Julianna Barwick - Nepenthe
85%Overall Score

Julianna Barwick regressa para nos ajudar a livrar-nos de sensações de desgosto e de angústia. Na verdade, nem precisávamos de mais nenhuma explicação para esta afirmação. Bastar-nos-ia pressionar play no novo álbum da experimentalista norte-americana para a compreendermos na sua plenitude, recorrendo apenas aos nossos sentidos. Mas, para que melhor possamos conhecer o seu mundo, interessa saber que, de acordo com a informação contida na press release do novo álbum, nepenthe era o nome atribuído na literatura grega antiga a uma droga capaz de erradicar o desgosto e a angústia de quem a experimentava.

Julianna Barwick é especialista em transportar-nos para lugares mágicos com a sua música, cuja característica principal consiste na sobreposição crescente e gradual de camadas sonoras de loops da sua voz, cobertas por um manto denso de reverberação. Uma espécie de Enya elevada a um expoente máximo de experimentalismo ambiental. O resultado, para quem se deixar levar, é sempre uma viagem aos mais recônditos lugares do subconsciente humano, onde co-habitam medos e esperanças. Julianna pretende que o nosso foco de atenção se centralize nas segundas, dando ela própria o exemplo – tendo passado por uma situação recente de perda na família, ela afirma que a música neste álbum se concentra num “seguir em frente, encontrando um caminho dentro das dificuldades, mantendo um sentimento de esperança”.

 

E como há coisas que parecem ligar-se de uma forma absolutamente natural, Julianna procurou, desta vez, inspiração numa paisagem que tem tanto a ver com a sua música como as próprias colaborações que ela estabeleceu na sua produção: a Islândia. Assim, fez-se acompanhar na produção, por Alex Somers (colaborador de longa data dos Sigur Rós e metade do projecto Jónsi & Alex com o vocalista da banda, Jón Pór Birgisson), que abriu o espectro sonoro de Nepenthe, conferindo uma textura mais cristalina à mistura das diferentes camadas, quando em comparação com o seu predecessor, The Magic Place. Mas as colaborações naturais não se ficam por aqui. Um coro feminino de adolescentes e Róbert Sturla Reynisson, guitarrista dos múm, também marcam presença, bem como o quarteto de cordas Amiina, que é quem pontua mais extensivamente o álbum e que encontra no mundo de Julianna Barwick um espaço feito à sua medida. O acompanhamento à sua voz dá-se de uma forma de tal maneira orgânica, que muitas vezes se torna difícil discernir um elemento do outro, sendo o resultado talvez o mais harmonioso de todas as colaborações.

Nepenthe surge como o passo seguinte natural na evolução do percurso de Julianna Barwick no sentido do amadurecimento, no qual se dá uma declarada abertura a novos horizontes representada logo à partida pela inclusão, pela primeira vez, de colaborações com outros músicos. O encontro com outras influências criativas traz uma nova tridimensionalidade à música de Julianna que, desta vez, decidiu sair do seu quarto de Brooklyn – literalmente – e ir para a Islândia pincelar a sua tela com as cores magnificentes do céu de Reykjavík. O resultado é uma música que transpõe fronteiras dimensionais e estilísticas, arrebatando emoções e sensibilidades de uma tal forma que, de facto, não se torna difícil imaginar-se-lhe propriedades medicinais como as da droga que confere o título ao álbum. Os sentimentos de desgosto e de angústia poderão até não desaparecer, mas serão, no mínimo, atenuados. E nós agradecemos.

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