Depois dos concertos arrebatadores da noite anterior, o Lisbon Psych Fest voltou para o seu segundo dia. Tendo como base os nomes que iriam subir ao palco, esperava-se um dia mais ‘mexido’ do que o que lhe sucedera e foi exactamente o que se obteve: entre a surpresa de You Said Strange, os arrebatadores The Altered Hours e os explosivos Gnod, houve um pouco de tudo ontem.

Tal como fora antes, os dois primeiros concertos da noite ficaram encarregues a artistas portugueses. Inaugurando o palco de dia 16, estiveram os Twin Transistors. Três guitarras, um baixo, uma bateria e um teclado foram os elementos que permitiram à banda de Leiria criar uma misticidade de sons psicadélicos, fruto de um processo constante de inovação. A qualidade destes senhores permitiu desde cedo elevar a fasquia para os próximos que se seguiam, assinando uma actuação de louvar e que atraiu muito mais público que o concerto inaugural dos Ganso na noite passada, algo que se deve, em grande parte, a não serem uma banda relativamente recente.

Como último artista português a subir ao palco do Lisbon Psych Fest, Alek Rein não desiludiu, embora tenha pregado um ‘susto’ ao início: contando com o auxílio do baterista Luís Barros (Filipe Sambado) e o baixista Guilherme Canhão (Gala Drop), os três começaram a tocar cada um para o seu lado logo no primeiro tema, naquilo se podia descrever como uma ‘salganhada’ de todo o tamanho. Se aquilo se tratava de um soundcheck ou não, ninguém sabia responder, mas depois deste episódio, o concerto arrancou a todo o gás e sem nunca abrandar – e já com os três em sintonia. Alexandre Rendeiro demonstrou o porquê de estar lentamente a ganhar o estatuto de nova promessa da música portuguesa e justificou os numerosos elogios que o EP Gemini recebeu, distribuindo malha após malha para os presentes, que souberam lidar e usufruir das mesmas.

Supostamente, The Orange Revival eram a banda que se seguia mas, por motivos alheios à organização, tiveram que cancelar a sua actuação e foram substituídos pelos You Said Strange. Poucos foram aqueles que não consideraram a banda francesa como a surpresa do festival e ainda menos serão aqueles que não ficaram fãs. Relembrando os primórdios de My Bloody Valentine, o quinteto natural de Vernon foi conquistando o público a cada canção que tocava, atraindo cada vez mais gente para o andar inferior do Teatro do Bairro, terminado o concerto com uma das maiores lotações que o festival assistiu. Através de um teclado magistral, que se fez acompanhar da distorção de guitarras características do shoegazing, era produzido todo um universo de sons e de ritmos, estes originários de um baixo e bateria simplesmente impecáveis. Apesar de muitos desconhecerem o seu trabalho, isso não impediu que chovessem palmas e gritos por cima do palco, tendo a banda retribuído com múltiplos ‘obrigados’ e com uma entrega ainda maior do que a inicial, em temas como “Halo” ou “Rivers”. Sempre muito comunicativos, e já perto do final do concerto, informaram que nunca tinham tocado tão longe de casa tendo e, umas horas depois, partilharam no seu Facebook que aquilo tinha sido um dos seus melhores concertos. Quer nos parecer que nenhum dos presentes os conteste, aliás, agradecem a longa viagem.

Para além dos atrasos, um dos problemas sistemáticos do Lisbon Psych Fest foram a iluminação e o som da sala. Embora tenha auxiliado algumas actuações e prejudicado outras, ninguém se mostrou tão indignado como os TAU, aliás, ‘birra’ seria a palavra certa. A dupla proveniente da Alemanha já se encontrava em palco quando começou a pedir, a suplicar, a ordenar que apagassem as luzes para que o concerto pudesse finalmente começar (perderam uns dois belos minutos nisto) até que por fim, ignoraram este facto e deram início à actuação. Havia sempre um problema qualquer que não lhes agradava: ora as luzes, o som não estava tão alto como queriam, as pessoas estavam paradas… e mesmo quando os problemas foram solucionados, todas estas interrupções prejudicaram imenso aquele que tinha tudo para ser um excelente concerto. Pondo de parte estas situações, aquilo que se ouviu de TAU foi mais do que agradável: um folk psicadélico conseguido através de um bombo, um djembe, maracas, guitarra acústica e pedais era agradável para os ouvidos e para a vista, e até mesmo para o olfacto, através de uma cana de incenso que se encontrava em palco e espalhava um doce odor pelo ar. Por mais que se queira focar apenas na parte positiva, é impossível esquecer a atitude de Shaun Nunutzi e Gerald Pasqualin, que assinaram um concerto paupérrimo e o mais fraco das duas noites. Uma pena.

Se os TAU abrandaram a procissão de psicadelismo que pairava no Teatro do Bairro, os The Altered Hours recuperaram-na numa actuação avassaladora e que dificilmente será esquecida tão rapidamente.  A junção do psicadélico com o shoegaze deste grupo irlandês já nos tinha previamente captado a atenção, mas desta fez, foi a vez de conquistarem o grande público. “Who’s Saving Who” e “Way of Sorrow” estremeceram a sala, tal era a magnitude da presença de Cathal Gabhann e Elaine Howley por trás dos microfones. Sempre irrequietos e a percorrerem o palco de uma ponta à outra durante todo o concerto, ninguém ficou quieto durante as nove músicas e quarenta minutos que brindaram os portugueses, havendo saltos e empurrões em “Cement” ou músicas entoadas em plenos pulmões como “Sweet Jelly Roll” e “Open Wide”. Por o tempo ser escasso, as músicas do mais recente disco In Heat Not Sorry foram deixadas um pouco de lado, andando a setlist mais em volta dos EPs Downstream e Sweet Jelly Roll, algo que os beneficiou e permitiu uma actuação explosiva e sem nunca ter um momento mais parado. O concerto dos The Altered Hours serviu para sustentar cada vez mais que estamos perante uma banda que está prestes a rebentar, e os sortudos que marcaram ontem presença no Lisbon Psych Fest, ainda se vão gabar que viram o primeiro grande concerto da banda em Portugal, depois de uma passagem não tão célebre pelo Reverence Valada no ano passado.

Os Gnod eram o cabeça de cartaz do dia 16 mas, ao contrário dos The Underground Youth, não tiveram a capacidade de reunir tanto público. Dois dias de concertos a acabar a horas tão tardias – especialmente tendo em conta que os atrasos fizeram com que as últimas bandas começassem às 3h e não às 2h10 como estava estipulado – causa algum cansaço e muitos saíram depois dos The Altered Hours. Os que ficaram, certamente que não saíram desapontados com a actuação explosiva dos Gnod. Em primeiro lugar, é fácil estabelecer-se um paralelismo com os portugueses PAUS: há baterias siamesas, baixos e teclados mas também há todo um novo universo de elementos que os distingue. A junção do experimentalismo e do krautrock dos britânicos permitiu navegar, pela última vez, este ano, no extenso oceano do psicadélico, num mar agitado pelo mais recente Mirror, lançado no primeiro dia deste mês. Apresentando os temas do novo álbum, mas sem esquecendo os trabalho anteriores, os Gnod fecharam o Lisbon Psych Fest com chave de ouro, provocando um último estado de transe aos presentes.

Este fim-de-semana serviu para demonstrar que o mundo do psicadélico está vivo e há muitos a quererem experimentá-lo. O sucesso destas duas noites dá quase como garantida uma terceira edição do Lisbon Psych Fest para o ano. Agora, é esperar que tal se verifique.

Todas as imagens da segunda noite pela lente de Luís Custódio aqui:

Lisbon Psych Fest – 16 Abril @ Teatro do Bairro