A percepção que o artista tem do mundo, seja ele o interior e o exterior, reflete-se nas ondas sonoras que compõem cada canção; assim, a música torna-se num espelho ou, melhor, num caleidoscópio: manipular emoções ou fazer emergir imagens quase cinematográficas nunca foi tão fácil. Estudar a essência do som pode ser um trabalho complexo e exaustivo, mas compreendê-lo é estar em harmonia com cada frequência sonora que ondula no cérebro e entrar num transe capaz de nos fazer viajar por todos os momentos das nossas vidas, desde a primeira respiração até ao presente. Edgard Varèse, músico e compositor francês, disse que a música é som organizado, e fascinante é pensar a música desta forma. É importante, também, realçar a importância dos sons e a forma como eles se interiorizam nos subsistemas do sistema nervoso para que possamos compreender toda a dinâmica sonora numa visão neuropsicológica.

O som deve ser preservado e, nos tempos hodiernos, parece ser algo que não tem merecido o respeito devido; porém, existem pessoas como Luís Antero, fonógrafo residente em Oliveira do Hospital, que consciencializa as pessoas através das paisagens sonoras que capta na região da beira serra. Por conseguinte, bandas como os leirienses First Breath After Coma entendem o som como uma parte daquilo que nos constitui: se escutarmos o álbum Drifter com a máxima sensibilidade no ouvido – aqui o conselho é ouvir o álbum com fones de qualidade e com o volume no máximo –, conseguem-se escutar sons do dia-a-dia nos onze temas que constituem o álbum, o que é extraordinário.

Up Tomorrow é o curta-duração do britânico Laurence Galpin, a.k.a. Laucan, lançado no dia 10 de Março via Sunday Best, que começou a cantar em falsete depois do término de uma antiga banda. E sobre isso o artista diz, “I didn’t want anyone hearing my songs through the door of my room.” E, felizmente, Laucan partilhou com o mundo uma obra extremamente bela e rica em sons que se revelam de uma maneira absolutamente mágica. A seu lado na construção do EP teve Andrew Phillips que pertence, com Marcus O’Dair, ao projecto Grasscut. O seu estilo define-se por paisagens sonoras envoltas num folk mesclado com electrónica a deambular numa pintura impressionista. Os quatro temas que constituem o EP são um manifesto sonoro cheio de imagens e pequenas curtas-metragens a incidirem na memória. As guitarras flutuantes cheias de reverb e sintetizadores atmosféricos que abrem portas soalheiras habitam no álbum ao lado de uma voz que canta com a alma.

“Up Tomorrow”, o tema que abre o EP, começa por ser um ensaio sobre a viagem sonora de Laucan. O dedilhado desperta o voo e os assobios dos pássaros que, juntamente com os sintetizadores ambient, desenham paisagens bucólicas e refrescantes onde se sente uma conexão instantânea com o mundo. Conseguimos logo perceber que a música de Laucan é um mar infinito onde a criação e a originalidade fazem ondular como poucos artistas conseguem.

“Where I Should Be”, a faixa seguinte, é o magnus opus em Up Tomorrow. Uma música composta no céu com a caneta de um poeta que beija cada palavra no papel. Entre vozes que cantam “I’m a lonely man” e “I thought that the sky was made for me but the ground is where i should be”, ouvem-se sintetizadores e sons que vêm de um outro planeta. É um exercício feito nas nuvens e no silêncio do céu. “Don’t Love Me Anymore” (DLMA) é a procura artística de quem não quer seguir os lugares-comuns. É um exercício de amor para com o mundo, de quem procura um lugar no céu e se embrulha em todo o vazio que os espaços têm em si. Assim, Laucan canta “I am this emptiness” num retrato que tem como face uma deformação à Egon Schiele, ou a cara do desconhecido.

Segue-se, por fim, “Tectonic Plates”, que começa por misturar sons de fundo e uma voz quase inaudível para, depois, podermos ouvir Laucan cantar num falsete que nos faz lembrar Jeff Buckley com a sua voz angelical a sobrevoar a atmosfera. A voz do britânico deixa-nos a viajar, e de forma muito sensível e fria na forma como canta “We’re just tecntonic plates”. Toda uma energia, a sua, que causa um imparável movimento das placas.

Este é um curta-duração que deve ser escutado de forma livre e intensa: a música de Laucan está intrinsecamente ligada à memória e essa conexão causa as mais diversas reacções emocionais. Uma música ouvida pela primeira vez terá sempre efeitos diferentes no cérebro, e é capaz de abrir novas janelas dentro de nós, como Up Tomorrow tão bem o faz.