powder 8 Eeeeeeeeight” e “Eve’s Song”, estávamos em estúdio a editá-las e a trabalhá-las quando um dia as tocámos ao vivo e eu gostei de como elas soavam. Então acabámos por gravar essas músicas em take directo. E esta foi uma das abordagens, apesar de eu saber que o álbum não soa simples e é bastante denso.

Como foi voltar a trabalhar com o Neil Hagerty, apesar de ter sido tudo muito virtual?

Foram exactamente essas duas músicas de que falei acima que foram feitas em colaboração com ele. Foi divertido, mas foi via email. Foi interessante porque eu acho que ele escreveu as músicas mesmo para mim. Eu alterei algumas coisas, claro. Nunca fica exactamente como alguém as faz. Foi uma boa experiência trocar ideias com ele outra vez.

Sempre funcionou, não é?

Sim, sim! Claro.

Já estás na indústria há muito tempo, desde os 16 anos, colaboraste com muita gente de inúmeros espectros artísticos. Olhando para trás, o que é que gostaste mais de fazer, tirando a música da equação?

Para além da música? Hmmm…  Eu gosto muito das colaborações em artes visuais, as exposições em galerias. Mas também gosto muito de trabalhar com a Volcom na linha de jeans. Eu gosto de tudo no fundo! É tudo muito diferente. Eu sei que isto não responde à pergunta, mas eu gosto mesmo de tudo. A música permitiu-me fazer coisas na área da moda e das artes visuais, coisas que eu fazia mesmo antes da música, como colagens. Colagens agora é uma coisa ridícula, toda a gente faz agora, eu andava a fazê-las há 20 anos atrás. E todas estas coisas andam de mãos dadas com a música.

Ser um ícone da cena “Heroin Chic” foi algo que ajudou os teus projectos ou achas que foi o desenvolvimento natural da tua vibe única?

Toda a cena “Heroin Chic” aconteceu num tempo e espaço únicos. Nunca foi a minha intenção ser isso. O meu estilo é muito simples e muito solitário a um certo nível. A forma como eu monto os meus looks é muito pessoal. Mas no final do dia são basicamente jeans e t-shirts.

No fundo é isso mesmo. Não fazes esforço, o estilo sai de ti naturalmente. 

Sim, é isso. Pode ser essa a explicação. E mesmo em tour, não te podes estar a preocupar com isso. Algumas bandas e alguns artistas têm roupa de palco e isso é imensamente importante para as suas performances. Se fores ver a Miley Cyrus (risos) ao vivo sem nenhum aparato de palco, é uma merda. O espectáculo dela é o que faz o espectáculo. A moda nunca foi algo onde pensámos vir a ter influência, tanto em palco como musicalmente. As pessoas gostam do que eu visto, mas à parte da música. Percebes o que quero dizer.

Sim, claro. Não precisas de mascarar a música. O teu estilo e a forma como tu és naturalmente foi o que fez com que as pessoas se interessarem pelo teu estilo, e não o contrário. 

Acho que tens razão. Foi exactamente por isso que a Volcom me chamou para colaborar com eles. Eu mostrei-lhes as modificações que ia fazendo às minhas calças durante todos estes anos e eles disseram: “É mesmo isto que nós queremos porque é muito natural em ti, então é natural para nós chamarmos-te.”

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Falas muito abertamente sobre o abuso de drogas. E li sobre a inspiração para a letra da música “Dope On An Island”. Construir estas realidades distorcidas, foi sempre umas das tuas maiores inspirações?

Sim. Mas sinto que vem muito de trás. O que é que apareceu primeiro? O ovo ou a galinha? Eu sempre abordei de forma diferente a realidade. Sempre vi as coisas de forma um pouco diferente. Quando era criança as coisas não me pareciam normais, nunca senti que encaixava em algum lugar. E as drogas ajudaram-me a sentir que pertencia a algum lado e que me adaptava. Acho que abusava das drogas porque me ajudavam a aguentar a realidade. Não tomava drogas para me divertir, e essa é a melhor razão para as tomar (risos). Depois de muitos anos e, claro, depois de muitos psiquiatras (risos)… Quer dizer, ainda bebo e fumo erva mas, as drogas mais pesadas já não fazem parte da minha vida. Mas consigo identificar-me muito com isso, porque foi uma grande parte da minha existência e uma longa luta. É bom que eu já não precise das drogas para me sentir normal como toda a gente.

O Radio Video EP dos Royal Trux vai ser relançado brevemente. Esta é a prova que os Black Bananas têm um som tão único que não há o perigo de ser ofuscado pelo relançamento de outro projecto quase ao mesmo tempo?

Há muitas coisas dos Royal Trux que desafiam o tempo e os géneros musicais e foi por isso que resultou. Vinha tudo desse mundo de que falei antes.

Os Liars vão tocar em Lisboa esta semana. Como é que foi trabalhar no remix “Mess On A Mission”?

Foi muito divertido. Eu já tinha ouvido falar dos Liars, mas não estava muito familiarizada com a música deles mas, quando eles me abordaram para fazer um remix, fui ouvir e conhecer mais o trabalho deles. E foi interessante! Foi fora daquilo que eu costumo fazer, por isso fiquei entusiasmada. Pegar no trabalho de alguém e criar algo novo a partir disso é interessante.

Mas eu li que eles não escolheram o mix que tu mais gostavas. 

Eu gosto dos dois porque fiz os dois. Mas sim, há um que tinha mais a ver comigo, soava a algo que eu poderia ter gravado, em vez de algo que foi gravado pelos Liars. Não era tão coerente com a estética deles. Eu entreguei-lhes os dois, mas já sabia qual é que eles iam escolher.

Tu nunca deixas de nos surpreender. Achas que a fome por novos sons e novas combinações de sons nunca irá morrer e irás sempre encontrar novas formas de inovar?

Sim. Acho que nunca chegarei a um beco. Há nova tecnologia, nova música. As combinações são infinitas. Não sou pessoa de olhar para trás e nunca oiço os trabalhos antigos. Gosto de criar coisas totalmente novas.

Então os teus álbuns acabam para ti, quando começam para nós.

Sim! É isso que eu ando a tentar dizer há 15 anos!

A espontaneidade do novo álbum deve muito à forma como foi gravado. Essa orgânica passa para os concertos ao vivo? Há alguma coisa que possas antecipar do concerto em Lisboa?

A forma como vamos tocar não vai ser “1, 2, 3” e está feito. Somos mais abertos, há jams longas no meio das músicas. Há muito improviso, não é linear. Não esperem que seja igual ao que está no álbum. O elemento “tudo pode acontecer” estará sempre presente.

Podemos esperar que improvises algumas letras?

Sim, sim! Isso acontece frequentemente! Ainda no outro dia num concerto em Los Angeles aconteceu. Deixei de ouvir a bateria, o que com toda esta electrónica pode acontecer, nunca sabes o que vai acontecer. Então improvisei um rap. Eu nunca fico surpreendida ou chocada quando as coisas se tornam estranhas.

Queres mandar alguma mensagem para o público português?

Sim, claro. Estou muito ansiosa por ir a Portugal. Faço tours desde os 16 anos e nunca passei por Portugal. Espero ver o máximo de pessoas possível e que venham todos com a mente aberta e prontos para fazer esta viagem connosco.

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