O vento musical de Espanha está cada vez melhor, sucedendo-se as novidades além do estereótipo latino. E também Joana Serrat, com o Paredes de Coura na agenda de concertos deste ano, está à beira de lançar o novo álbum Cross The Verge. É já hoje!

Serrat é exemplar de que uma certa Espanha, como um certo Portugal, tem virado o olhar para a América do Norte (e o Reino Unido), enquanto culturalmente vira as costas a uma União Europeia progressivamente desunida. Apesar de criada à beira de França, na mediterrânica Catalunha, é nas americanas country e folk ‘dreamy’, em inglês, que a espanhola se sente integrada, reforçando o conceito artístico explorado com muito sucesso pela compatriota Russian Red, referência inevitável na indústria espanhola, que só nos últimos anos começou a promover mais os espanhóis que não cantam nos dialectos nacionais – Enrique Iglesias já não conta, porque é ‘americano’ há muitos anos.

Escapadinha da cidade até ao deserto

Produzido no Canadá, com várias colaborações de ilustres anglófonos – dos quais o produtor Howard Billerman, Aaron Goldstein (Cowboy Junkies, City & Colour) e Neil Halstead (Slowdive, Mojave 3) -, Cross The Verge é um álbum que merece ser ouvido sem grande criticismo, simplesmente pelo prazer de escutar música muito bem feita, como se fôssemos um yankee relaxando numa das icónicas estradas longuíssimas que atravessam as paisagens rurais da América do Norte, bem replicadas nas profundezas da grande Espanha.

Logo na abertura, na reptiliana balada “Lonely Heart Reverb”, o doce timbre de Joana cola-se aos ouvidos, deslizando como mel e agarrando-se como trepadeira aos arranjos de cordas e sintetizadores da etérea instrumentação para a melancólica letra. Depois, mormente para quem gosta do género, não é fácil parar de escutar Cross The Verge.

A suave “Saskatoon (Break Of A Dawn)” é exactamente como se o velho Harry Nilsson tivesse reencarnado no jovem corpo de Joana e isso basta para caracterizar aquela melodia, que marcha em passada moderada e passando as mãos pelas folhas de harpa dedilhadas ao longo do tema, transita o álbum para “Cloudy Heart” (dueto com Neil Halstead), típica balada americana na qual as nuvens são notas de steel guitar, em coerente fidelidade ao rural espírito folk de Cross The Verge. Continuando a descomprimir ao som da delicada voz de Joana, “Flags” (sopradas pelo sugerido vento, após o sol e as núvens das canções anteriores) mantém o conceito musical do disco, em marcha lenta e com elaborados arranjos (ali de steel guitar) mas sem desorientação, até ao desafogado destino: o “Desert Valley”, onde se chega numa cadência um pouco mais elevada, de batida rock, todavia ainda com a pacata disposição americana da steel guitar que entorpece a consciência e estimula a meditativa imaginação.

Memórias solitárias

Num álbum de canções curtas ligeiras (todas com menos de 4 minutos), a segunda parte tem início em “Lover”, o encontro (ficcionado como a conversa de Joana, que parece falar sozinha, para ninguém), elegantemente musicado e interpretado, mas tão triste que deixa Joana a rogar na canção seguinte “Oh, Winter Come” (para poder hibernar nas tempestades, tal é o desânimo) no tema mais lento e despojado do álbum e por isso oportuno para um abanão emocional, dado em “Tug Of War”, também um abanão rítmico e interpretativo, que sem sair da orgânica matriz semi-acústica, é contrastantemente catártico e acentuado no tema seguinte, a vigorosa “I Follow You, Child”, constatação de que antes da actual solitude, o relacionamento tinha só um sentido, de Joana para um afinal imaturo amado, restando a irritação sensível nas interpretações instrumentais e vocal.

Uma das canções mais dramáticas do disco é “Black Lake”, dueto vocal maioritariamente cantado por Ryan BoldtJoana canta só os refrões – e que é uma elaborada balada country-folk “chorada” pela steel guitar sobre a banda completa, lamentando uma morte; um tema triste, porém uma das melhores faixas de Cross The Verge e que, logicamente, conduz a uma “Solitary Road”, ortodoxíssima balada country, cujo pecado é mesmo a voz de Joana Serrat ser demasiado doce e insuficientemente rústica para impedir que se pense em como seria cantada pela emblemática voz de Dolly Parton.

E é quase no fim do álbum que está a canção que lhe legou o título. “Cross The Verge”, também a faixa mais longa, é uma canção de superação emocional (de sofrimentos, arrependimentos e tristezas associadas), de transposição de obstáculos, cuja letra está servida por uma balada americana plácida, mas vigorosa, sugerindo ser aquela de facto a âncora e ao mesmo tempo síntese de todo o álbum. “Your Gold Could Be Mine” acaba por ser o curto epílogo folk do disco, singelamente vestido só por guitarra acústica (sem percussão) e ao longo do qual Joana destila a doçura da voz dela em torno de um subtil jogo de palavras: “your gold could be mine”, como a narradora querendo o ouro do amado garimpeiro, mas ao mesmo tempo aspirando a que o dela seja (continue sendo) o dele.

Um final singelo, para um álbum liricamente discreto, que não adianta nem atrasa, mas musicalmente muito competente (e fiel a um conceito), que se escuta sem qualquer esforço, podendo aconchegar bem a necessidade de parar de raciocinar durante três quartos de hora.