Esta não é a estreia musical de Sofia Ribeiro, mais conhecida por LINCE. Os We Trust e There Must Be a Place foram projectos que a acolheram e que por ela foram constantemente enriquecidos. Marcou presença nas teclas e nos back vocals, empreendimentos que lhe ensinaram pedaços de tudo e a tornaram uma peça essencial nos grupos embora, por oposição ao novo projecto, não fossem inteiramente seus. É agora tempo de voar com asas próprias e deixar que as mesmas escolham o caminho, por entre espaços e tempos de uma liberdade quase imortal. A designação, sugerida por dois amigos que tiveram a mesma ideia por mero acaso, deu o mote a esta recente abordagem e, com baptismo felino feito, LINCE começa a criar em território nacional uma orientação criativa sem precedentes.

Com LINCE, Sofia pode concretizar-se e criar obras íntimas e únicas, talhando harmonias e letras que nascem da sua mão. Neste sentido, o seu trunfo mais significativo pousa na capacidade de unir a música de teor clássico com as notas do piano ao instrumental electrónico de todos os formatos, com sintetizadores utilizados com inteligência e perícia. Talvez por Sofia, vimaranense a residir actualmente no Porto, também ser bailarina – valência que a nível criativo alimenta sempre bem a criação fértil -, as suas faixas primam pelas melodias mais maleáveis, em que a combinação primorosa entre vários mecanismos de cultura e sobrevivência a coloca numa base bastante desprovida de convenções e ideias-feitas. Sofia estudou também artes plásticas, dança e música o que, a par dos seus desenhos melódicos, se transforma num enorme tesouro.

Num conjunto de gestos e sons muito distintos, em que o destaque é óbvio quando se ausculta o panorama nacional, LINCE ganha terreno a título próprio e coloca, por agora, o colectivo em segundo plano; e fá-lo com toda a justiça. A sua proposta autónoma e individual tem uma assinatura de independência bastante eficiente ainda que em fase inicial, pelo menos no que diz respeito ao contacto com os públicos, pois Sofia sempre compôs faixas e letras inteiramente suas mesmo na fase em que actuava com outros grupos. Com uma voz que encanta e aquece, e adocicando o lirismo da língua inglesa, é com a adição dos sintetizadores que o seu espaço corta com todas as costuras. Apresentou em Outubro na sua página de Youtube e Facebook “Call Me Home” e “Earth Space”, dois singles em estreia absoluta, materializando-os mais tarde ao vivo, e com sucesso, na última edição do Sofar Sounds Lisbon.

A sua performance reflecte uma presença marcante, de cabelo muito claro e os olhos muito azuis, tendo por lembrança os retratos nórdicos, tanto na forma como no conteúdo. Assim, e com surpresa, LINCE traz um sopro de calor. Pode tornar-se inevitável recordar alguns sinais de Dillon, James Blake ou ainda traços de iamamiwhoami, em que a atmosfera propõe um casamento de sucesso entre os tons escandinavos, com a herança da criação electrónica e os teclados de um piano que ressoa com muita sabedoria às notas dos compositores barrocos mais aplaudidos. É esta mistura exemplar que faz com que tudo funcione às maravilhas.

“Call Me Home”, tema agora apresentado em vídeo e filmado inteiramente a preto e branco, no qual a melodia de fundo é intemporal, Sofia surge com as ondas do mar atrás de si, sendo o piano quem mais ordena como se verá acontecer em vários momentos das suas composições. É-se sugado para dentro de uma imagem que comove, e as palpitações do coração sobem acompanhando o crescendo da própria melodia. Assim, a segunda metade da faixa recebe um shot de sintetizadores que a eleva a um patamar suis generis. A imagem, quase estática, como se LINCE estivesse numa fotografia que lentamente ganhasse vida, propõe uma medição do tempo desigual da que, por norma, se realiza nas sociedades. Desaceleram-se as ondas, acalma-se o vento e LINCE tem, assim, todo o tempo do mundo para cantar e agarrar, para si, o que considera real e verdadeiro, sem deixar de o partilhar com o quem ouve e observa o vídeo.

Make my skin off of me
I want to feel
How your lips touch on me
I want the pain to hold

But you call me home
You call me home

No single “Earth Space”, e por contraste com o vídeo de “Call me Home”, LINCE surge num ambiente de feira popular, movendo-se em atmosferas coloridas e cheias de ruídos, com os carrosséis e demais diversões, passeando-se entre luzes néon, numa odisseia em constante movimento, o que leva também o espectador a essa inesperada deslocação.

LINCE baloiça-se entre bancas da feira e alguns carrosséis que a fazem levitar, o mesmo que aconteceria se fosse viajar num foguetão, por exemplo, desafiando as leis da gravidade no piso da Terra e pelos céus.

Curiosamente, no vídeo surgem poucas pessoas para além de Sofia, recordando a noção social atribuída ao ser humano e a realidade de se estar só estando-se acompanhado e estar-se acompanhado estando-se só.
Com pitada de London Grammar e Electric Youth, o single “Earth Space” prima pelo uso da cor, presente em todos as dimensões do vídeo. Não deixa de ser interessante que LINCE tenha colocado à solta dois vídeos aparentemente distintos mas que, em união, formam um complemento muito pleno daquilo que propõe musical e artisticamente.

I was pulled into outer space and
my body is cooling down
but I can see wider than before

I’d better find a way to come back earth
‘cause I’m afraid of turning into ice for good
But I am enjoying so much the view that I can’t let it go
I’ll set a fire to warm me up again

I’m out alone and I feel like I’m owning the heights
Into the sky I got up but I now that I’m falling inside
My body is cooling, I’m freezing, I’m hoping that I can fall in the earth space
I see wider than before

O uso do espaço e o uso da cor, ou ausência dela, e LINCE  sendo o que é, e o que exibe com transparência. Ambos os vídeos contaram com André Tentúgal na realização e produção, membro central dos anteriores projectos musicais onde Sofia actuava. Com a ajuda desses elementos, mas tendo LINCE como maestrina essencial e responsável por todas as composições e arranjos, os singles aqui apresentados são mais do que suficientes para aguçar curiosidades e confirmar talentos.

Na última edição do Sofar Sounds Lisbon, LINCE ainda apresentou ao público “Puzzles” e “Infinite”. Nas suas composições o espaço e o universo são, com bastante sabor, conceitos que se entrelaçam perante os instrumentos e a sua voz, manifesto igualmente importante. Constelações, naves espaciais, as praias imensas e quase infinitas, o mar, o frio, o calor… para Sofia, as admirações da vida cantam as melhores canções e com LINCE as melhores canções estão rodeadas de pianos e sintetizadores, cheios de vida, pejados de som.

LINCE

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