Transcendente! Na segunda-feira, após actuar no prestigiado Serralves em Festa, Joshua Abrams vem com o ‘seu’ combo Natural Information Society enriquecer a noite no ‘aquário’ da Galeria Zé dos Bois onde abrirá o concerto num inédito dueto com Norberto Lobo, o talentoso guitarrista português que tocará a primeira parte do espectáculo.

O adjectivo “transcendente” é mais literal que figurado porque a música instrumental que Joshua Abrams tem composto e interpretado nos últimos anos – sem ser muito difícil de assimilar -, transcende de facto os géneros musicais mais complexos e vai além das fronteiras geográficas nacionais e até continentais. Porque (não) é jazz, (não) é erudita, (não) é folk e (não) é ambiental, sendo tudo o que não é: uma fusão experimental, e produzida num modo virtuoso e sofisticado que facilita meditativos estados de transe introspectiva e consequentemente, lá está, de transcendência espiritual.

A narrativa é simples de contar e pode ser resumida oportunamente do fim para o início. No ano passado, o álbum Magnetoception de Joshua mereceu elogiosos destaques de revistas respeitadas como a New Yorker e a Pitchfork e a Wire que, inclusivamente, classificou aquele disco como um dos melhores três álbuns do ano 2015. E Magnetoception é, para já, o auge discográfico de um percurso que Abrams iniciou há cerca de dez anos quando, durante uma viagem por Marrocos, em Essaouira, comprou e, incentivado pelo mestre músico local Najib Sudani, começou a tocar o magrebino guimbri, instrumento cordofone usado em actos e ritos curativos que está para os alaúdes como o baixo está para as guitarras, e com uma sonoridade que possibilita, nas palavras do próprio Joshua Abrams, “algo de positivo, algo que permite limpar a mente e focar a energia” – plausivelmente por ter um som suavemente menos grave que o baixo e menos reverberante que o contrabaixo, suavidade essa que transcende (verbo omnipresente) algumas limitações inerentes à simplicidade do mesmo.

Baixo e contrabaixo eram os instrumentos habitualmente tocados por Abrams, um dos animadores mais profícuos da cena musical de Chicago, cidade de onde partiu ao encontro de outros talentos como Bonnie ‘Prince’ Billy e The Roots, paralelamente à integração nas bandas alternativas Joan Of Arc e Town And Country (que o próprio liderou). Ainda antes da sua iniciação no guimbri ter sido descoberta pelo lendário baterista e percussionista do free jazz Hamid Drake, que o convidou para participar no álbum de 2007 From the River to the Ocean, do duo de Drake, com o também veterano saxofonista Fred Anderson, naquela que foi a debutante gravação de Joshua tocando o exótico instrumento.

De 2007 para cá é aquilo que Joshua Abrams vem partilhar em Lisboa e no Porto: a formação da cosmopolita Natural Information Society em 2010 – com Lisa Alvarado no harmónio e no gongo, Ben Boye na autoharpa e Mikel Avery na bateria -, e o amadurecimento até 2015 de um conceito musical que resultou no transcendente álbum Magnetoception.

Em Serralves, a Natural Information Society encontra-se reforçada por um grupo de músicos portugueses (incluindo Norberto Lobo). Na segunda-feira, após o dueto de Joshua Abrams com Norberto Lobo, o quarteto Natural Information Society exibirá a sua essência no ‘aquário’ da ZdB. Imperdível!