Os Kikagaku Moyo são uma banda proveniente de Tokyo composta por vários multi-instrumentalistas decididos na criação de paisagens airosas e melodias contemplativas e penetrantes. Originalmente um colectivo musical com uma formação solta e intermutável, o grupo nipónico rapidamente se consolidou num quinteto sólido composto por Tomo Katsurada na voz e na guitarra, Daoud Popal na segunda guitarra, Kotsuguy no baixo, Go Kurosawa no kit e Ryo Kurosawa na cítara. Como se pode esperar pela inclusão deste último instrumento histórico , o som que os Kikagaku Moyo produzem tinge-se em belas levas de misticismo e busca, um registo que já têm levado a cabo desde 2012.

Proeminentemente psicadélicos, os músicos já lançaram desde essa altura dois discos, Self Titled e Forest Of Lost Children, com os quais a sua popularidade viral crescentemente dilatou e os levou a correr a Europa inúmeras vezes, tornando-os num dos actos psicadélicos mais queridos desta nova vaga. Entre um split com os sempre densos Moon Duo e o lançamento de uma cassette mais experimental do que costume intitulada Mammatus Clouds, os Kikagaku Moyo têm feito o seu som através de uma postura plácida e estóica, incluindo imensos elementos de folk psicadélico e bucólico a buscar presenças de vultos como Gong, Nick Drake ou Ozric Tentacles. Entretanto, as hábeis paisagens atmosféricas que compõem com a sua simbiose musical sempre foram essenciais e certeiras em colocar o ouvinte numa espécie de transe contemplativo focado em momentos específicos da vida.

Esta abordagem muito observadora das pequenas efemérides da vida é precisamente aquela que tem conduzido os Kikagaku Moyo a pintar estas autênticas telas movediças cheias de movimento e de vida, que remetem sempre para algum lugar, mais subjectivo ou não. Na calha para lançar o terceiro disco, House in The Tall Grass, a viagem continua, agora mais refinada e concentrada, e inspirada no imaginário cinematográfico, com a banda a creditar influências de discos de trilha sonora de Bruce Langhorne e Ry Cooder (dos filmes, The Hired Hand e Paris Texas, respectivamente). O primeiro avanço já emergiu e intitula-se “Kogarashi” (o vento de outono, em português) e é um exemplo prático da sonoridade airosa e livre que a banda habilmente faz.

Candidamente silvestres (Katsurada explica que inventou o ritmo e a melodia de “Kogarashi” quando adormeceu ao sol num parque e sentiu, ao acordar, todas as folhas mortas à sua volta a dançarem com uma rajada de vento outonal) e simultaneamente densos e radicais, a música dos Kikagaku Moyo também se faz entre o enlace e a valsa e entre dinâmicas e texturas, onde o frágil se confronta com o robusto e a tempestade de sons e riffs também vem dar lugar ao desbrochar de suaves dedilhares e cálidos coros vocais. A banda, de resto, já se encontrou com públicos portugueses em junho do ano passado, com concertos no Maus Hábitos no Porto e na Galeria Zé dos Bois em Lisboa. Regressam a este último espaço, um ano depois, no dia 19 de junho.