Podia ser um Satyr da Grécia Antiga, como podia ser um Fauno, o seu equivalente na civilização romana, os seres mitológicos metade humano metade cabra que habitavam no abundante colectivo de deuses e deusas da Antiguidade Clássica e que desciam sobre os humanos qualquer que fosse o poder específico que lhes fora entregue pelo deus maior. Mas é apenas um homem, e ainda para mais um homem mal saído ainda da sua condição de menino, guardião de uma voz de barítono colossal e detentor de uma portentosa força musical que das catacumbas viciosas, húmidas e negras arranca mais um épico em partes iguais tribal, exótico e pulp fictionesco.

Seja qual for o título nobiliárquico ou mitológico que lhe seja atribuído, a verdade é que Archy Ivan Marshall se transforma num ser que com alguma dificuldade se encara como terreno, em especial quando assume a forma musicalmente quase performativa de King Krule, apenas uma da miríade de nuances da sua vertente artística, e com a qual domina uma esfera muito própria. Depois do tema de avanço “Czech One” e de em meados do mês passado terem sido revelados, juntamente com “Dum Surfer” e o seu cenário zombie-apocalíptico os detalhes do seu próximo álbum, o britânico lança agora o terceiro capítulo de uma odisseia que se prevê titânico e a roçar o sobrenatural.

Com uma entrada dos infernos com várias vozes em justaposição a sobressair de um fundo de base sonora enjoativa e circular própria dos mais ínfimos recantos do submundo, e por entre os já habituais tecidos jazz com uma queda acentuada para o lado mais negro dos Morphine, “Half Man Half Shark” desbrava uns misteriosos caminhos noise e darkwave mesclados com uma tendência preacherman, e decerto que a lista de referências não se fica por aqui. O tema fará parte de The OoZ, o terceiro álbum de Marshall e o segundo sob o pseudónimo King Krule, que tem data de lançamento marcada para dia 13 de outubro pela XL Recordings.

Lê também: Cuidado com os zombies: King Krule lança “Dum Surfer” e revela detalhes do novo disco