Apesar de que o realmente interessa é para onde estás a ir e não por onde já passaste – motto particularmente real quando aplicado à constante fuga à estagnação da carreira de Hersh -, um currículo como aquele que nos apresenta a cantautora norte-americana dificilmente se passa para o lado. Começando a tocar guitarra aos 9 anos, é precisamente com 14 que, conjuntamente com Tanya Donelly, Hersh vai fundar a mítica banda Throwing Muses, tornando-se assim numa das mais activas e altamente influentes figuras a fundar e popular a nata do rock alternativo norte-americano e uma das grandes artistas que hoje em dia se agraciam de actividade.

É desde os meados dos anos 80 que Hersh vem alimentando uma fome de canção servida a acordes rasgados e hinos roucos. Entre livros para crianças, o seu trabalho com outros artistas e bandas e uma prolífera carreira a solo gerida de forma virtualmente autónoma e independente, Kristin chega a 2016 com Wyatt At The Coyote Palace, um disco duplo com um transversal sabor a documento biográfico significativo. Não só o nome deriva do edifício abandonado atrás do estúdio onde ela e o seu filho Wyatt ficaram durante a gravação do disco, como o mesmo vem acompanhado de um livro de capa dura recheado de ensaios e letras. Entretanto, os restos de uma terminada união de 25 anos, surgem a pairar sobre um extenso trabalho pessoal que encontra no rock a sua cor e um corpo tão reconhecível como continuamente fascinante.

A música de Kristin faz-se através de um rugoso mas consistentemente felino domínio do formato canção, com a mente da artista a destilar à nossa frente as suas próprias palavras. Nascidas de um escorrimento de pensamento genuíno e perspectivado fora da bolha onde acontece a vida, as letras, não raramente, vêm incutidas com uma aura onírica e quase sempre de língua afiada. Até na maior fragilidade dos assuntos ou no círculo mais íntimo da vida pessoal, há sempre um universo muito próprio e algo encantado que Kristin cria com o seu tom veloz e portentoso. Isto sem, de resto, alienar a vida real e as emoções genuínas que escorrem ao longo de memórias nem sempre menos turbulentas.

As histórias de vida, divididas ao longo dos anos entre problemas de saúde, cansaço e própria maternidade, vão surgindo na companhia de um fiel e altamente orelhudo trabalho de guitarra que vem encantando já desde o seu tempo com os Throwing Muses. Oscilando entre um modo de agressão punk e um folk electrificado não muito longe de um Neil Young, as canções estruturam-se em criativas e animadas composições que saltam por natureza e técnica ao se apresentarem com um fresco e inesgotável apelo pop e continuamente fascinantes sequências de acordes e mudanças repentinas no tempo. Estes dois últimos elementos são, em particular, extremamente importantes para catapultar a letra de Kristin Hersh para estruturas musicais que conseguem ser simultaneamente acessíveis e altamente exóticas, proporcionando canções epicamente sólidas e completas.

Esta ginga encontra-se,certamente, no seu novo Wyatt At The Coyote Palace, onde as suas canções ressoam numa estética próxima dos inícios dos anos 90 mas de olhos postos no mundo de hoje em dia. “Detox”, por exemplo, é um labirinto de canção onde toda a sua crueza e rouquidão é posta a viajar por entre infinitas e impressionantes mudanças de acordes e múltiplas sequências a homenagear – e mais importante, refrescar -, a famosa dinâmica quiet/loud, algo que a torna numa refinada e complexa composição rock de elevado nível. Mas por fim, “Soma Gone Slapstick” prova-nos que esse mesmo rock é feito de espírito e despe-se de muitos ingredientes para nos mostrar a magia da simplicidade neste precioso tema que é um autêntico parente directo entre 2016 e o 1990 dos Pixies, dos Breeders, dos Nirvana ou dos Dinosaur Jr.

No fundo, nunca um artefacto ou uma peça de nostalgia, Kristin Hersh é uma artista em constante evolução e descoberta, fazendo o seu percurso num caminho sólido e coerente que, ainda assim, soa tão fresco como quase há 30 anos. Indubitavelmente uma referência silenciosa nas sucessivas influências geracionais, a escritora e guitarrista vai fazendo o seu percurso tranquila e confiantemente trabalho após trabalho. Wyatt At The Coyote Palace é mais uma prova da sua vitalidade discreta e certamente vem regado com material que baste para se ir digerindo em doses simpáticas de riffs e uivos por algum tempo.

Encontrar e contactar com a sua música, é descobrir uma voz que sem ser das mais mediáticas ou badaladas, é potencialmente uma das mais interessantes e curiosas do rock actual.