Lisa Knapp - Hiden Seam
90%Overall Score

Quando Wild And Undaunted viu a luz do dia em 2007, ficou imediatamente claro que estávamos perante um caso sério de talento indiscutível na área do folk britânico, o que se reflectiu em duas nomeações para os prémios folk da BBC Radio 2 e no título de álbum folk do ano atribuído pela Mojo. Mas o problema de uma reacção tão positiva a um álbum de estreia é, obviamente, a forte expectativa que cria em relação ao seu sempre difícil sucessor… No caso de Lisa Knapp, esse problema foi largamente superado. Hidden Seam não só corresponde às expectativas, como vai muito além. É um disco grande, ambicioso, aventureiro – características que parecem encaixar na perfeição na personalidade criativa de Lisa e do seu companheiro pessoal e profissional Gerry Diver, que assinou a produção do disco anterior e volta a fazê-lo agora.

Nascida no sul de Londres, Lisa não pertence àquela categoria de músicos folk que crescem imersos no mundo da tradição, herdada de geração em geração no seio familiar. Não. Lisa ouvia drum&bass e acid house, e adquiriu o gosto e a curiosidade pela música tradicional britânica depois de, durante a adolescência, ter ouvido alguns discos folk da colecção dos pais de um amigo. Depois disso, acabou por descobrir nomes como Shirley Collins, Annie Briggs e Pentangle e, daí a frequentar clubes de folk londrinos foi apenas um passo. Redescobriu o interesse pelo violino que tinha aprendido a tocar na escola e entregou-se a aulas, workshops e sessões irlandesas. Tudo isto parecia já muito longe dos estilos musicais a que estava mais habituada anteriormente, mas talvez tenha até sido este distanciamento o principal catalisador de uma paixão independente e puramente genuína pelo folk, bem como, simultaneamente, de uma liberdade segura em experimentar com o estilo. Wild And Undaunted, o álbum de estreia, mais colado à tradição, já denotava ainda assim, um arrojo nos arranjos vocais e instrumentais que viria a pôr as orelhas em pé dos que procuram aquele toque de originalidade e identidade própria num artista emergente. Ao mesmo tempo abria caminho para a obra maior que viria a ser Hidden Seam.

O segundo disco de Lisa Knapp pega na ponta deixada levantada pelo seu precedente e abusa da contaminação, mas fá-lo de uma forma milimetricamente medida e desenhada, e o resultado não podia ser mais apaixonante. Gerry Diver, reconhecido experimentalista na área da tradição – em grande parte devido ao seu recente trabalho de uma originalidade única, Speech Project – tem, obviamente, um papel fulcral no processo, trazendo as suas capacidades multifacetadas para as gravações de Hidden Seam, nomeadamente no que toca a arranjos orquestrais – as cordas adquirem aqui um papel preponderante, sendo quase como que a tela sobre a qual são pincelados todos os outros elementos. “Seagiver” é a faixa onde isso é mais evidente, sendo um exemplo representativo da identidade do álbum. Um dos temas mais fortes do alinhamento, abre de uma forma suave e enigmática, mas cedo se desenvolve num crescendo épico de cordas, percussão e pequenos elementos electrónicos. Estes são, de resto, para além da voz, as principais partes constituintes do todo, contribuindo para o carácter dramático, diria até cinematográfico, que flui ao longo da maior parte do disco.

“Shipping Song”, a abrir o disco, é outra faixa de destaque. Lisa define-a como uma ode à água, elemento de que nós dependemos e que está presente em todas as facetas da nossa vida, fazendo inclusivamente parte integrante do nosso corpo. O conceito parece, no entanto, ir mais longe, já que a água parece inspirar quase todo o ambiente do álbum, que é transportado ao sabor de ondas que vão e que vêm, impulsionadas pelos arranjos instrumentais, principalmente das cordas, que deixam um rasto de maresia por onde passam. A própria capa de Hidden Seam transmite esse cenário: uma Lisa Knapp solitária, deitada num barco que navega em águas tumultuosas sob um céu tempestuoso, no qual se desenha um farol longínquo. Não será por acaso também, que o disco abre com o som de um mergulho, como que a dizer: bem-vindos às águas do mar de Lisa Knapp. “Shipping Song” é um tema de uma invulgar e penetrante delicadeza que nos introduz à voz igualmente delicada, quase frágil, de uma tonalidade algo infantil a fazer lembrar Björk de Lisa, que nos embala logo na primeira ondulação de superfície, enquanto declama os primeiros versos – versos esses que não são mais do que palavras utilizadas num famoso boletim meteorológico marítimo britânico que descrevem os nomes das áreas do mar circundante às ilhas. Abrir um álbum com este tipo de liberdade criativa é um indício de que algo de muito bom e inspirado nos aguarda. E a confirmação dá-se.

Hidden Seam é um trabalho muito rico em todas as vertentes. A identidade assumidamente folk, vestida de arranjos por vezes mais característicos de géneros mais alternativos e experimentais, estabelece uma ponte entre a tradição de Shirley Collins ou Sandy Denny e a rebeldia de Björk ou Kate Bush. Nos seus momentos mais fieis às raízes, Lisa apresenta-se muitíssimo bem acompanhada. “Black Horse” é talvez o tema mais terreno do álbum, com um ritmo fortemente marcado por uma percussão que é praticamente o único elemento a acompanhar a voz durante a maior parte da canção. É o único não-original, da autoria da malograda Lal Waterson – nome de absoluta referência do folk britânico – no qual Lisa conta com a participação do cantautor escocês James Yorkston e da própria filha de Lal, Marry Waterson, que protagoniza com Lisa, no último minuto, um dos momentos mais bonitos do álbum. Em “Two Ravens”, cuja temática da letra aborda a doença de Alzheimer, “you wouldn’t wish it on your enemy, such stealing of a personality”, Lisa teve a felicidade de a ela se juntar, na guitarra, um dos seus ídolos: Martin Carthy. Finalmente, na dupla “Hunt the Hare Pt I/Pt II”, uma homenagem ao mês de Maio, encontramos a voz do aclamado cantor folk escocês Alasdair Roberts, em contraponto harmonioso com a voz de Lisa, aqui num registo mais próximo do tradicional.

“Ruler Of The Rest” e “Hidden Seam” são dois dos temas que exploram e experimentam noutros territórios. O primeiro é sereno e volta a destacar o lado mais intimista da voz de Lisa Knapp, à volta da qual flutua uma instrumentação subtil que a eleva suavemente contra um céu nocturno estrelado, mas que se desenvolve numa dança de cordas, banjo e glissandos de harpa, numa inesperada tonalidade oriental. Quanto ao tema que dá o nome ao álbum, é outro dos pontos altos e de uma inspiração irrepreensível. O encontro de cordas e percussão em desenvolvimento crescente confere mais uma vez um carácter dramático espiralado à composição que, no seu auge, dá lugar a um dos momentos mais curiosos e magníficos do disco, durante o qual Lisa Knapp se entrega a uma experimentação do aparelho vocal, emitindo sons de diferentes registos e tonalidades, editados sobre um tapete de notas repetitivas e percussivas. Uma nuvem coral de “ahhhh”s completa o arranjo que, no seu todo, regista um dos momentos que mais traz à memória o espírito aventureiro de Björk ou Kate Bush.

A última das participações no disco junta a Lisa a conterrânea Kathryn Williams na canção de embalar que encerra o álbum da melhor maneira, em estilo de calma pós-tempestade. Notas suaves e espaçadas de piano e guitarra conduzem “Hushabye” por caminhos sonhadores que envolvem o conjunto harmonioso das duas vozes até ao ponto em que Lisa Knapp faz um fecho de ciclo ao regressar ao ponto de partida, sussurrando mais uma frase do boletim meteorológico marítimo, ao mesmo tempo em que uma voz de criança repete com um efeito quase hipnotizante, “golden fish and sleeping fish”.

Até ao último segundo, Hidden Seam revela um cuidado na produção inigualável, o que o torna um álbum cativante e apaixonante do início ao fim como poucos. Seguindo as pegadas do seu antecessor, o segundo álbum da cantora britânica consegue a proeza de melhorar o desempenho, tendo sido nomeado recentemente, não para 2, desta vez, mas para 3 prémios folk da BBC Radio 2, bem como para o título de álbum do ano pela conceituada revista da especialidade fRoots, o que demonstra o reconhecimento confirmado de Lisa Knapp como um dos talentos mais promissores e inovadores do folk britânico da actualidade. Tudo mais que merecido.