Longe vão os tempos de “Manchester”. Aqueles em que brincávamos à chuva e nos abrigávamos do cinzento dos dias à porta do 151a onde, muitas vezes, entrávamos, nos encondíamos e fazíamos dele, nem que fosse por momentos, um lar emprestado. Kishi Bashi cresceu, saiu dessa casa de paredes orgânicas que lhe moldou a identidade e tão bem lhe serviu de tecto – a ele, e a tantos de nós -, deixando para trás um rasto perfumado de memórias e rasgos de uma inocência pueril e atravessou oceanos, respirou novos ares e empilhou experiências, nem sempre bonitas, que lhe toldaram, não só a alma, mas também a música.

Das pautas sobre as quais se deitavam dilúvios de violinos e se colavam orquestras infernais algo, não muito, restou. Bashi cruzou montanhas soalheiras de som para vir descobrir teclas e teclados cheios, sintetizadores cintilantes banhados por noites sem fim de luxúria electro que descambam, eventualmente, numa imensidão de dor. Não arrumou na caixa a inocência do seu violino – nem tão pouco a transparência da sua voz -, e pouco dele já se ouve, mas quando o afaga no ombro, não há explosão que se contenha nem há loop viciante que se consiga controlar.

“Can’t Let Go, Juno” é o terceiro single e faz parte do conjunto de temas prestes a rebentar em Sonderlust, o novo disco do multi-instrumentista japonês que nos chega daqui a pouco mais de 1 semana, a 16 de Setembro, pela Joyful Noise. De sangue quente, veia pulsante, melodia febril, o tema documenta um período difícil na vida de Kishi Bashi, tanto a nível profissional, como a título pessoal. Serão 10 temas que contam com a participação de Matt Chamberlai (Morrissey, Fiona Apple e of Montreal) produzidos por Chris Taylor (Grizzly Bear), Pat Dillet (David Byrne) e com varíadíssimas alternâncias de corpo e alma. Para abrir e não haver contenção no consumo.