Confesso que estava preparado, Lloyd, mais do que preparado, até. Afinal, perguntas-me o mesmo há já trinta anos; a mim e a todos quantos te foram ver no Grande Auditório do C.C.B., e todos nós sentíamos o mesmo. Estávamos preparado para ter os corações despedaçados. E embora por esta altura tenhamos já uma relação longa, duradoura e profundamente íntima –  não é indissociável o facto de Cole nos visitar com frequência ao facto de o recebermos como o filho pródigo que à boa casa retorna -, Lloyd preenche-nos o coração com uma panóplia de temas cuidadosamente filtradas dos seus trabalhos com os Commontions e do seu espólio a solo, transportando do estúdio para o palco vários dos temas que compõe a retrospectiva Lloyd Cole and the Commotions Collected Recordings 1983-1989, lançada em 2015.

E ouvir Lloyd Cole ao vivo, um entertainer nato, com o seu charme natural e fácil conquistando quem o ouve é, também, de certo modo, reviver um passado que, parecendo aqui tão perto, já se afigura distante: vê-se, e ainda antes do concerto começar, nos rostos de quem espera por esse momento, pela alegria que o momento trará; amigos reencontram-se após anos sem se cruzarem, e ali e então, todo esse tempo evapora. E entre gargalhadas e abraços, contam-se histórias de primeiros beijos trocado ao som de ‘Rattlesnakes’, evocam-se bandas que os acompanharam desde sempre e relembram-me as mais obscuras, que prometiam ser grandes, mas que caíram num anonimato apenas quebrado nestas memórias.

O momento chega, e a sala do Grande Auditório – toda ela muito bem composta -, acolhe finalmente Lloyd Cole. Entra em palco com a calma própria de quem sabe o que vai fazer, com a confiança exacta em todas as suas capacidades, e imediatamente trata de encantar toda a sua audiência; entre os temas que vai tocando, entre as memórias que vai evocando, encontra tempo para nos contar sobre o facto da sua vista já não ser o que era e afiança-nos que nem todas as suas canções são deprimentes. No meio de uma ilha de guitarras e amplificadores, sozinho num palco que é paradoxalmente demasiado pequeno e todavia imensamente vasto, Cole leva-nos numa viagem a tempos idos com a sua voz inesquecível e característica que nos leva para momentos de sempre. É palpável que o público está sequioso de Cole, devoram as suas palavras – as cantadas e as contadas -, e sente-se a enorme empatia que há entre artista e audiência quando nos regala com uma curta história que narra os seus tempos passados no Cais do Sodré desde que nos visita há todos estes anos.

Lloyd Cole @ CCB

Lloyd Cole @ CCB

Há, nas músicas que Lloyd Cole apresenta, uma qualidade intemporal: cada uma delas – algumas certamente mais que outras -, despertam um meio sorriso nos lábios com os primeiros acordes, sorriso esse que cresce e adquire maiores proporções à medida que os acordes avançam, e os olhos brilham e a mente recua. Existe aqui uma dicotomia espaço-temporal: é aqui e agora, e no entanto é noutro lugar e outrora. E é, justamente, que a convite de Cole o público se junta a ele e em apoteose todos cantamos ‘Jennifer She said’ com o seu famoso coro a ecoar pelos cantos do Grande Auditório; espero, Lloyd, que te tenhamos feito sentir orgulhoso.

Um breve intervalo, e para a segunda parte Lloyd Cole traz-nos um convidado muito especial: nem mais, nem menos que o seu filho William Cole, que o próprio descreve como sendo uma cópia exacta dele quando tinham a mesma idade e que, felizmente, toca guitarra. A adição de mais uma guitarra torna o som mais preenchido, a performance mais intimista e a propria interacção com o público ainda mais leve e franca. Ao longo de quase uma hora, Lloyd e William, pai e filho, levam-nos por estradas já tantas vezes percorridas, por trilhos sonoros tão bem conhecidos, aqui com uma roupagem mais folk e despida de produção. Temas como ‘Like Lovers Do’ arrancam uma fantástica reacção de quem os vê e ouve, o inevitável ‘Are You Ready To Be Heartbroken?’ torna-se num dos grandes momentos do concerto, e cada música tocada é recebida por uma estrondosa salva de palmas.

E assim, Lloyd, embora estivesse preparado, eu, assim como todos os outros, não foi esta uma noite de corações quebrados, não foi esta uma noite de olhares desconsolados; antes, foi uma noite daquelas que enchem a alma, enchem o coração. Foi uma noite de memórias – muitas – e de voltar a tempos d’outrora. Foi uma noite de canção e de reviver, uma noite daquelas que perduram no imaginário. Só há algo mais a dizer, Lloyd: até breve. E para ti? Para ti estaremos sempre preparados.

Lloyd Cole pela lente do Pedro Cardita.

Lloyd Cole @ Centro Cultural de Belém