Kikagaku Moyo - House In The Tall Grass
85%Overall Score

A este ponto, e face à sua crescente popularidade no meio viral e nos devidos círculos, os Kikagaku Moyo já dificilmente podem ser tomados como uma descoberta, mas é precisamente isso, talvez, que faz da música deles um exercício tão recompensante. É que, dê por onde der, há sempre uma inerente sensação de desbravamento nas composições relaxadas e airosas dos japoneses. O homónimo e Mammatus Clouds pavimentaram (ou brotaram?) uma viagem mística regada a espaçadas vocais e ornada com o sempre marcante cantar da cítara que agora pinta mais um capítulo com House In The Tall Grass.

Este disco surge como uma exploração ainda mais profunda da aura de contemplação da banda, reduzindo ainda mais a escala das coisas que observa para se concentrar nos mais ínfimos detalhes que compõem a vida quotidiana. Aqui, até uma brisa de Outono é capaz de inspirar alegres e cândidas composições como “Kogarashi”, faixa instantaneamente reconhecível que, ainda assim, é mais uma poster girl para o som da banda do que propriamente do disco em si. House In The Tall Grass é um registo inerentemente cinemático, como a banda já havia afirmado pretender, que se deixa perder nas suas ideias e experimentações, mas que também trabalha de perto com a carpintaria da escrita de canções sólidas e aptamente construídas.

Espalhadas por composições que podem ir dos dois minutos até aos dez, cada uma das nove faixas responde a um requisito: a liberdade de direcção e vontade. Isto traduz-se num disco que sonicamente pode até nem se unir através de uma coesão temática, mas soa sólido e construído num todo graças à sua diversidade de sons e texturas que, simultaneamente, trazem diferentes paisagens e sensações. Assim, tanto podemos encontrar drones meditativos e exclusivamente exploratórios, como na pegajosa “Melted Cristal”, como ficar a curtir a onda surf inerente na seguinte “Dune”, que demonstram como o equilíbrio entre as experiências sónicas e o registo mais acessível é feito aqui com tanta agilidade.

Atente-se logo na faixa de abertura, “Green Sugar”, cujas salvas de guitarra iminentemente épicas e místicas abrem para um eventual groove circa 70’s que combina a longevidade das diferentes secções da música com um tom gingão e imediatamente dançante. A ajudar a esta fluidez de transformações está também a forma como os Kikagaku Moyo introduzem os vários elementos do seu som. A voz vai e vem a seu bel prazer como se nunca tivesse ido embora, enquanto as pequenas gotas de teclados e a ocasional magia da cítara surgem na canção como se os músicos estivessem a barrar manteiga: escorregando pelos arranjos.

Por outro lado, “Kogarashi”, é uma brisa que passa, artesanal na sua textura e muito leviana no seu tom; é uma competente balada de folk psicadélico onde ecoam uns Gong exóticos e mais despidos. Descomprometida e suave, é a par de outros exemplos – “Old Snow, White Sun” e “Cardigan Song” -, representativa do yang tranquilo e morno de House In The Tall Grass. Já o yin, que decide apimentar a veia mais arrojada, activa-se a meio de “Silver Owl”.

Facilmente a peça central do terceiro disco é um pequeno mamute com mais de dez minutos de duração (a faixa mais longa) e uma pequena viagem que micro-representa o álbum dentro do mesmo, já que é uma real conjugação entre a suavidade dos dedilhares e cânticos orientais dos Kikagaku com a sua vontade em ascender a paradas mais estratosféricas. Multi facetada e densa, nela os músicos lançam-se sobre uma pequena balada construída sob a égide da cítara para a banharem em electricidade e psicadelismo, com crescendos feitos em distorção a puxar por um psych mais rugoso, confirmado nos solos circulares e numa constante subida de tempo.

Naturalmente muito bucólico ao bom estilo da banda, House In The Tall Grass assume-se como um dos discos mais esguios e serpentinos de 2016, não numa medida de perversão, mas na facilidade como conquistam e embrenham o ouvinte. Todas as suas nove faixas são extremamente fáceis de ouvir e mesmo os momentos mais arrojados são alvo de uma preparação tão aconchegante como uma mãe a puxar-nos os cobertores no Inverno. Por entre pequenos interlúdios de teclado e lindos acessos de cordas a ligar os temas de forma quase imperceptível, parece haver um fio que não conduz mas só incita a que se caia nesta teia de exploração.

O que se vê nos Kikagaku Moyo neste terceiro registo não é uma vontade de impressionar ou sequer demonstrar a proeza técnica ou imaginativa destas canções. Descobre-se, antes, uma bem intencionada vontade de embrenhar fãs e desconhecidos na música deste colectivo e motivar um desbravamento em conjunto como se a banda nos estendesse a mão numa visita guiada ao disco. A maneira como House In The Tall Grass se desvenda por entre a vegetação acaba por ser o elemento mais bonito que contém e, se alguma coisa, torna-o num forte candidato a “álbum mais simpático do ano”. A nós parece-nos bem. Vamos à passeata?

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