O novo álbum de Keaton Henson, Kindly Now é, no mínimo, um dos melhores discos de pop erudita deste 2016. De baladas orquestradas ao nível das de Bon Iver, à electrónica confessional que associamos a James Blake, cantando com a fragilidade de Thom Yorke e a tensão de Damien Rice letras contundentes como tantas de Tom Waits, o britânico criou um colosso emocional do qual acaba de lançar um novo videoclipe. “No Witnesses”, a quinta faixa de Kindly Now, recebe agora tratamento visual.

Num álbum tão ambíguo, sombrio e comovente, a sepulcral “No Witnesses” talvez seja a canção literalmente mais profunda – óbvio eufemismo para deprimida -, por ter presente a temática da morte. E o lúgubre vídeo filmado num só take reforça ainda mais a violência emocional da canção: começa com o  carro do protagonista capotado que arde à beira de uma estrada sem povoação à vista, focando posteriormente apenas o olhar esbugalhado do perturbado Henson, ainda ferido, que segue viagem à boleia de alguém desconhecido.

Despiste acidental ou intencional? Ia sozinho ou acompanhado? Reagindo colericamente ao fim de um relacionamento, acabando de assassinar a amante ou tentando suicidar-se? Ambíguo. Certo é que a morte espreitou ali, mas o que importa mais no atordoante teledisco é mesmo o insano semblante de Keaton – misto de trauma pelo presente, raiva pelo passado ainda queimando a alma e angústia pelo incerto futuro -, com a letra irada de “No Witnesses”, que é um violento murro no estômago marcado com as furiosas negações:

I’ve never been in love (…)
No day, no time, no witnesses, no crime