Este artigo pode ser iniciado pela conclusão: descobrir uma voz como a de Jenny Gillespie ilumina o mais negro dos dias! Ainda por cima numa canção excelentemente composta, como “Dhyana By The River” (que abre o álbum Cure For Dreaming). Hum, aquele título com um nome esquisito de mulher, pronto, lá vem outra aspirante a Tori Amos ou Kate Bush… Ui, se fosse só isso, já não seria coisa ‘pouca’, mas é tanto mais que isso, que é também melhor!

Então, o mais adequado é ir por partes. Primeiro, a voz, que se ouve desde o primeiro segundo de “Dhyana By The River”. A voz de Jenny Gillespie é invulgar; tem um angelical timbre cavo de ninfa, parecido com exóticas vozes de Sarah McLachlan e Rosie Thomas, mas também consegue elevar-se até esforçados agudos ‘de flauta’, como a jovem Joni Mitchell tão emocionantemente fazia. Uma voz muito apta para cantar a letra, que conta uma carismática história de Dhyana e por isso é conceptualmente exemplar da lírica de histórias comoventes das personagens interessantes que povoam Cure For Dreaming.

E a música? A música… É ainda mais impressionante! Para começar, é como se fossem duas canções rítmica (e emocionalmente) muito diferentes repetidas alternadamente numa só, com um epílogo instrumental que termina desvanecendo-se em fade out. E para saberem mais, sugerimos que escutem a canção, porque acreditem ou não a equipa de Gillespie conseguiu que só numa faixa haja a pop americana de Aimee Mann e a folk de Joni Mitchell, com as pandeiretas alt-country de Mazzy Star e Cowboy Junkies, e elegantes arranjos originais como os de Rickie Lee Jones ou Tori Amos (com teclados electrónicos ‘vintage’, que chegam a simular o clarinete baixo que fecha o tema), mas também o pujante e ritmado senso pop de Cindy Lauper e Stevie Nicks e Kate Bush (sim, não é sentida só no astral pagão), inclusivamente com arranjos de sintetizadores que lembram Air, sem deixarem de soar a Aimee Mann.

Antes de escutarem “Dhyana By The River”, apesar de Jenny Gillespie ser uma mulher “dos sete instrumentos”, atenção à respeitável lista de convidados do álbum, que não é alheia a tantas influências, porque incluiu Gerry Leonard, (guitarrista que tocou com David Bowie), o baterista Jay Bellerose (Robert Plant + Alison Krauss), o talentosíssimo Greg Leisz (que tocou pedal steel guitar com Bon Iver e no clássico Tidal de Fiona Apple) e Paul Bryan (da banda de Aimee Mann), que tocou vários instrumentos, além de ser o produtor do excelente Cure For Dreaming.

Canção e álbum adequadíssimos para enfeit(iç)ar passeios e merendas no sossego de densos bosques, longe do ‘betão’ urbano, onde os concertos de Jenny também devem soar melhor.