O ano era 2011: José Sócrates renunciava ao cargo de primeiro-ministro, um terramoto e um tsunami desolavam o Japão causando cerca de 20.000 mortos, Fidel Castro abandonava o seu último cargo no poder, o príncipe William e Kate Middleton tornavam-se duques de Cambridge, Osama Bin Laden ea assassinado, Anders Breivik levou a cabo um atentado terrorista provocando a morte de 77 jovens na Noruega, a população mundial alcançou a meta das 7 biliões de pessoas.

Pondo por momentos de parte estes acontecimentos históricos de teor político e social, focamo-nos agora num que marcou o panorama cultural: o final dos LCD Soundsystem. Passados quase 10 anos desde que “Losing My Edge”, “Yeah” e “Movement” provocaram um moderado alvoroço dentro da cena dance-punk underground completando consequentemente o seu full circle com o lançamento do primeiro disco homónimo, o projecto chefiado por James Murphy enfrentava os dias do fim, tendo agendado um último concerto no dia 4 de abril desse ano – posteriormente lançado em formato físico com o título The Long Goodbye –, em formato de despedida. Durante um período de 3 horas, praticamente todas as canções da banda norte-americana encontraram o seu caminho no colossal palco que o Madison Square Garden se transformou naquele que facilmente foi “O” concerto dos LCD Soundsystem. Para além de todos os êxitos terem sido tocados de forma sublime, era palpável o ambiente mágico que se vivia naquele recinto, tanto em cima como fora do palco: a entrega tremenda dos músicos que James foi alistando ao longo dos anos, a felicidade dos milhares de seres que por ali andavam e, claro, os olhares de complexidade entre o senhor LCD e a sua fiel parceira de crime, Nancy Whang. Naquela noite tudo fora perfeito.

Os anos foram passando mas a memória dos LCD Soundsystem permaneceu intocável – caramba, eles revolucionaram todo um estilo de música e em tudo onde as suas mãos tinham o prazer de tocar subitamente se tornava em ouro. O desejo e a vontade de os ter entre nós a continuar a criar temas constantemente mais alucinantes – imagem de marca da banda, diga-se de passagem –, era forte, mas o sentimento de ‘dever cumprido’ realizado no Madison Square Garden deixava-nos com a impressão de que, se calhar, algumas coisas não deviam se revitalizadas.

LCD Soundsystem @ Festival Vodafone Paredes de Coura

Entretanto, o ano de 2015 surgiu e com ele vieram à calha rumores que davam como certa uma reunião da banda no ano seguinte, naquela que seria uma tournée por alguns dos festivais de maior renome pelos Estados Unidos e no Reino Unido. Esses festivais tornaram-se cada mais viáveis com o lançamento do primeiro single dos LCD Soundsystem em quatro anos, “Christmas Will Break Your Heart”, na véspera de Natal. Entrados em 2016, mais precisamente no dia 4 de janeiro, e era oficial: os LCD Soundsystem estavam mesmo de volta. Com o passar dos dias, foram anunciados múltiplos concertos e no dia 25 desse mesmo mês a felicidade sorria aos portugueses com o grupo a ser confirmado no Vodafone Paredes de Coura. Durante o decorrer do Festival Primavera Sound de Barcelona – que também acolheu o seu regresso –, João Carvalho, director do festival minhoto, comentava com amigos no seu perfil pessoal do Facebook que “os LCD Soundsystem são das melhores bandas da actualidade a dar concertos e que provavelmente iriam dar um dos melhores concertos que o festival já viu”, aumentando exponencialmente o entusiasmo para o dia 18 de agosto.

Chegados a esse dia, todos as perguntas iriam dar à mesma resposta: “a banda que hoje eu mais quero ver são os LCD Soundsystem”. Com as confissões do director e confesso fã da armada de James Murphy ainda a ecoar na nossa cabeça, facilmente se tornou perceptível que aqueles desabafos não foram proferidos sem qualquer fundamento: o palco Vodafone estava preenchido até às últimas com diversos instrumentos – teclados, bateria, guitarras, … – e materiais de som a recheá-lo, tudo debaixo do olhar de uma enorme bola de espelhos pendurada no topo e no meio de mil e uma lâmpadas, tudo a antecipar que a festa que estaria prestes a acontecer seria daquelas bem bonitas, digna de ficar para a história. Para a história, já os LCD Soundsystem tinham entrado, a questão que agora se colocava era se esta revitalização do grupo era capaz de estar ao mesmo nível do que a grande forma que apresentavam em 2011 ou se o passar dos anos teria de alguma forma começado a pesar.

Felizmente, esta dúvida foi rapidamente anulada no momento em que a banda entrou em palco, com James e Nancy a juntarem-se aos seus colegas em último lugar, e terem iniciado a cerimónia com “Us V Them”. A escolha deste tema para arrancar com o seu concerto pode, quiçá, conter uma mensagem subliminar: nascidos das cinzas como se de fénixes de tratassem, os norte-americanos de outrora deram lugar a um conjunto de oito indivíduos revitalizados e com ainda mais genica e perícia do que antigamente; “nós contra eles”, os LCD Soundsystem de 2015 em diante contra os LCD Soundsystem de 2002-2011. Nesta batalha, cuja finalidade era demonstrar que a banda está (bem) viva e, ao contrário de diversas reuniões de artistas que tinham dito o seu adeus aos palcos, não precisam de viver na sombra do seu nome ou no sucesso do passado, o público de Paredes de Coura foi o grande vencedor.

Regressados a um festival que já os fez felizes no passado – o ano era 2014 e encarregaram-se de assinar as famosas after-hours de um dos dias -, desde cedo quiseram deixar bem claro que “estavam radiantes por estar de volta”, como James Murphy fez questão de o informar múltiplas vezes. Transmitindo essa informação ainda o concerto estava na sua recta inicial, ajudou na tarefa que era a de conquistar um público que no final de “I Can Change” já estava delirante e totalmente rendido a esta electrónica fortemente influenciada por rock alternativo, mas que convida sempre a um ou outro pezinho de dança. Contudo, ao vivo, esses pezinhos são transportados para uma enorme pista, onde tudo e todos descomprimem dos problemas do dia-a- dia e se deixam ir na onda daquilo que os LCD Soundsystem tão notavelmente descarregam em palco, naquilo que se pode assumir como um total festim de sorrisos derivados de felicidade; reza a lenda que a ‘dança’ é fruto de um sentimento tão forte de alegria no nosso interior que arranja uma maneira de sair do corpo e exprimir-se através de espontâneos movimentos não comuns num ambiente diga-se, normal.

LCD Soundsystem @ Festival Vodafone Paredes de Coura

No espaço de uma e hora e meia de duração de concerto, ninguém parou de dançar – houve de tudo um pouco e ninguém estava lá para julgar os bailarinos dos pés de chumbo –, nem mesmo o próprio senhor Murphy, vestido a rigor com um dos seus já característicos blazers com camisa branca, que tirava constantemente o seu casaco, ou não fosse o calor emitido por aquela multidão suficientemente quente para aquecer-lhe o corpo e a alma. Todavia, o frio congelante pelos lados da Praia Fluvial do Taboão bem que obrigavam a agasalhar-se durante alguns minutos.

LCD Soundsystem, Sound Of Silver e This Is Happening são, para além de excelentes discos, bons exemplos de álbuns que se tornaram mais relevantes com o passar dos anos: é de salientar o que os LCD Soundsystem alcançaram em 2005, 2007 e 2010, respectivamente, usufruindo ao máximo da tecnologia aí residente para produzir músicas que até hoje são detentoas de uma sonoridade tão actual. Com notícias de um futuro quarto longa-duração a ser lançado, possivelmente, em meados de 2017, esperava-se que sobre o mesmo fosse desvendado o véu através de um ou outro tema, mas tal não aconteceu; com cerca de cinco músicas de cada trabalho a constar no alinhamento, houve clássicos para todos os gostos, como “Get Innocuous!”, “Yeah”, “Someone Great” ou “Home”. Apesar de recheadas de nostalgia, é na forma como os LCD Soundsystem remisturam os seus hits – sim, o pessoal “Queria Muitos Hits” –, que reside o seu esplendor enquanto banda e músicos talentosos, como uma “Daft Punk Is Playing At My House”, um dos primeiros singles do homónimo que em nada se assemelha à versão original mas que continua a entregar a mesma adrenalina, quem sabe até mais. Mesmo com oito almas em palco a operar diferentes instrumentos, é impossível não notar a forma como operam num todo, não havendo um único som que esteja desenquadrado dos outros; todos têm uma função, um papel a cumprir, e foram executados com distinção. Talvez optando por reviver os velhos clássicos tenha sido a forma que a banda arranjou para proporcionar um concerto para ‘os amigos’, onde até mesmo os que já partiram não foram esquecidos; “não me lembro da última vez em que tocámos aqui – doze, catorze anos? Lembro-me que tocámos com os Motorhead e eles foram incríveis, portanto, o resto do concerto é em homenagem ao Lemmy”, dedicou James Murphy, para euforia do público.

Face a essa dedicação, onde quer que esteja, Ian Kilmister só poderia ter ficado radiante, visto que o concerto acabou com um autêntico power trio de êxitos dos LCD Soundsystem: uma sempre emotiva “New York I Love You But You’re Bringing Me Down” onde os olhares entre James e Nancy eram bem capazes de dar aso a múltiplas histórias de amor repletas de paixão – ajudava o facto de as caras de ambos aparecerem em simultâneo nos ecrãs, mesmo em diferentes planos -, “Dance Yrself Clean” para não estragar a festa aos amantes do crowdsurf que estavam desertos para tentar roubar um pouco de protagonismo aos norte-americanos e que encontraram no clímax da canção os seus cinco minutos de fama e, claro, “All My Friends”, a música que não só colocou os LCD Soundsystem um degrau acima das bandas que vigoravam na altura, mas também que nos fez rever todas as nossas supostas amizades, aquelas que deviam ser conservadas e estimadas.

LCD Soundsystem @ Festival Vodafone Paredes de Coura

E isto, meus amigos, foi um concerto a pensar em todos os amigos que as músicas de James Murphy conquistaram ao longo dos anos: os que deixaram a banda seguir o seu caminho e aceitaram o fim, os que aguardavam ansiosamente pelo seu regresso, os que nunca os esqueceram ou até aqueles que só se lembravam deles em certas ocasiões; foi assim que começou e como acabou, a celebrar com amigos de longa data, recentes ou até mesmo alguns que se conheceram naquela noite. Aquela hora e meia de concerto que soube a pouco – sinceramente, quem é que se importaria de mais meia hora de duração para rejubilar ao som de “Sound Of Silver”, “Drunk Girls” ou “Pow Pow”? – os LCD Soundsystem assinaram o melhor concerto da edição deste ano do Vodafone Paredes de Coura, um dos melhores espetáculos de 2016 e, acima de tudo, um que valeu a pena os “five years trying to be with your friends again”. Há bandas assim, que acabam uma, duas ou três vezes para depois se reunirem quatro, cinco ou seis. Contudo, há sempre uma pergunta que deve ser feita: será esse regresso redundante?

Os LCD Soundsystem responderam com um estrondoso sim, demonstrando que se é para voltar ao activo, é para regressar com ainda mais paixão face ao que fazem, àquilo que sempre gostaram de fazer. Não existindo melhor maneira de regressar aos concertos como a daquela noite no anfiteatro dos sonhos, o dia 18 de agosto ficará para sempre guardado na alma dos presentes como uma das melhores das suas vidas. Talvez tenha perdido por umas décimas contra a noite de dia 4 de abril de 2011 mas, sejamos honestos, esse foi o derradeiro canto do cisne dos LCD Soundsystem. Felizmente que este cisne está muito longe de ficar afónico. Aliás, ninguém canta (e dança) tão bem como ele. “Yeah”. “Yeah”. “Yeah”.