O sonho americano talvez não esteja a viver, nos dias que correm, à altura das expectativas e da fama que os séculos que se sucederam se encarregaram de tornar numa lenda instigadora, mas os LCD Soundsystem continuam a dar-lhe um brilho puxado pelo lustro de uma cura para todos os males em forma de som. American Dream será justamente o título do quarto pedaço de sonho de fisionomia discográfica dos nova-iorquinos liderados por James Murphy e do qual já se garimparam dois temas em maio passado – “Call The Police” e “American Dream” -, precisamente aqueles que trouxeram também a notícia do regresso oficializado da banda às edições, depois de várias notícias durante o ano de 2016 que a banda se encontrava em estúdio a gravar um novo álbum.

“tonite”, a terceira pepita resgatada do far east dos LCD Soundsystem, tinha sido já mostrada na residência artística que a banda concretizou recentemente no Brooklyn Steel, uma sala de espectáculos situada na sua Nova Iorque natal, e a semana não acabou sem ver cumprida a promessa de Murphy de revelar a versão de estúdio e respectivo vídeo do tema antes do lançamento oficial de American Dream no dia 1 de setembro. E “tonite” não se desvia qualquer milímetro da métrica sonora e do estilo vocal inigualável com o qual James Murphy tem impregnado o cenário mundial desde o álbum de estreia homónimo de 2005, depois dos dois primeiros singles terem transpirado um glamour mais teatral e solene que o habitual e terem seguido uma route ligeiramente diferente das restantes peças do cancioneiro dos LCD Murphy chegou mesmo a dizer que “Call The Police” e “American Dream” são canções um tanto ou quanto enganadoras que não espelham o tom geral do disco -, apesar de serem ambas automaticamente reconhecíveis como clássicos instantâneos e intemporais.

Menos canção, inconfundivelmente cristal líquido de sentido tradicional, “tonite” denuncia em toda a sua extensão aquela matéria-prima mística metade dança, metade punk, com Murphy agarrado a um microfone retro – uma das suas imagens de marca -, a desempenhar o papel de quasi-narrador que se identifica instintivamente como a verdadeira essência de uma composição construída pelos LCD Soundsystem: nervosa, displicente, vibrante.