É pelo terceiro ano consecutivo que o abril lisboeta já espera nos seus meandros a altura de mais um acontecimento. Um tingido a belas e alucinantes cores de escape abstracto: o Lisbon Psych Fest já nos habituou à sua presença como aquele amigo que conhecemos através de outro e rapidamente clica connosco para se tornar cúmplice frequente em novas aventuras. Confortavelmente instalado nos anúncios da primavera, é com a brisa renovada que vem perfumar e acordar Lisboa que surge também este pequeno festival. Durante dois dias habita o Teatro do Bairro, no coração da cidade, e consigo traz constantemente refrescadas propostas ao nível da música que sabe trabalhar os tímpanos e os nervos cerebrais, e levar a nossa imaginação para recantos mais exóticos, seja com linguagens mais clássicas até àquelas mais extravagantes. Ou seja, a bordo de uma nave espacial de sintetizadores ou de guitarra em punho.

Particularmente ágil em propor uma boa colheita de insurgentes e jovens projectos portugueses – algo que é uma das marcas mais distintivas do seu alinhamento -, o Lisbon Psych Fest também se dedica em estrear convidados estrangeiros que trazem consigo a novidade de terras longínquas, culminando num cartaz conciso, de curadoria certeira e variada. Entre o rock mais abrasivo e as paisagens de aguarelas que nomes como Josefin Örnh ou Orval Carlos Sibelius (ambos estreias no nosso país) vêm pintar, o festival traz vários interessantes capítulos numa edição que ainda por cima conta com uma bela novidade: a presença de Lance Gordon com o seu projecto Mad Alchemy, com o qual irá proporcionar projecções analógicas para a música ao vivo através das suas técnicas de iluminação líquida. Groovy…

As autoestradas da vida levam-nos por belos caminhos

Particularmente interessado em toda a música que possa oferecer a sensação de deslocação corporal e o alcance de novo estádios de mente enraizados – também e não só na descoberta psicadélia -, é natural que o Psych Fest se queira debruçar pelas extensas paisagens sonoras cheias de embalo e melodia, onde a repetição não é uma limitação mas sim o preciso ingrediente para a infinidade. Nesse sentido, os Camera surgem como uma chave que desbloqueia todo um conjunto de portões para a liberdade. Enraizados em Berlim, estes três exploradores sónicos juntam uma explosiva combinação de baterias minimalistas e brutalistas às nuances discretas de uma guitarra que não caça o protagonismo mas sim a subtileza, e a um teclado entusiasmado, orgulhosamente retro e hiper melodioso na forma mais simples e recompensante.

Com determinados membros a encontrar experiência anterior na música para filme e outros alicerçados num modo de tocar tribalista e intenso, a música dos Camera faz-se de um krautrock de sabor clássico que oscila entre vívidas descrições da paisagem que se apanha pelo caminho e a queda para mantras de vincada profundidade. Algo que também não é de todo mentira quando falamos de Acid Acid, o projecto de Tiago Castro que já desde 2015 tem vindo a traçar um percurso pelas aventuras mais ambientais e electrónicas que ocasionalmente se cruzam com um espírito comprovadamente rock. O seu pequeno vaivém lunar de teclados e guitarras tem sido simpático nas suas paragens assíduas pelos mais variados lugares, mas o Teatro do Bairro parece certamente uma de relevo para voltar a saborear a metódica performance geométrica e orquestral de Acid Acid. A estrear e ainda por cima com acompanhamento audiovisual analógico, mais preciosa será ainda a experiência.

De Londres a Lisboa, já não é assim tanto. Com o Fuzz Club, menos longe fica.

Cada vez mais e mais presente na subcultura portuguesa graças a um gracioso trabalho de curadoria em festivais como o próprio Lisbon Psych Fest e o Reverence Festival Valada, o Fuzz Club tem sido sempre sinal de boas memórias em terras lusas. A afamada editora de neo-psicadelia sediada no Reino Unido abarca nomes como The Black Angels, White Hills e os muito familiares 10.000 Russos, e tem sido responsável por muitas saborosas descobertas. Nessa senda, a sua presença fica assegurada na edição deste ano do Psych Fest com dois nomes.

Os Dead Rabbits conservam o espírito britânico com um rock melodioso sinfonicamente elevado por litros de reverbação e poesia vocal arrastada por cima das passadeiras das suas guitarras. A meio caminho entre um garage mais terreno e um shoegaze de olhos postos no espaço, o grupo eleva os ânimos até aquela fasquia morna. Não é preciso pular, mais tarde ou mais cedo a música trata de lentamente vos fazer levitar.

Os Throw Down Bones surgem da latina Itália e vêm trazer a sua ética DIY artesanal. Alicerçados na técnica de construírem os seus próprios componentes e efeitos, os três músicos trazem as suas influências electrónicas para um rock progressivo e constantemente mutável à medida que trabalham com a sobreposição de camadas que vêm apimentar uma abordagem algo tântrica à sua música.

A miríade de sintetizadores e filtros vem acrescentar uma cor límpida e mais etérea aos motivos concretos dominados pela bateria e baixo, enquanto a guitarra está responsável por puxar pela caixa de velocidades. Extensos, velozes e eficazes, os Throw Down Bones correm livres pelos seus temas longos e cheios de textura, onde o ritmo é a principal força motriz que dá leio a um rock super sónico.