É até onde as nuvens se cruzam que viajamos com a caravela na ponta dos dedos. E com a música dos indignu [lat.] constroem-se viagens assim; com o poder lírico do silêncio e a violência da pureza, tecem-se melodias perfeitas em marés vivas de neoclassicismo com uma boa dose de experimentalismo à mistura. A noite de 2 de Dezembro no Hard Club marcou a apresentação de um dos discos que promete assumir uma das maiores importâncias no panorama nacional e que dá pelo nome de Ophelia.

Não é óbvio explicar a singularidade dos indignu [lat.] mas é evidente que tal se sente. No travo adocicado dos violinos ou no cantar das guitarras, numa secção rítmica precisa e timbricamente criativa, esconde-se o coração de uma banda visceral com projecção internacional que em 2013 galgou continentes e mares com Odyssea. Com a fasquia claramente elevada por este disco, que se construiu como um dos discos essenciais da música experimental alternativa e, inevitavelmente, do post-rock, os indignu tocaram no Dunk! Festival na Bélgica, em Espanha e actuaram, também algumas vezes em Portugal. Surpreendendo quem já passou pela experiência de os ver ao vivo, a vontade de ver indignu era maior do que essa mera possibilidade. A agenda da banda nunca foi muito preenchida por questões técnicas e até mesmo estéticas, mas conta com salas numerosas, aclamadas e relatos surpreendentes.

Ophelia nasceu este ano, deixando que seja recuperado o fôlego da intensa Odyssea e aparece no Hard Club equilibrada e bastante crescida para quem conta cm tão poucos meses de vida. Com os dois corações que “batem no peito de uma mulher” – como se lê no booklet da edição em vinil do disco -, a darem os primeiros palpites, subimos à “Montanha Negra”, primeira canção do lado B de Ophelia e a primeira canção do concerto. Com uma entrada bastante simples em palco, este tema funcionou como uma proposição que nos mostrou o que seria cantado naquela noite. Afogada em delay, a música deambulante manteve-se, ainda na carne de Ophelia, mas em direcção a “Santhiago do Schiele”. Ainda no lado mais pesado do disco, a performance funcionou essencialmente com a envolvência de paredes de guitarras, numa bateria forte e num baixo presente que por entre oscilações climáticas nos aqueceram com o movimento e nos arrepiou com o gelo brilhante das guitarras.

Por detrás de nuvens de algodão, à frente de um banco de jardim, ouviram-se as primeiras palavras da noite pela voz de Afonso Dorido, que confessa de forma íntima a felicidade em verem uma sala bem composta e nos segreda que o tema seguinte significava algo especial para a banda deixando no ar, atrás do fumo, a sua razão de ser. Com uma presença muito mais forte dos violinos, “Adeus Clarabóia” prova nas curvas acentuadas dos rostos, na sua expressão sónica, o que já nos tinha sido dito: esta é, de facto, um tema imensamente especial. As nuvens do palco cresciam verticalmente, e congelavam enquanto escorregavam pelas costas. Com toda a força composicional conferida pelo coração neoclássico dos indignu [lat.], fechavam-se os olhos e cresciam as respostas entre os instrumentos como uma conversa naquele banco de jardim.

 

É com a “Caravela Na Ponta Dos Dedos”, uma das mais emblemáticas canções do colectivo, que viajamos pela primeira vez na noite até Odyssea. E que bela viagem fizemos, em tantos momentos diferentes, com a sensação da presença das ninfas do Tejo, as Tágides, no Douro e naquela sala. No decorrer deste percurso, atracaram em vários portos pelo “Mar do Norte”, seguindo-se “Chovem Pedras de Fogo do Céu”, das quais nos desviámos ainda sentindo a sua força… É a meio dessa viagem que entra a bordo “Rafaela” “como um presente” – diz a banda sorridente -, entrando-se assim também em Fetus In Fetu, o primeiro registo da banda.

A energia é evidentemente diferente, ainda que numa versão que encaixou perfeitamente no alinhamento do concerto. Houve ainda tempo para ver “Tâmaras ao Vento” lá, bem perto de “Jerusálem”, onde não esquecemos “Santa Helena”. O final de alinhamento dificilmente poderia ser melhor. Quem precisava de provas de que os indignu [lat.] são um dos projectos mais entusiasmantes que vemos em Portugal nos últimos anos, aqui as teve. De projecto a projéctil. A banda terminou assim a sua apresentação com aquelas que, provavelmente, são as duas canções que melhor descrevem a banda. Densas, coesas, com um balanço perfeito entre a formalidade e profundidade do neo-clássico e a garra e a estaleca do peso da atmosfera alternativa. Duas músicas que, em performance eximia, se impunham em qualquer sala deste planeta, por esse mar fora ou em terra firme.

De mágico a magistral, todos os adjectivos cabem neste concerto. Uma oportunidade belíssima de ouvir a estreia de um disco forte e intenso. Ophelia não se afoga neste drama, antes pelo contrário. Sai do lago e atira-se ao “Mar do Norte”, de braços abertos, sem ver que “Chovem Pedras de Fogo do Céu”. Da epopeia ao romance, do Fetu à mulher, assim se escreve a história dos indignu, em latim ou esperanto, não importa: toda a gente que queira a vai ler, entender e deixar entranhar.