Lana Del Rey lançou na última semana o seu quinto álbum de estúdio Lust For Life e há uma mudança visível na narrativa, no seu estilo e na sua forma de pensar. Ela sorri na capa do disco, que pela primeira vez traz artistas convidados no alinhamento e uma abrangência maior de estilos em toda a produção. A menina que por tantos anos se mostrou um mistério para a crítica e para os fãs com composições construídas em camadas sobrepostas de significados, está pronta para ser uma mulher e se fazer ouvir. E o que ela quer é a partilha, para além dos seus romances sombrios, de uma nova persona que, pela primeira vez, consegue desviar os olhos do seu umbigo para olhar o mundo ao redor.

Lana abre o álbum com “Love”, quase parafraseando John Lennon no refrão quando diz que nada mais importa, a não ser o facto de se ser jovem e estar apaixonada, contradizendo logo de caras o que ela pregava no início da carreira com “Born To Die”. A mudança de narrativa em relação aos seus lançamentos anteriores é também palpável através da mensagem de paz e amor que ela passa, que fica ainda mais evidente no videoclipe dirigido por Rich Lee. Nele, a cantora lidera um grupo de jovens a abrirem os olhos para a amplitude do universo, enquanto ela mesma se mostra feliz com essa nova realidade.

Novos tempos, nova Lana. Esse é o ponto de partida para o conceito central de Lust for Life: com todas as tensões sociais e políticas que tomaram os Estados Unidos e o mundo desde o seu último disco, lançado há dois anos, a cantora finalmente conseguiu sair do seu casulo e colocar os pensamentos numa perspectiva mais ampla. Os seus relacionamentos, o seu recém-declarado apoio ao feminismo e até o seu próprio papel como artista carregam um peso maior do que ela acreditava antes. E, ao entender isso, Lana desdobra-se numa grande manancial de temas.

O que nos leva à faixa-título do disco, a sua quarta parceria com The Weeknd e um dos eixos deste novo ciclo. Na canção, ao contrário das suas colaborações anteriores, ambos os artistas encontram o desejo pela vida através do amor. No vídeo, onde ela se atira do alto da placa de Hollywood enquanto canta referências nem tão subliminares a The Great Gatsby, um dos grandes clássicos do cinema, essa plenitude de prazer só é atingida quando ela decide abandonar a iconografia americana e os ícones de Los Angeles para, literalmente, colocar os pés no chão. Esta é a Lana que desce do seu pedestal de musa ou, pelo menos tentando fazê-lo para assumir a forma de mais uma jovem comum e feliz por estar apaixonada.

Mas este é ainda um disco de Lana Del Rey, e ele não estaria completo sem algumas baladas sobre a dor dilacerante de um coração partido, baladas que formam o segundo “segmento” de Lust For Life. Se em “13 Beaches” Lana reflete sobre o isolamento que a fama lhe traz – de uma forma menos agressiva do que a a abordada em “High By The Beach” -, ao mesmo tempo declara a sua devoção eterna ao homem que ama, assim como o fez anteriormente em faixas como “Old Money”. Mas há uma mudança de tom: aqui, ela afirma que “morre para sentir algo real”, algo que não consista apenas de flashes e holofotes e falsas promessas, o que é repetido ao longo das duas canções subsequentes.

Em “Cherry”, Lana questiona-se sobre a intensidade do amor verdadeiro, enquanto o homem que ama a deixa “despedaçada”. A produção tingida de trap adiciona um quê de sensualidade em meio à melancolia que é típico de suas melhores composições, e forma um traço repetido em “White Mustang”, na qual ela compreende que o amor com esse “rockstar” não poderia durar muito tempo, já que ambos querem coisas diferentes. Por sinal, é essa conexão com a produção eletrónica comum aos principais artistas contemporâneos de hip hop que define esta e a próxima secção do disco.

Tanto em “Summer Bummer” quanto em “Groupie Love” e “In My Feelings”, Lana mergulha de cabeça num universo noturno comandado pelo rap, representado da melhor forma na figura de A$AP Rocky, seu colaborador desde que apareceu no vídeo de “National Anthem” interpretando John F. Kennedy, em 2012. Uns dirão que os convidados do disco, principalmente Playboi Carti, são completamente dispensáveis. Mas existe uma certa validação no sentido em que esses artistas dão o rumo musical que a cantora quer seguir e isso é inegável. Até na diss track “In My Feelings”, declarada para o rapper G-Eazy, a forma como Lana debocha desse novo “perdedor” pelo qual ela quase se apaixonou é menos deprimida e mais agressiva do que nas suas composições anteriores, muito em parte pela influência do trap.

“Coachella – Woodstock In My Mind” é o elo fundamental entre este mundo urbano e a nova consciência política de Lana Del Rey. Em meio ao fervo do festival de verão e à adoração por Father John Misty, ela encontra-se a pensar em possíveis guerras nucleares, o futuro dos Estados Unidos e as relações do país com a Coreia do Norte, enquanto as batidas de trap rolam soltas no background. Esta não é nem de perto uma das suas composições mais brilhantes, mas tem um valor inestimável num contexto maior, principalmente se pensarmos no que esta música representará daqui a alguns anos como retrato fiel de um momento em que grande parte do mundo se sentiu perdido e sem esperanças.

Ao evocar o movimento cultural de Woodstock, Lana abre espaço para o próximo eixo “hippie-paz-e-amor” do disco, que traz ao centro da discussão a desesperança e, simultaneamente, a urgência de uma maior coletividade para enfrentar o problema. E é aqui que Lana brilha ainda mais forte: o resultado são letras quase pré apocalípticas, onde ela decide que a resiliência é a melhor ferramenta para o debate, como na excelente “God Bless America – And All Beautiful Women In It”, que traz o barulho de tiros na produção e clama pela sororidade feminina a cada verso.

“When The World Was At War We Kept Dancing” aterra em meio a essa nova consciência, evocando novamente os anos e a filosofia de Woodstock enquanto a cantora desperta o ouvinte a refletir sobre o que está a acontecer ao seu redor. Num estilo folk quase à la Bob Dylan, Lana abre a música pedindo para que   não se use um discurso pomposo, ou os outros podem não entendê-lo. Ao questionar se esse é o fim de uma era, o fim da América, a resposta vem como uma reflexão do passado: quando o mundo estava em guerra, nós continuamos a dançar, e faremos isso de novo. É um convite para ver a luz em meio à escuridão e, ainda mais, é um convite feito de forma horizontal: Lana é apenas mais uma na multidão de pessoas perdidas com o que acontece. E aí está um de seus grandes trunfos como compositora: por mais que ela beire a linha do kitsch em muitos versos, eles conseguem ainda soar puros, como transcrições diretas do que ela pensa, mesmo que isso não chegue a uma grande conclusão ou esclarecimento. Há coragem na vulnerabilidade que ela expressa, e ainda mais na forma como ela propõe uma percepção do que ocorre pelas lentes hippies que usa.

As parcerias do disco também são indispensáveis para que o significado dessas mensagens não se perca como um acto de arrogância e prepotência. E a presença de Stevie Nicks no alinhamento do disco não é apenas uma surpresa agradável: traz também um casamento perfeitamente etéreo entre as vozes e filosofias de ambas as artistas. Mesmo que elas se declarem como “apenas” pessoas bonitas com problemas bonitos, a forma assombrosa como continuam a pedir para que tentemos atravessar o fogo soa simples e também impactante. Há um entendimento de que, nos dias de hoje, o romance não basta por si só e, como ela mesma declara, “a vida é mais que um jogo de vídeo”. O efeito é repetido em “Tomorrow Never Came”, onde o legado de paz perpetuado por John Lennon toma forma através de seu filho, Sean. Produzida de forma mais crua e ainda mais imersa no folk, o romance narrado pelos artistas traz um desejo pelos dias mais simples do passado, com versos metalinguísticos que evocam tanto o cantor, quanto a sua família em meio a referências à obra de Elton John.

Lana admite que teve uma certa resistência em abandonar seu estado de escapismo e melancolia, mas em “Heroin” assume finalmente que mentiria se não dissesse que estava cansada de toda essa estética e desse sentimento. Eis que vem “Change”, talvez a peça central e a música mais reveladora do disco, como um grande motto que o atravessa em todas as outras secções. Gravada na véspera da finalização do álbum, a balada com apenas voz e piano deixa claro que a ideia da artista é deixar de fugir e aceitar que apenas a mudança na sua forma de pensar já é um passo inicial para algo maior e melhor. E esse acaba por se tornar o seu manifesto oficial, como ela canta em “Get Free”, a última faixa: Lana não sabe o que acontecerá no futuro e o que ela poderá fazer a respeito. Mas enquanto puder, continuará partilhando o que pensa e seguindo em frente. E isso conta para alguma coisa. Porque se Lana Del Rey conseguiu sair de uma vida a preto e branco para encontrar os tons de azul no mundo em meio ao caos, então talvez ainda haja esperança para o resto de nós.