Leo Middea - A Dança Do Mundo
80%Overall Score

E quando o Universo não te dá outra chance senão dançar?! E quando o Universo te põe a dançar mesmo sem saberes que dança é essa e sem saber onde e em que momento já se escutou essa canção? Ou a razão destes acordes serem teus e nossos e do Universo e os passos da dança serem os passos do caminho que não há como não dançar? O risco de não escutar? O risco da analfabetização cósmica e divina? O risco é ficar para trás para sempre na tua vida sem horizonte nem Universo. Há que saber dançar. Mas depois há que saber ler as canções que ele te canta, saber onde as cordas do violão se encostam devagarinho na madeira frágil e poderosa do coração. Olha em volta, fecha os olhos e vê onde está o violão, o Universo, o teu pedaço de céu.

Leo Middea é carioca. E só isso chega para tanto na arte de introduzir esse menino caminheiro como dizer que a felicidade de um lisboeta está gravada nas ruas estreitas, antigas, coloridas do sol ténue que pinta as calçadas de Alfama e de toda a cidade da luz – oh, desculpa lá, oh Paris mas a nossa é do Deus sol -, de melancolia e de uma distante nota solta de fado e de tudo o que isso implica. Ou seja, Leo é calor, é jeitinho, é o balanço do mar, é as ruas leves da zona sul junto ao mar, é a fé em ver o fim do dia na zona norte junto ao caos, é roda de samba pouco redonda e tão mais que samba, é a boémia natural que se sente no Bairro da Lapa onde Leo cresceu, é a felicidade em qualquer botequim em dia de jogo de futebol, é a arte em estado bruto e selvagem e sensível e liberto. E é a necessidade de ver mais, sentir mais, saber mais, conversar mais e mais criar. E ambos os estados são naturais, intrínsecos e genéticos a ambos, alfacinhas e cariocas, quer eles dêem por isso ou não.

Havia um violão lá em casa. Um Leo menino brincava de tocar sem saber tocar um violão que lhe falava ainda em notas que ele não sabia falar. Para impressionar um amor de adolescência, Leo vai a uma aula de violão e logo a paixão ganhou outro nome, outro rosto… e a música ficou. Obrigado, menina! Adeus, menina! Uma banda aos 14 anos, um disco a solo com 19. Entretanto, o pé na estrada, as viagens pela América do Sul, a descoberta das ruas de Buenos Aires, de Santiago do Chile e de bares e becos espalhados pelo mundo hispânico mais a sul. A descoberta de todas as formas de desenhar um novo tropicalismo onde a bossa é tango, onde o tango é ska, onde o ska é forró, onde o forró é rock e o rock é tudo e mais que tudo entre a alma brasileira e o mundo inteiro. Entre Los Hermanos, Carlos Gardel, Calexico e Yann Tiersen reside Leo. Entre Leo e Leo reside um mundo inteiro. Cerca de uma centena de concertos, boa parte fora do Brasil, tornam Middea, palco a palco, nação a nação, mochila a mochila, saudade a saudade, num viajante eterno na música. Eterno ou aquilo que o amanhã trouxer, as canções que o amanhã fizer. Foi o Universo que o fez dançar, que ele soube escutar, saber e cantar.

Dois anos depois da estreia em disco com Dois – apenas com 19 anos e uma maturidade de escrita de um dinossauro poeta –, chega-nos agora A Dança Do Mundo. Dois era o mesmo Brasil de Cícero, de Marcelo Camelo, de Caetano e de Gil. A Dança Do Mundo é uma mapa-mundi em forma de carta de amor ao pó dos caminhos, aos cimentos das cidades, aos reflexos sonoros que se espelham nos mares do sul. E mar é coisa que não falta neste disco aqui.

 

 

A barcaça viajante de Leo lança-se ao Rio. Um amor galáctico feito mundo, entre as leis da aceitação, do estar e do ir e do nunca ficar, do amor ao Atlântico, do amor a Bethânia… e de Tibete no coração. Vamos amar? Houve um amor interestelar. “Tibethânica” não engana, o tropicalismo, a MPB e a pop brasileira são parte da alma de céu sem fim de Leo Middea. Tão Chico e Gil, tanto de João Gilberto. A classe de antes revista com a excelência rara de um sucessor pleno. A tranquilidade carioca entra país adentro. Encontra “Ciranda” e a cigana dança como quem faz amor, como quem dança uma ciranda enquanto te espera, tu que partiste para o mar, para o rio maior sem fim. O som do nordeste marca lento a canção, um ponto cantado, a tradição fundida com o hoje. Como se pode ficar e ir e estar e partir e escrever uma história que te faça pertencer. Será o amor? Será a magia? Será o Norte que tarda em se mostrar? Quem não precisa de uma “Bússola”?! É o amor pois! É o amor que te faz ficar, o amor que nos faz partir e ir… juntos com o rufar do rock, o acordeão que chama o sertão e, ao mesmo tempo, juntos com o mar, sempre o mar, com o sal das canções de piratas e dos amores impossíveis pelas sereias. Parafraseando Middea: navega nas ondas do meu caminhar / Te abraço e te uso como uma bússola / Piratas dentro da lei. Vamos, sereia?!

Três canções, a mesma certeza. A viagem! Mas a escolha da opção da partida eterna, da descoberta de como será o horizonte visto de mais além nem sempre é pacifica. Me conte o segredo pra eu não desistir. A viagem que pode ser a estrada, que pode ser uma canção, que pode ser uma incerteza constante plena de surpresa e de cansaço. É isso que se canta em “Meu Público”. Começa lento e folk e parisiense e acaba no turbilhão de uma festa de boiadeiros. As viagens dentro da viagem é sempre o mais importante. O funk carioca polvilhado a um reggae subtil regressa em “Celebração”, a lógica e habitual confirmação que a viagem não pára depois de iniciada. É impossível parar a dança do Universo, parar o novo amor, o novo amanhã, o novo. O rock regressa e traz uma “Estrela Neguinha”. É intenso mas leve, cristalino mas tropical negro.

O mar, paixão guardiã
Que silencia aos beijos dessa cidade
É quase, a minha namorada

É confissão de Leo como quem segreda por entre os reflexos das luzes da cidade maravilhosa que o abraça por trás e olha o balanço tranquilo do mar pelos seus olhos. A voz de Bruna Moraes realça a fragilidade bonita de “Pedaço de Céu”. O vento da madrugada com o sol já acordado, o corpo que ainda descansa nos braços das luzes da cidade. O meu coração é um pedaço de céu. A mais simples das poesias, das canções do disco. A simplicidade venceu novamente na arte da escrita e do amor.

A tango argentino chegou a “A Dança Do Mundo”, uma guitarra africana mete-se no meio da dança, o sertão novamente toma o seu lugar na roda. E tudo no mesmo espaço. “Canto de Orquestra”, mais que uma parada de instrumentos, é um desfile antropológico de sons, de mundos e de ritmos. O Universo só quer mesmo é que dances, menino.

Mas… parou! O tempo é de “Valsa”. Mentira! O tempo é novamente de confessar. Desta vez e outra vez a ambiguidade do ir e do ficar. Do amar e da solidão subsequente. Do corpo, do sexo, da alma, da paz. A Bossa na palma das mãos e nas cordas de um cello a valsar com o vazio de nunca estares, nem sequer ficares. Mais vale sexo que amor? A viagem não adora estar só! “Valsa” é a mais ocidental de todas as canções de “A Dança Do Mundo”. In Rainbows dos Radiohead parece ser figura presente, os tempos lentos de José González são figura marcante e a baladaria de Damien Rice companhia sincera nas memórias que afloram na memória.

 

 

Mas mais uma vez, ele não fica. Não pode ficar. Mas queria. O coração foi rebentado, deformado. “Boneco de Argila” é rápida, é poderosa e imponente. A velocidade do ska, do klezmer, é a dança do mundo, de ser largado no mundo. Ah o coração partido tem sempre uma cama alheia e um passaporte por perto. Tá pedindo um moshpit esse boneco!

Fecha-se o diário de viagem com o regresso novamente a uma praia no Rio, a uma “Praia Mulher”. O sítio onde tudo começa, onde tudo acontece e a vida se desenrola nem depressa nem devagar… a vida desenrola-se como tem de desenrolar, da mesma forma de sempre e sempre de forma diferente. Como toda a viagem, como a alma de qualquer bom caminhante, como qualquer bloco de arte. Não há sombras de nada mais a não ser do mundo todo que é o Rio de Janeiro. Eh sambinha, bom demais!

O sol despede-se cedo de mais do Rio, uma mulher despede-se sempre cedo de mais de um homem. Sobra o mundo, sobra Leo, sobra a Dança do Universo. Haja discos assim que partem para voltar para bem perto das madeiras frágeis e poderosa do violão que bate no peito. Leo, valeu por esse mundão todo! Tou indo!