Numa altura em que a cultura musical portuguesa fervilha histericamente e novas e entusiasmantes promessas parecem surgir debaixo de cada calhau, pensar nos Linda Martini em 2016 pode ser algo ambíguo. Com coisas novas a acontecer a torto e a direito e o circuito dos clubes a ficar progressivamente mais saturado de novas bandas e festas de lançamentos de primeiros discos, será tentador dispensar um pouco de uma banda que é um autêntico caso de sucesso e amor em Portugal, que lançou um mais que sólido trio de discos e que inclusive assinou até com a Universal, a favor da febre de descobrir “a próxima grande cena” enquanto ainda está fresca e virgem, rótulo que os próprios Linda Martini conservavam aquando Olhos de Mongol, de 2006 e sobretudo com Casa Ocupada, em 2010. Pois apresentem-se os culpados, vem aí uma lição. O quarteto regressa com Sirumba e vem trazê-lo à sala-rainha de Portugal, o Coliseu dos Recreios. Vêm para mostrar quem é realmente a presa ou o predador e após uma catarse de duas horas não dá para ter dúvidas: Os outros podem ir e vir, mas o lugar dos Linda Martini já é deles e ninguém ali está para abdicar dele.

Ao longo da sua década de existência, a banda já se pode gabar de ter alguns marcos históricos bastante relevantes, e a passada noite de 2 de Abril fará com certeza parte do álbum. Pelo menos da perspectiva dos membros da plateia e de todos que têm acompanhado os Linda Martini (e da banda também, cujos sinceros agradecimentos e postura foram, a falta de melhor dizer, comoventes) , é difícil ter saído deste espectáculo sem ter achado que esta foi uma das noites mais especiais passadas com a banda. O som estava exímio, a casa completamente ocupada, a banda a comportar-se à medida de um palco daquela envergadura e os artistas e fãs juntos e em sintonia. O ambiente era de comunidade e cumplicidade. Um coliseu eminentemente jovem, completo com camisas de flanela, t-shirts de homenagem à banda e ganga rasgada fez o ambiente dourado e magistral ter contornos de jovialidade e proximidade. Os Linda Martini e os seus fãs não fizeram o Coliseu encolher para melhor disferirem a sua fúria encanada, o espírito e alma desta banda é que a este ponto já é incrivelmente colossal e foi isso o mais recompensador.

A banda entra então em palco perante um gigante banner a envergar a capa do quarto disco que não deixa dúvidas sobre quem será o convidado de honra para esta noite. Debaixo de quatro holofotes, cada um dos respectivos membros pega nas suas armas ao som de um mar de estática que antevê a primeira salva da noite. Adequadamente, é “Sirumba”, faixa de abertura que começa a ecoar e já daí se tiram primeiras impressões ao observar-se o comportamento da fauna, que grita e pula ao longo da sala, mostrando que uma semana bastou para já se conhecer os cantos a todos os temas. Esta lealdade não deixa dúvidas sobre aquilo que os Linda Martini têm à sua frente: uma legião do melhor tipo de fãs que se pode ter. Fãs que, em mais uma aventura, passados 10 anos, fazem questão de se manterem intrinsecamente fieis ao grupo que se apresenta perante eles. Feita a primeira salva de palmas, o grupo continua em sintonia com o alinhamento do disco e atira “Unicórnio de Sta. Engrácia”, um tema que, agora se entende, foi feito para ser tocado e ouvido ao vivo, com o seu muito directo refrão a fazer muito mais sentido neste contexto do que em estúdio.

É agora que de repente a coisa se apimenta inesperadamente. Ouvem-se as guitarras a pular agudamente de um lado para outro e não há ninguém na sala que não reconheça o que se está a passar. À terceira música, os Linda Martini lançam-se a “Juventude Sónica” com o mínimo esforço soando tão épicos como relaxadamente cool, como se fosse simultaneamente a primeira e a milésima vez que fazem esta coisa. Este é um dos típicos altos do alinhamento e aqui voltou a sê-lo, com contornos de candura e reminiscência de um velho amigo. A este ponto pode parecer arriscado “queimar” assim tão rápido umas das jóias da coroa, mas os quatro amigos sabiam o que estavam a fazer.

Volta e meia, recordamos Turbo Lento no presente, com a muito “ginasticada” e torneada “Preguiça”, tema do novo disco mas que facilmente viveria no anterior. O alinhamento viveu essencialmente de Sirumba, que foi tocado na íntegra e mesclado com os anteriores registos de uma forma bastante habilidosa, permitindo-nos realmente viajar à volta das diferentes nuances de uma banda que já vai tendo um repertório extenso sem as típicas quebras de ritmo normalmente associadas a este tipo de concertos de apresentação. Um dos grandes sucessos deste espectáculo foi realmente como o grupo conseguiu fugir à típica problemática do “vá, agora temos que tocar umas novas“. Nenhuma canção soou fora de contexto ou pareceu desnecessária num alinhamento livre e luxuoso que permitiu momentos tão diversos quanto uma agradável rendição de “Panteão” e revisitações históricas como “Estuque”, que será sempre uma das mais intrincadas e eficazes canções que os Linda Martini já escreveram.

Entretanto, foi realmente um bom acréscimo o facto de Sirumba ser discutívelmente um dos registos mais fortes do grupo, sendo uma grande prova de maturidade e de auto confiança. Absolutamente um trabalho de consolidação de tudo o que tem vindo a ser experimentado nos últimos anos, Sirumba é o disco que vê os Linda Martini mais focados e elegantes, mas também extremamente letais. Isso foi especialmente notável nas danças “novo fado” de “Bom Partido”, uma ode ao início da banda que é simultaneamente o absorver de tudo o que veio de bom com a melodia e a abordagem directa de Turbo Lento. Entretanto, necessário destacar “Putos Bons” que teve a desafiante tarefa de seguir a glorificada “Amor Combate” e esteve mais que altura, sendo um grande contraponto cheio de elegância e ginga às chagas abertas da anterior mencionada. As canções de Sirumba ergueram-se nesta sala cheias de frescura e vitalidade. O quarto dos Linda Martini é extremamente atractivo de ouvir ao vivo com as suas melodias de águas furtadas melancólicas a entranharem-se pelo corpo e fazerem dele um dos mais esguios e sensuais registos do grupo, apelando à dança e ao canto. É o registo que era preciso encontrar e afinar e desliza tão agradavelmente sobre o costumeiro rasgão de agressividade que é a música da banda.

Pessoal, o Miguel Araújo e o Zambujo estão de férias. Hoje não vêm“, graceja a certo ponto André Henriques num dos pouco numerosos momentos que houve para respirar. Muito concentrados em dar de si e tocar tudo o que tinham para tocar, o quarteto manteve-se relativamente silencioso ao longo das duas horas que permaneceu em palco, aproveitando esporadicamente para a agradecer a família e amigos e declarar a sua gratidão a quem os foi ver. “Vieram todos!“, diz a certo ponto o vocalista. Veio a turma toda de verdade e vieram para ter aquilo que já era de adivinhar. Um concerto de Linda Martini acaba por ser sempre um exercício de relativo peso, nem que seja pelo próprio registo intenso e denso da música e hoje, no meio de muitos braços no ar e mosh pits, a banda decidiu esticar a corda até onde deu, dando um dos concertos mais longos que há registo, sempre com o som alto e a necessária dedicação.

Fruto também do disco, a banda apresenta-se agora, lá está, mais felina e ondulante, dominando as suas canções com aquilo que elas pedem, oferecendo um espectáculo mais dinâmico do que nunca. A banda opera a várias mudanças e a maneira como mudam entre o suave e o áspero, o sensual e o agressivo está mais que nunca sobressalente na forma como pegam nos instrumentos. E isto é aplicável para todo o catálogo anterior, como canções como a tão estabelecida “Dá-me a Tua Melhor Faca” a soarem mais intrincadas e crescidas ao vivo do que já alguma vez soaram. Um verdadeiro caso de crescimento pessoal e artístico, com os temas a acompanharem e evoluírem com os músicos. Os Linda Martini estão mais afinados que nunca e este mesmo percurso até a esta forma foi uma das razões pelas quais a banda conseguiu chegar a este palco, domá-lo e ter uma noite assim.

“O Dia em Que a Música Parou” começa a soar pelo Coliseu e só faltava uma penumbra de nevoeiro à volta do palco. O momento que encerra o alinhamento de Sirumba é um dos mais sinistros e claustrofóbicos que a banda já fez desde a sua fase dos “Olhos” e a sua melodia tenebrosa e fúnebre não poderia ser mais recebida num lugar como este. Mais uma prova que o desafio foi inteiramente merecido: as canções que os Linda Martini agora fazem ecoam distâncias e têm o tamanho de mamutes. Perigoso e altivo este foi o momento que mais silêncio e atenção mereceu duma plateia vidrada e atenta à postura séria e cerimonial da banda. A quietude só acabou por ser quebrada depois de um encantador momento a solo de Cláudia Guerreiro, que entoou um magistral assobio a meio da composição, que se fez ouvir alto e em bom som e instantaneamente se tornou num auge clássico do concerto, com os seus próprios contornos de score de Western. A música efectivamente pára e paira no ar um clima de admiração. Os Linda Martini estão no topo do seu jogo. A banda volta a agradecer, visivelmente satisfeita com o que vê e abandona o palco apenas para voltar pouco depois. Uma noite destas não podia acabar assim.

Segue-se então uma encore recheada com quase 30 minutos de onde surgiram uma boa porção de altos neste espectáculo, iniciada com a feliz inclusão da belíssima faixa one off que é a “Dez Tostões”. Entre regressos à Casa Ocupada com “Belarmino”, sempre intensa e sempre na ponta da língua, destaca-se uma maravilhosa e altiva rendição de “Este Mar”, que a par do novo registo, serviu para lembrar que o post-rock ainda vive bem dentro dos Linda Martini e foi um dos mais belos e emotivos momentos de todo o concerto, com um belo coro vocal a acompanhar o dorido e quebrado riff condutor da música. A banda fez questão de frisar que estaríamos em modo “take it our leave it” nesta fase derradeira: “Só temos mais duas, pessoal, por isso aproveitem“. Se estamos a chegar ao fim de uma noite com contornos históricos, então é para aproveitar deveras. O público obviamente acedeu e as restantes forças forma todas despendidas no shot de adrenalina que é “Ratos” (algo que na gíria se poderia considerar um banger no set dos Linda Martini) e a sempre esperada, sempre presente e sempre desejada “Cem Metros Sereia”. E não interessa quantas vezes se vê isto a acontecer, os momentos derradeiros deste tema são sempre uma das imagens mais poderosas que aqui já viu num concerto ao vivo. Nesta noite aconteceu no Coliseu e ao suor e à emoção junta-se o melhor tipo de consagração.

Houve ainda uma surpresa final para uma plateia que depois de tanto insistir, ainda viu o grupo subir ao palco mais uma vez para descarregar uma furiosa “O Amor é Não Haver Polícia”, faixa de culto e provavelmente a que mais peso e decibel carrega na discografia da banda. A rebentar níveis e tímpanos, os gritos desesperados de André Henriques fizeram o concerto acabar com o estrondo que era necessário. Anteriormente, a plateia tivera a belíssima imagem que foi o quarteto abraçado em frente a um Coliseu cheio, um feito que conquistaram e ao qual fizeram justiça ao mais alto nível. Entre beijos e vénias, está a noção de um percurso que não foi linear nem instantâneo mas cujo fruto foi inteiramente merecido. Os Linda Martini tem sucessivamente feito história no panorama português e confirmado que conseguem vir a fazer progressivamente mais, surpreendendo em várias esquinas, sempre na feliz companhia de uma base de fãs comoventemente dedicada e que tem sido vital para o próprio caminho da banda.  A noite de 2 de abril foi histórica deveras e deixou à vista o destino colossal que os Linda Martini conseguiram traçar para si, delineando fortemente a diferença que faz entre ser uma banda grande uma grande banda. E que grande banda aqui está.

Linda Martini @ Coliseu dos Recreios