Quem tem acompanhado os devaneios profundamente electrónicos com que Kele Okereke tem mergulhado a solo a sua carreira, ou as euforias electronicamente dançáveis mas ligeiramente menos propensas a químicos dos últimos registos dos Bloc Party – a banda que lhe deu os maiores palcos e os maiores públicos -, pensa, à partida, que o novo tema do britânico orbita nas mesmas esferas pejadas de beats e emocionalmente agarradas  Enganam-se. Façam reset ao seu nome de baptismo, ao nome da banda que o viu florescer enquanto artista e esqueçam tudo o que nos ensinaram, um e outro, desde que soou o alarme silencioso que deu o toque para o estrelato em 2005 com o disco de estreia dos Party.

Expectativas e condicionamentos sonoros à parte, o mais recente lançamento de Kele é antagónico a tudo aquilo que dele se poderia esperar. Fora do reino das pistas de dança, bem longe das paisagens urbanas de betão e neons vibrantes, eleva-se “Yemaya” – a deusa das águas e oceanos que melhor conhecemos enquanto Iemanjá, um dos orixás da religião Yoruba que encontra as suas raízes na Nigéria nativa dos pais de Kele. Orgânica e fortemente acústica, desenhada a cordas de viola e violinos, “Yemaya” arranca tudo o que folk e rootsy há em Okereke e penetra nas florestas mais luxuriantes e húmidas com uma filosofia sonora cinematográfica de redenção à Natureza construídas com base em pequenos apontamentos de ambiência medieval. Sobre “Yemaya”, cuja existência deve ao seu primeiro encontro com a paternidade, Kele confessa:

In the west African Yoruba religion, Yemaya is the mother goddess of the ocean, she is kinda the patron saint of pregnant women and fertility. According to myth, when her waters broke, it caused a great flood creating rivers and streams and the first mortal humans were created from her womb. When I knew we were having a baby she started to be appear in my thoughts and dreams a fair bit.

Fazendo justiça às suas palavras quando afirmou, em finais de 2016, que o seu próximo trabalho a solo iria rodear-se de ambientes diferentes das texturas electrónicas que lhe reconhecíamos, Kele Okereke lança-se numa viagem de paganismo mágico que, de certo, irá continuar a ditar as leis do seu novo reino sonoro. Ainda não se conhecem mais detalhes sobre o sucessor de Tricks de 2014 mas deverão haver novidades em breve.

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globetrotter, infografista frustrada, seinfeldo-dependente, apreciadora de aviões, perfeccionista ocd e com vários títulos académicos em factos irrelevantes.

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