Quando confrontada com uma das noites mais quentes de Lisboa neste ano, seria plausível que a multidão da capital com quem nos encontramos na Zé dos Bois preferisse talvez passar o serão na rua, junto às portas dos bares, apanhando a brisa fresca e sorvendo cidra a temperaturas ainda mais convidativas. A não ser que houvesse uma razão melhor para abdicar do sagrado ar fresco e tempo simpático que teimou demasiado a vir. Foi esse juízo que uma lotadíssima Galeria fez numa deslocação em massa para o apertado espaço com fim a ver uma banda que aparentemente tem uma relação mais amorosa com Portugal do que se podia pensar.

Os Kikagaku Moyo voltaram ao espaço lisboeta poucos dias antes de completar um ano desde a sua última passagem pelo mesmo espaço e propuseram um concerto no serão da passagem da Primavera para o Verão, algo que foi o que figurativamente e literalmente aconteceu. Mas não sem um rebuliço que é digno de qualquer ritual de passagem. Com eles, estiveram os Asimov, máquina bélica em configuração duo, que assaltou as paredes do Aquário e a pouco esteve de as rachar. Com uma descarga tempestuosa de decibéis e riffs os portugueses, levando o disco Truth preparado, encarregaram-se de dar um concerto agressivo e áspero, moendo e triturando uma plateia com a dura verdade do rock n’roll antes das paragens mais silvestres do colectivo japonês.

Aquando o lançamento do novo disco Truth em CD e cassette, os Asimov apresentam-se ao público português com uma reputação algo mais solidificada e palpável desde que os encontrámos, por exemplo, em alturas da primeira edição do Reverence. Um caminho progressivo e longo feito já durante a fase de maturidade da banda que parece também coadunar com o pathos da música do duo de Carlos Ferreira e João Arsénio: a música de Asimov é alongada, pesada e alta. As canções fazem-se de secas baterias e portentosos riffs que sempre se encontram a meio de um hard rock dos anos 70 e as directrizes do thrash. O que daí sai é uma espécie de prog-punk extremamente denso e repetitivo que abafou a Zé dos Bois durante cerca de 45 minutos de pura distorção e agressão, aptamente recebida por uma fome de rock na plateia.

Há uma aura veterana nesta banda que se justifica não só pela experiência dos dois músicos e pela idade do projecto, mas também pela abordagem e sonoridade que fazem sair dos seus instrumentos. Alicerçados nas basilares máximas do hard rock e do metal, os Asimov atacaram a plateia, mantendo a conversa mínima e imperceptível devido à distorção e abafo nos microfones – fazendo-nos imaginar um CBGB nos seus tempos de deliquência -, e apertando o overdrive com força a meio de ergueres de copos de cerveja e poses ostensivas ao bom estilo do rock n’roll. Em conformidade com a estética, um concerto despido e primitivo feito de uma sucessão vertiginosa de power chords pertencentes a um tempo passado e uma atitude desprovida de reinvenções ou revestimentos, apresentando as formas mais puras da música pesada. Se por um lado as canções são capazes de se alongar a poderosas divergências de sete ou oito minutos, por outro a repetição também é acentuada pela falta de variedade das mesmas, causando uma sensação circular e embaladora que foi capaz de prender uma plateia num transe abafado, como um soldado a sofrer de atordoamento por uma explosão próxima.

Na verdade, o cheiro a napalm é tão palpável nos Asimov como os horrores espaciais parecidos ao que o homónimo escritor imaginava. Há uma claustrofobia e sensação de marasmo na música deste duo que não respira nem deixa respirar até eventualmente abrir o círculo para orbitais secções abstractas feitas de drones e delays cujos ecos dos dedos a bater nas trastes das guitarras nos levam a um marasmo e desorientação reminiscentes ao cinema de ficção científica dos anos 70, conspirações da União Soviética e catástrofe nuclear. Extremamente pesado, um concerto de Asimov é bem passível de exaustar facilmente até mesmo os fãs mais aguerridos da circularidade. Ao mesmo tempo, é apto em jogar com essas características e erguer uma parede de som rica em texturas e sensações interessantes que, ainda assim, podem desencorajar os adeptos de uma maior variedade. De resto, rock n’roll intenso e poderoso e do mais tântrico que se vai conseguir encontrar no psych luso. Deus os abençoe.

Bebida a cerveja e feito o headbanging, as réstias de Asimov ainda ecoavam sob o chiar nos ouvidos com que nos deixaram. Nos rostos de alguns dos presentes já se via escorrer o suor, fruto do calor que se fazia e do camião musical que lhes passou por cima. Daí a pouco as coisas iriam realmente mudar um pouco de natureza e precisamente evocá-la. Os Kikagaku Moyo fazem o seu psych menos de agressão e mais de contemplação e simplicidade, algo que parece agradar o certame português, que para além de esgotar o evento apresentou-se extremamente entusiasmado para receber os virtuosos cinco de Tokyo. Afirmando que tocam melhor quando a multidão está próxima, o quinteto teve, certamente, todas as condições para assim o fazer, levando a cabo a sua missão-Verão com uma irrepreensível performance técnica e bem calibrada sonoridade.

É logo depois de uma simplista e simpática introdução que o grupo se lança a “Green Sugar”, faixa inaugural de House In the Tall Grass, o seu mais recente e mais polido trabalho. Rapidamente a frescura e a brisa da Casa parecem emanar da banda directamente para a plateia. Completamente concentrados e em sintonia uns com os outros, os Kikagaku Moyo aproveitaram as deixas uns dos outros e deixaram-se ir pela sua camaradagem musical, transformando o tal bucolismo experimental e vago encontrado nos registos gravados florir para algo mais sólido e tridimensional. Descobriu-se, com este concerto, que é ao vivo que este grupo é realmente livre e omnisciente aos seus arredores: capazes de entrar numa espécie de balanço harmónico onde se incluem não só os músicos como a plateia, os Kikagaku Moyo criam música que reage às condições e ao que é preciso, mantendo sempre a exímia melodia da qual é feita.

O que mais se pode apreciar no quinteto é o quão engenhosos conseguem ser com os seus recursos, nunca caindo em saturações ou enfeites. É-lhes preciso somente o essencial para criarem uma linda melodia ou um encadeamento rítmico atraente. A simplicidade está na raiz de composições que não são de todo simplórias. Observe-se, por exemplo, o misticismo de Terra Média de “Kogarashi”, também do mais recente: as canções fazem-se de cuidadosas teias lançadas pelos cinco músicos que entrelaçadas na sua abordagem descomplexa acabam por criar padrões intrincados onde nenhuma textura se sobrepõe e todas funcionam num balanço perfeitamente estável. Em concerto, esses lindos emaranhados de teias surgem realmente vívidos, com cada nota a trazer o seu peso e cada instrumento correctamente delineado no meio do conjunto.

As próprias dinâmicas de volume são executadas com uma sublimidade invejável: os crescendos do colosso acima de 10 minutos de “Silver Owl” foram uma das sensações mais palpáveis e sinestésicas, que evitando o lugar-comum do estrondo ou do cerimonial alongamento, caíram sobre nós como ondas do mar que assertivamente nos levantam o pé da areia sem nos tirar o equilíbrio. Quando, contudo, não nos estão a fazer divagar por entre pensamentos e abstracções, os Kikagaku Moyo também nos incitam à dançar. Houve uma espécie de relembrança de um encontro passado aquando da comparência das velhas amigas “Smoke And Mirrors” e “Streets of Calcutta”, dois dos momentos mais aplaudidos e igualmente memoráveis.

A primeira, evocando a esquisitice rock n’roll aguda de uns Can, foi o momento mais aguerrido, com confiante headbanging e braço no ar a colorir o próprio entusiasmo da banda. Já a segunda, tendo sido escrita por Ananda Shankar, sobrinho do Maestro, revelou ser a rainha da festa. Altura onde mais evidente foi a presença da cítara de Ryo Kurosawa, a versão tirada de Forest Of Lost Children fez o instrumento ser a clara estrela e o centro de tudo. Isto é algo que terá de ser perdoado perante a mossa picante e poeirenta que canção (que arriscamos nós dizer, será um ancestral protótipo para aquilo que eventualmente se chamaria math rock) causou na plateia, que viajou pelas suas paragens exóticas e brilhantes.

Com uma presença encantadora e um sentido de anfitriões apuradíssimo, os Kikagaku Moyo fizeram da sua segunda passagem por Lisboa, mais que um concerto, uma bela visita, daquelas que fazem clique e provam que mais alguma coisa que aqui se passa. Foi sob uma atmosfera muito bem temperada e alegre que o grupo alongou as suas composições, reagiu ao que o público que lhes deu e em retorno entregou um concerto personalizado e íntimo pela partilha das sensações da música entre banda e fãs. À hora de ir embora, os sorrisos e uma promessa de regresso em breve confirmam que o ambiente especial que aconteceu naquela noite não foi alheio à banda. Por fim, a insistência efervescente ainda conseguiu trazê-los de volta para um brinde especial: a também velhinha “Kodana” serviu de encore para pôr um ponto de depois do ponto final. Que mel.