Há inúmeras histórias que saem de Nova Iorque vitoriosas e atestam o tempo e o espaço de forma vigorosa. Mas a de KeiyaA não é uma dessas: para ela, o importante não está nos contos de glória e de ostentações eternas, mas sim na maneira como interpretamos a nossa própria realidade: sem adornos, sem verdades unívocas, tal e qual como ela é. Existe beleza nas idas ao supermercado depois de um dia de trabalho, nos encontros que temos com os nossos amigos, nas noites passadas no sofá de casa. A humanidade que cabe em cada um destes cenários reflete-se estruturalmente em Forever, Ya Girl, o disco de estreia da multi-instrumentista, que é acima de tudo caracterizado por uma soul quente, volúvel e nostálgica, que advém de um processo criativo feito à sua medida: um espaço livre que permite ao seu som respirar e crescer como um pequeno ecossistema feito dentro do seu próprio universo.

Não há aqui grandes nomes na produção, nem estúdios pomposos que justifiquem a sua criação: o disco foi escrito, produzido, cantado e masterizado pela mesma com a ajuda do rapper MIKE, amigo e colaborador de longa data, sob o pseudónimo de DJ Blackpower. É um trabalho pensado há muitos anos, especialmente desde o lançamento do EP de estreia, Work, editado em 2015, que nos indicou as leves e salientes passagens pela música Soul e R&B que aqui também estão presentes. No entanto, ao fazermos caminho por estes momentos de aconchego sónico – entre sintetizadores esporádicos que variam consoante o temperamento da artista e batidas Hip-Hop que seguem as veias de Earl Sweatshirt ou até mesmo Dizzee Rascal – somos confrontados por um conteúdo lírico complexo, que se deflora rapidamente, e toca não só pelo íntimo de cada um, como também em questões político-sociais.

A história de KeiyaA leva-nos a tal conclusão: nascida em Chicago, mudou-se para a cidade que nunca dorme ainda em adolescente e rapidamente começou a interessar-se pelo peso que a poesia lírica coloca nas palavras. Em tempos, teve a oportunidade de assinar com uma gravadora de grande dimensão, mas recusou-se, pois a proposta que lhe apresentaram diminuía o seu talento e a sua essência enquanto artista afro-americana. Dedicou-se pouco depois à produção independente, não deixando grandes marcas nem sinais, e adotando uma presença mediática bastante sóbria. No Instagram, é possível vê-la esporadicamente a trabalhar em novas músicas, mas sempre de uma maneira quase anónima e pouco esclarecedora.

Neste álbum, a animosidade felizmente não é tão óbvia: há aqui momentos que nos remetem facilmente para a bravata de SZA ou para a vulnerabilidade consciente de Frank Ocean; no entanto, o trabalho de KeiyaA não é aquele que veremos no topo da Billboard ou aclamado pelos críticos: Forever, Ya Girl apresenta texturas semelhantes, mas é arrebatado por todas as emoções sentidas à flor da pele que combatem para que cada uma tenha o seu devido lugar. Na cabeça de KeiyaA, retratar o mundano e o esporádico é uma maneira de nos mantermos com os pés firmes na terra; mas de mãos dadas existe um peso existencial que nos faz questionar as nossas valências enquanto seres sensoriais e carnais. Em “Hvnli”, ela conforta-se na companhia dos próprios demónios que a seguem desde que se lembra: companhias estas que vão para além do puro espectro do bom e do mau, e apenas constituem o ADN da mesma.

Gone for so long, I prefer to spend time alone with my pain, hey;
Gone for so long, I can barely recall the last my phone rang, hey;
Gone for so long, I can surely afford to be in the rain

Já em “I! Gits! Weary”, tal noção de autoanálise é confrontada novamente, mas desta vez com mais certeza e foco: mergulhada em neo-soul, mas buscando fortes toques de deconstructed club, conta-nos o quão importante é importante atender à nossa realidade, às nossas responsabilidades, e até mesmo às desigualdades estruturais da sociedade. Em 1999, Lauryn Hill apelava para uma maior compreensão sobre artistas femininas – mais especificamente artistas afro-americanas – que tentam balançar uma vida profissional e pessoal. Aqui, KeiyaA pede calma – não só ao seu senhorio, mas a todos aqueles que exigem mais dela e que esperam que corra o dobro de modo a alcançar uma meta igual à das outras pessoas.

Should I give up privacy so I can pay my rent?
Should I take a policy out on my tax sponsored dissent?
Should I grow some more green before I take another hit?

Entre tanto dissabores e desilusões, existe ainda tempo para que ela consiga estar confortável consigo mesma, encontrando o lúdico em tanto negativismo: um cover de “Do Yourself a Favour”, de Prince, e a faixa “I Want My Things!” tentam ao máximo tirar o proveito desta existência: entre funk, blues e até mesmo gospel, ela não precisa de criar grandes alaridos nem provocar uma grande conversa à sua volta. Fala-se especialmente na última sobre viver com pesos não merecidos e mesmo assim a canção consegue acabar de forma atrevida: “Imma keep burning, so baby roll up”. Para KeiyaA, vive-se um dia de cada vez. E é assim que se deve fazer, pois a nossa miúda não vai a lado nenhum.