«Look Me In The Eyes Say That Again», diz outra vez e outra vez. Diz outra vez quantas vezes forem precisas que o melhor ainda está para vir nos próximos 20 anos, diz outra vez que me levas para casa e fazemos amor depois de roubar os bancos da zona euro, diz outra vez e outra vez e quantas forem precisas que importa tanto como nada quem amas e quem fodes na era onde se vive atrás de um monitor, se não és quem és o que te importa quem ela ama ou quem ele fode. Diz outra vez e outra vez que depois de tudo ainda é possível!

Eyeliners à parte, androginias ao longe e o Coliseu de hoje é quase o mesmo, que tantas vezes tem sido, quarto de pensão (hotel será mais adequado às pessoas envolvidas no relacionamento) onde se entra de tempos a tempos com Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve – que antes era um Hewitt e agora é um Forrester – e não se corre grande risco de se lhe trocar o nome no calor do momento, para uma noite fugidia de prazer. Fugidias, mas memoráveis, todas e quaisquer umas.

B3  trouxe os Placebo de regresso às edições em 2012 e abriu as portas do quarto em Lisboa. «I Refuse To Remain In Regrets» são as primeiras palavras que trazem um Brian que já não é o mesmo. As canções que ajudaram tantos ali a crescer, as palavras que sendo as mesmas têm agora um outro sabor, sabem a uma idade maior, onde a aceitação e a procura é agora uma procura de caminhos que nos levam ao amor maior, à universalidade e à evolução enquanto espécie humana a caminho de uma multidimensionalidade. A carne deu lugar ao espírito!

Loud Like Love, o disco, prova-o; “Loud Like Love”, a canção, desmente ao vivo. O rock é mais rock e o rock é corpo numa sala (ou neste quarto). Bonita a dicotomia entre palavras «Can you imagine a love that is so proud? / It never has to question why or how», a entrega ao bem maior e o anti-egoísmo e um Coliseu que já transpira de prazer.

Já se percebeu que Brian é um homem sóbrio e crescido. Assumiu a força de líder da banda, fala e conversa. As drogas e o rock&roll life style ficaram para trás. Não são poucos os poemas onde se confessa à beira do precipício das adições, as tentativas de travagem brusca e todas elas mal conseguidas, falsas e agravantes. Hoje é maestro e a voz de uma geração que se esqueceu de se salvar sem se ter realmente perdido. O limbo que se canta em “Too Many Friends”, a farsa de se ter tudo sem se ser nada, a fase terminal da civilização ligada às “máquinas” nos Cuidados Intensivos da entrada para uma nova era de evolução.  E para uma nova fase do concerto, de “Too Many Friends” em diante, como se 4.000 pessoas se tivessem desligado das máquinas, entramos em velocidade cruzeiro; Stefan e o jogo de ancas (ainda e sempre) sensual dirigem os movimentos físicos de uma sala esgotada. Seguem-se “Rob The Bank” e “One Of A Kind”, vai e faz amor, vai porque és especial e podes e deves… e ouves tantas vozes ao mesmo tempo a dizer “I AM ONE”. «I’m On A Crowd But I’m Still Alone» mas não estás, não aqui, não nunca num concerto de Placebo. E fica uma palavra suspensa num ruído ensurdecedor no final de “One Of A Kind”… Molko canta «On top of the world you get nothing…» ruído, palmas, milhares de pés que batem no chão de madeira do Coliseu e Brian em suspenso durante algum tempo até poder debitar lentamente e de sorriso nos lábios «DONE»!  São aqueles momentos…

“Exit Wounds” chega de seguida. A lágrima que ficou pendente em “Twenty Years” quatro canções atrás, não resiste à intensidade com que Brian descreve a imagem do ser amado que seguiu em frente na vida sem ti. «And at night, under-covered/As he sliding into you / Does it set your sweat on fire?» Cruel e feroz! «Want You So Bad I Can Taste It».

“Meds” contra todas as dores e lágrimas e os métodos inglórios de se esquecer o que se foi, quem se foi e quem não se quis ser… «Baby, Did You Forget To Take Your Meds» com Steve Forrester no lugar de Miss Mosshart,  dos The Kills, a trocar a voz sexy e desligada de VV por uma fúria que transforma a canção em algo de novo. Corrente, muito corrente nesta noite, a transformação de tantas músicas para algo obviamente reconhecível, mas que efectivamente evoluíram para novas paisagens. Principalmente os temas mais antigos, como “Special K” ou “Bitter End”, surgem com novas roupas… menos lantejoulas, mais corpo?! Acelera-se a velocidade nestas canções. “Song To Say Goodbye” precede-as e ninguém pode parar agora. As vozes ficam mais roucas, as roupas mais encharcadas em suor! São os Placebo mais rock, mais senhores das suas músicas, há violinos que rasgam “Song To Say Goodbye”. A canção que em tempos foi uma faca apontada ao rosto de alguém é hoje simplesmente a apoteose da superação e da vitória! É uma song para se dizer “Olá” ao novo mundo!

Break time… vem lá o encore!

«Look Me In The Eyes, Say That Again» e diz outra vez e outra vez. Diz outra vez pelo menos durante mais um bocado. Não te vás já!

“Begin The End” abre o encore – olha a experiência de palco e de bem saber montar uma setlist a espreitar – e mais uma vez Brian desacelera o corpo e beija-te os sentidos… mas com a língua, nada de romance ou luz de velas. A lágrima de “Exit Wounds” tem agora uma amante que constata um final, «There’s nothing left, no fortress, to defend». O habitual livro aberto da vida de Brian e seguimos o caminho colina acima… “Running Up That Hill” é já tanto hoje em dia dos Placebo como é de Kate Bush. A grandiosidade que esta cover ganha em cima de um palco com a beleza do Coliseu de Lisboa é indiscritível, a canção cresce a níveis de intensidade, força, drama, encantamento e deslumbramento muito difíceis de explicar por palavras, imagens ou conceitos. É mais um momento…

E segue-se outro… tantas vozes a cantar «I Break The Back Of Love For You» e a verdade é essa. Todos o fariam e eles também. Há uma inegável história de amor entre Portugal e os Placebo. Não sei se é algo na água ou na forma especial como fodemos – ah ups, fazemos amor – mas 20 anos depois, cada disco novo mais odiado pela crítica do que o anterior, e nós… nós continuamos a partilhar a mesma cama, os mesmos lençóis suados pela paixão e pelos excessos. Brian deixa-nos dizer o YOU do «I Break The Back Of Love For…» e sorri! “Infra-Red” fecha e diz adeus! «One last thing before I shuffle off the planet» ainda e sempre as palavras de Brian que nos fazem ver no escuro em plenas aulas de aprendizagem na evolução para a nova humanidade. «Forget your running, I will find you» e acabou!

Dezassete anos depois da primeira noite ainda e sempre uma história de amor e sexo, e agora também, luz e evolução!