“We’ll always have Paris”, já dizia o famoso personagem Rick Blaine, interpretado por Humphrey Bogart no, ainda mais famoso, clássico do cinema Casablanca. Paris! Cidade do amor, de cultura, de revoluções e também de inúmeras divergências e discrepâncias sociais que culminam numa proliferação e exploração artísticas bastante produtivas.

É no seio dessa vaga de artistas que encontramos Léonie Pernet. Desengane-se quem, ao olhar para a jovem cantora e compositora francesa, julga que se trata de uma novata nestas andanças da música. Pernet apresentou-se, inicialmente, através da plataforma Soundcloud com Mix Pour Tous, uma playlist de 31 minutos, por si escolhida e dedicada à comunidade LGBT e lançada aquando da votação para a legalização do casamento homossexual em França, em 2013.

No ano seguinte, e com o selo da Kill The DJ Records, Léonie aventurou-se a lançar o seu primeiro EP Two Of Us. Um trabalho com quatro canções, todas interpretadas em inglês, caracterizadas por um som electrónico, minimalista, envolvente, repleto de tonalidades atmosféricas, com uma percussão assertiva, e em constante união com a sua voz delicada, subtil, mas também determinada. Destaque para “Tutuguri”, um tema instrumental, descendente da velha máxima “menos é mais”, que se revela uma canção simples, mas eficaz e que poderia muito bem figurar num qualquer disco dos Radiohead ou The Knife.

Ainda em 2014, Léonie Pernet viu “Blue is Dead”, de Two of Us, e “Butterfly”, canção ligeiramente mais dançável, integrarem a banda-sonora do filme francês Bébé Tigre. Tornou-se aqui evidente que o trabalho da francesa não tinha nem tem por objectivo o puro entretenimento. A crítica, a tomada de consciência, a resistência e a marcação de uma posição perante as diversas crises sociais e políticas que se alastram pela França e não só, são os principais fios condutores das suas composições e letras. E isso ficou ainda mais notório em 2016 com o lançamento da sua segunda playlist Mix Debout e, agora, com o lançamento de “African Melancholia”, o primeiro single de Crave, aquele que será o seu álbum de estreia.

Realizado por Adrien Landre, o vídeo deste tema (que podem ver no final do texto) inicia-se com a frase “La Vérité a deux visages et la neige est noire sur notre ville” (A verdade tem duas caras e a neve é negra na nossa cidade), primeiro verso do poema, com o mesmo nome, do palestiniano Mahmoud Darwish. Um poema que aborda a falta de pertença ao nosso ou a um qualquer lugar, não por culpa própria, mas por imposição de outrem; um poema que aborda também o ciclo vicioso em que se torna a vida dos desafortunados que, vendo-se obrigados a abandonar os seus locais de origem para se salvarem, não conseguem encontrar paz e segurança nos novos destinos de chegada.

E é, exactamente, isso que vemos de forma crua, neste vídeo, através de Mohammed Mostafa, um jovem sudanês refugiado em França, na iminência de ser deportado para Itália, que se mostra completamente à deriva na noite parisiense. À deriva numa cidade que não é a sua, à deriva num país que não o aceita, à deriva na sua própria vida por simplesmente não conseguir assentar num local são e salvo, onde possa viver de forma livre e digna. À deriva, numa viagem vertiginosa, fugindo para se encontrar e para alcançar um refúgio e uma protecção quase utópicos.

Com uma electrónica um pouco mais pesada que o habitual e com uma voz mais soturna e distorcida, “African Melancholia” deixa adivinhar um disco sério e afirmativo que mantém como base de criação as premissas sociais e políticas a que Pernet nos foi habituando, desde o início. Com lançamento previsto para 21 de Setembro com o selo da InFiné, Crave poderá ser a grande oportunidade de Léonie Pernet se afirmar como uma nova força artística, não só no panorama musical francês como também no panorama musical internacional.