Florestas exóticas, bordéis asiáticos, guerrilheiros, bailarinas havaianas a dançar no espaço cósmico e máscaras de gás como acessórios de moda. Nestes cerca de 8 minutos de realidade alternativa, cabe um pouquinho de tudo. O novo vídeo dos La Femme é uma celebração pura e inequívoca de um surrealismo inesgotável, bem alinhavada com densidade colonialista erótica de exótica pronúncia francesa.

Como se já não bastasse esta orgia de imagens a dar corpo aos cerca de 4 minutos de “Amour Dans Le Motu”, a banda acrescenta-lhe ainda outros 4, estes pertencentes a “Witchcraft”, tema bónus de Psycho Tropical Berlin nitidamente engatado no primeiro, para um total de cerca de 8 minutos de banquete visual épico. Se “Amour Dans Le Motu” nos oferece um surf pop reminescente das décadas de 60 e 70 subtilmente embelezados com uma camada bem espessa de new-wave, já “Witchcraft” desafia e estica os seus limites e mostra-se assertivamente como um colapso electro-apocalíptico coberto de gemidos e batidas graves de base trance-industrial.

O próprio som dos La Femme traduz-se numa amálgama de influências, como nos esclarece Marlon, o teclista. Psycho Tropical Berlin é uma mescla de psicadélica, rockabilly, electro e punk com laivos de surp pop; é, em partes iguais, Gene Vincent, The Velvet Underground e Kraftwerk. Um caldeirão de ambiências hipnóticas e extravagantes (Psycho), praias, surf e energia soalheira e positiva (Tropical) e electrónica fria e binária (Berlin).

Difícil é não ficar com as imagens deste “Amour Dans Le Motu/Witchcraft” mentalmente em replay em espirais de neblina etéreas, enquanto fingimos tentar voltar à realidade. Uma exaltação onírica de frenesim electro-surreal.

rosana rocha sig