Parte do ritual associado a um concerto está a parte que nos leva ao destino final: a viagem. A pé, de carro, de transportes, do norte, do sul, de perto ou de longe, interessa chegarmos lá. E, se por vezes, essa viagem é facilmente esquecida ou não levada em conta, tantas vezes que foi feita anteriormente, quando ouvimos algo que nos faz viajar, que nos transporta para outros imaginários, outras eras, outros psicadelismos… então essa é a viagem que conta. É aquela viagem que, anos, mesmo décadas depois, estará ainda presente nas nossas memórias. Ontem, no celebrado Sabotage, Kid Congo e os seus The Pink Monkey Birds fizeram viajar todas as pessoas que encheram a pequena sala. Kid Congo, ex-The Gun Club, ex-The Cramps, ex-Bad Seeds. Com um pedigree destes, esperava-se uma noite ímpar.

Na pista, as luzes reflectiam da bola que descrevia intermináveis círculos e iluminavam os rostos que ansiavam pelo início. Rostos, diga-se, de um público conhecedor e apreciador, o que serviu para contribuir para o grande ambiente que se sentiu. Sentia-se no ar a energia que prenunciava uma noite de bom e puro rock. Momentos antes de começarem o concerto, Kid Congo e os seus colaboradores encontravam-se junto ao palco, confraternizando com os fãs, tirando fotografias, sempre com uma simpatia e um charme próprio de quem reconhece a dedicação de todos os que se deslocaram para o ver; durante todo o concerto, (e antes, e depois!), foi notória a forma genuína como aceitavam cada elogio, cada aplauso, cada incentivo para tocarem mais música.

Eis que, se dá uma espécie de metamorfose: a banda sobe ao palco e o afável Kid Congo torna-se num personagem completamente dominante, ele que, com o seu fato de largas riscas, improvável gorro de pele e o seu cuidado bigode ao bom estilo de uma estrela de Hollywood dos anos 30, parecia saído de um romance de Hunter S. Thompson. E, logo desde esse primeiro momento, aquele palco deixou de ser a estrutura mínima que é e tornou-se tão vasto quanto a expansão do universo próprio da banda.

Ver a banda a tocar, com uma alegria e mestria inegáveis foi, por si só, uma experiência que fez valer a noite. Havia algo de sexual na forma como as músicas eram interpretadas, músicas essas que ganhavam outra dimensão ao vivo face à versão de estúdio. No público, notava-se a adoração por esta figura mítica, e o primeiro grande momento da noite foi quando nos brindaram com “She’s Like Heroin” dos The Gun Club. A loucura frenética das guitarras, plenas de viagens distorcidas, o ritmo do baixo e o peso da bateria arrastava-se a todos os que estiveram presentes. Entre banda e público sentia-se uma enorme cumplicidade e Kid Congo – sempre charmoso e sequioso de partilhar com o público aquilo que lhe ia na cabeça -, informa-nos que, caso queiramos uma cópia do mais recente álbum da banda – La Araña Es La Vida, 2016 -, que o teríamos de o comprar noutro sítio, uma vez que tinham esgotado todas as cópias do seu stock. Um momento mais leve, antes de partirmos para mais um round.

“I Found A Peanut” é introduzida por Kid Congo com um curto monólogo: num ápice, somos transportados daqui e agora para Los Angeles, cerca de£ ‘66. Vêmo-nos, à medida que Kid nos vai contando a sua história atrás do volante de um Chevy Impala, possuídos por um qualquer frenesim, natural ou sintético, à procura de algo que pode não ser o que precisamos, mas é certamente o que queremos. Seguimos numa autoestrada interminável, através das palavras que ouvimos: eram músicas? Histórias? Memórias? Only Kid knows.

E, de improbabilidade em improbabilidade, eis que começam a flutuar bolhas de sabão pelo ar: na verdade, não poderia ter havido melhor maneira de encenar o prelúdio para “La Araña”, a mescla perfeita de música e intensidade da audiência com as bolhas de sabão a flutuar pelo palco e por quem estava à frente, fizeram com que toda a noite em si se tivesse tornado especial. Sempre genuinamente grato por cada presença, por cada aplauso, por cada momento devotado a si, Kid e os seus músicos saem do palco, aclamados como heróis, mas apenas por breves instantes: num ápice retornam ao palco para um encore que contém o clássico “Sex Beat”, novamente dos The Gun Club, certamente o momento da noite. Foi a explosão definitiva de tudo o que estava contido cá dentro. Mal acaba a música, ouve-se a melodia dos aplausos. Sente-se o amor pela banda. E, de forma a retribuir esse amor, a banda volta ao palco para nos regalar com uma versão do clássico dos The Psychedelic Furs “We Love You”. Kid repete-nos a frase ‘We love you’ múltiplas vezes. E sente-se que sim. We love you too, Kid.

Kid Congo and the Pink Monkey Birds @ Sabotage