Davide Compagnoni, baterista italiano e integrante no power trio instrumental STEARICA que já conta com uma vasta experiência de palco, tem-se ocupado a desenvolver o seu novo e ambicioso projecto KHOMPA, uma aventura exploratória de investigação em torno do seu instrumento de eleição. Com alguns auxílios electrónicos como drum triggers (sensores electrónicos) e drum pads (partes de baterias electrónicas), Davide embarca numa viagem experimentalista rumo a sonoridades prontas a ser exploradas.

KHOMPA é um projecto altamente performativo em que toda a música é gravada ao vivo. Para além da sua bateria, computador e sequenciador – um tipo de sintetizador -, Davide usa um inovador aparelho luminoso controlado também pela bateria. Cada sensor electrónico equipado controla um instrumento virtual através de um software específico chamado Ableton Live. Aqui presenciamos algo completamente novo, um espectáculo em tempo real, sem loops nem faixas gravadas com um único instrumento analógico que, à partida, tornaria impossível a criação de melodias. Uma boa “pancadinha nas costas” a quem diz que o avanço da tecnologia só trouxe coisas negativas à música.

Começamos por ouvir “Nettle Empire”, o single. A combinação dos ritmos complexos, das harmonias sintetizadas e uma técnica fantástica são flagrantes neste tema. No entanto, percebemos que falta alguma textura e orgânica. Ao ouvirmos o resto do disco, The Shape Of Drums To Come – de nome em jeito de tributo a The Shape Of Punk To Come dos Refused -, tomamos consciência que a música se vai completando, mas de forma parcial. Os espectros de frequências parecem-nos diferentes em todas as faixas e a textura passa a ser algo que vamos descobrindo progressivamente. Aquilo que nos é mais interessante não é o resultado musical, mas sim todo o processo. Catalogar este disco num género pode ser arriscado e redutor, mas é audível a influência da carreira inicial do electro-noise de Health e Fuck Buttons e de algum post-rock experimental que nos parece vir dos STEARICA do próprio Davide.

Abrindo os corações e os seus ouvidos para a bateria de KHOMPA, partilhamos a exploração com Davide. Com a fúria de “Religion” atacamos a tarola com uma baqueta em forma de terço, com um registo mais grave e rápido. A complexidade dá lugar à pujança e à força dos ritmos. No seguimento da viagem, deixamos que as dissonâncias e formas nos trespassem e que nos esganem, e somos absorvidos numa atmosfera kraut-rock em “The Shape”. A estética mantem-se, mas “Louder” leva-nos ao oriente onde vemos uma paisagem mais progressiva, continuando a ser agredidos pela música e, desta vez pela força e pujança da voz doutra exploradora, Taigen Kawabe dos Bo Ningen. Arrghhh, que música visceral, com toda a textura que procuramos, o noise é forte por estes lados!

Depois de todos os trambolhões, seguimos a viagem e vamos sendo esganados pelo crescendo que é este disco. Os ritmos complexos quase nos assustam, as frequências quase nos ensurdecem e o álbum ganha outro carisma. É no ultimo troço que conhecemos o último interveniente, depois da placa “Wrong Time Wrong Place”. É Davide Tomat dos Niagara que explora a produção e alguns componentes de electrónica. O início, que nos parece ser apenas bateria, recorda-nos os solos de jazz experimental de Chris Corsano, mas aí atmosfera escurece e começam a chover pingas de electrónica que nos levam ao noise. Seguimos, com alta atenção ao mais pequeno detalhe e à atmosfera, até “Swans’sish”. Conseguimos ouvir esta música com os olhos, dada a sua sugestão. É a faixa mais longa e é nela que sentimos a essência experimental do projecto. O clímax perfeito para o término do disco.

É tão bom arriscar, contrariar a convenção e fazer. KHOMPA preenche só e com todo o aparato, a investigação e a concretização prática da sua vontade que nos cativa, para mais tarde nos encantar com a música.