Recentemente a passar por um estado de graça evidenciado pelo extenso circuito que têm feito ao longo dos mais variados festivais e eventos musicais, os Los Waves têm uma missão: proporcionar uma bela viagem através dos tons exóticos e suaves da sua música. Após uma estadia londrina, o grupo deslocou-se para fazer de Lisboa a sua sede, onde, afirmam, encontraram a direcção soalheira e transcendental que pauta o disco de estreia. A nível criativo são dois, mas em palco extendem-se até quatro.

A Tracker Magazine encontrou-se com Bruno (o tímido do grupo nesta entrevista) e Jorge da Fonseca depois do concerto inserido no Reverence Festival Valada 2015 para conversar sobre o peso da viagem na criação de arte, sobre como ficar a conhecer as entranhas da música como indústria e ainda as tendências dançáveis da neo-psicadelia agora encabeçada pelos Tame Impala.

A vossa música tem um grande elemento de variedade e um sabor bastante exótico, a sugerir movimento e distância. Diriam que a componente da viagem é um elemento central no vosso som?

Pode dizer-se que metade do nosso album é exactamente isso. O disco está dividido em duas fases. Houve uma altura em que fomos para Londres e acabamos por escrever metade das músicas lá e metade delas já estavam a começar a ser escritas numa época em que basicamente o que nós faziamos era ir acampar para sítios onde nos apetecia. Foi também fruto de eu ter estado na Colômbia um ano e o Zé ter ido para a Indónesia (ou uma coisa assim), estivemos um ano separados. De facto, metade das músicas do álbum são muito cinematográficas no sentido em têm a ver com a natureza e as paisagens. Até na letras… Mesmo as letras que falam de questões mais existenciais estão sempre ligadas à natureza – Jorge

Não obstantem, há também essa aura de Londres e a sua vertente cosmopolita mais presente na vossa música através dos ritmos e batidas electrónicas. Como é que foi para vocês a cidade em termos de moldar a vossa música num nível mais criativo?

Fizemos muitas coisas sob pressão… Muitas músicas que, se calhar, não teriamos feito se tivesse sido de outra forma porque na altura nos pediram, várias pessoas com quem nós trabalhámos. Se bem que isso são coisas que hoje se calhar estão-nos a dar bastante jeito. Músicas como a “Strange Kind of Love” ou a “How Do I Know” foram feitas em espaço de semanas em condições um bocado miseráveis mas acabou por ser bom porque mesmo sobre pressão acabamos por fazer coisas boas. – Jorge

E o contacto com outras bandas ajudou-vos a definir uma direcção?

Muito provavelmente sim, se bem que não foi feito de uma forma consciente, de certeza que o facto de estar lá muito tempo moldou o som. E o facto de termos lidado com tantas bandas… Nós viamos concertos quase todos os dias. De certeza que pelo menos percebemos o que é já não se justificava fazer em termos da estética da banda na altura. – Jorge

Ganharam uma perspectiva maior em relação à música como uma indústria?

Acho que no geral foi quase um tratamento de choque. Nós fomos para Londres porque na altura tinhamos posto umas quatro músicas no MySpace. Isto foi no final de 2011. Foi numa época em que o MySpace ainda tinha alguma afluência. Num espaço de uma semana recebemos uma série de e-mails por termos a sorte de sair num blog londrino que pelos vistos não era muito conhecido mas que era de alguém da indústria e lido por pessoas do meio. Depois viemos a descobrir que era mesmo muito pequeno… Então foi um pouco ir para lá com uma expectativa enorme e perceber que todos estes contactos e acenares que estas pessoas das editoras e da indústria fazem, são um pouco passar o tempo para eles e mostrar trabalho muito mais do que estar interessado nas bandas. Estivemos lá um ano e tal, quase dois, sempre nesta dinâmica de ter reuniões com este e com aquele e perceber que eles só estão a fazer aquilo para queimar tempo. – Jorge

Entretanto houve o regresso ao país natal e a música sofre novas alterações. O quanto de Londres ainda resta nos Los Waves de hoje? A mudança de paisagem fez diferença?

Eu acho que nós saimos de lá com uma depressão, quase. Por isso de certeza que moldou o som. Se bem que só houve duas músicas do disco que foram feitas cá, que foram a “Jupiter Blues” e a “Got A Feeling”. Essa segunda é o exemplo perfeito da transição de Londres para cá. Já é uma música mais soalheira, com um elemento mais psicadélico lá no meio. Eu sei que sou influenciado pelo o sítio onde estou e sei que lá as coisas eram mais pesadas do que cá. – Jorge

E como é estão a receber este mediatismo e este reconhecimento que têm obtido. Como é que estão a aferir isso?

O mercado português era um sítio de que não tinhamos conhecimento absolutamente nenhum quando viemos. Nem sequer conheciamos bandas nenhumas, nada… estavamos mesmo a zeros cá. Aquilo que nós fomos percebendo foi que para uma banda que hoje em dia toque rock em inglês, a perspectiva de crescimento em Portugal não é muita. Tendo em conta isso, estamos bastante contentes porque mesmo assim conseguimos tocar em quase todos os sítios e festivais. Por um lado, percebemos que não há muita margem e nós não vamos cantar em português, mas à parte disso está a ser óptimo. – Jorge

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E entre os EP’s e mesmo dentro do próprio disco de estreia, vocês têm momentos muito diversos uns dos outros. A vossa música acaba por ser muito variada e com muitas nuances e mistura de géneros. Apesar disto, o primeiro album acaba por ter uma unidade sonora mais ou menos coerente. Acham que com este disco estão a definir um estilo ao qual querem ser fieis ou a experimentação vai ser sempre um ingrediente essencial?

Eu acho que acaba por ser sempre uma coisa que nós não conseguimos resistir, mas percebemos que se calhar já chega de tanta experimentação. – Jorge

Fazendo a pergunta de outra forma, acham que estão a refinar uma identidade?

Provavelmente sim… Hoje essa variedade dá-nos jeito porque o nosso concerto acaba um bocado por ser um show de variedades. Eu gosto de achar que quando as pessoas nos dizem que se divertiram também se deve ao facto de lhes termos apresentado uma série de géneros. Desde irmos a um rock mais electrónico até a uma espécie de grunge e não sei quê… Se bem que isso em termos de mercado qualquer pessoa que estivesse in charge nos diria que isso era impossível. Que isso era o mais anti-profissional possível (risos). – Jorge

Acabam por ser vários Los Waves para várias pessoas…

É! Assustaria muita gente se houvesse editoras cá (risos). – Jorge

No vosso disco de estreia existem umas linhas muito psicadélicas. É claramente bem mais rock do que outras coisas que vocês fizeram antes. No entanto, há sempre aquele travo a ritmo e melodia que faz o álbum muito dançável. Numa senda algo semelhante, temos casos de bandas como os Unknown Mortal Orchestra e os Tame Impala, que começaram por envergar por um psicadelismo bastante puro e depois acabaram por começar a incorporar elementos de soul, r’n’b, techno, disco, etc… Acham que este é o próximo passo para um género já tão estabelecido e “rodado” como a música psicadélica?

Dentro do que eu tenho visto de outras bandas, é. Eu gostei desses dois exemplos… Os UMO, com a “Multi Love”, que tem uma cena electrónica que eu gosto bastante, e os Tame Impala com as músicas novas… Aquilo às vezes parece Phil Collins ou Pet Shop Boys, que eu gosto bastante. Apesar disto, eu acho que nós [Los Waves] vamos no sentido oposto. Nós estamos a tentar fazer algo muito mais cru que estes projectos. Tentar fazer algo completamente não electrónico… – Jorge

É um bocado controverso, acaba por haver aquela conversa do puritanismo e um certo preconceito ao ouvir estes sons mais sintéticos e artificiais, que são associados a uma onda mais comercial. O que é que vocês acharam do Currents, por exemplo?

Acho que tem momentos muito bons e tem outros que são só estranhos… Gostei do facto de certas músicas me soarem a Ariel Pink. – Jorge

Eu gostei bastante do álbum (risos). – Bruno

Vocês tão rapidamente podem estar numa noite de clubbing como no dia a seguir a tocar num festival do registo do Reverence. A vossa música adapta-se a mundos muito distintos. Consideram isso um elemento a vosso favor?

Nós ainda não nos conseguimos assentar em nenhuma camada. Não estamos num meio completamente comercial, mas acho que somos demasiado comerciais para conseguir ganhar o respeito de pessoas que se movem num meio mais underground ou que move bandas que exigem outro grau de fidelidade. Um exemplo melhor é que estamos aqui hoje [dia 28 de agosto] e para a semana vamos às Tardes da Júlia (risos). – Jorge

Uma nova definição de ecléctico (risos). Refiram uma actividade não necessariamente musical para se levar a cabo ao som de Los Waves…

Dizes tu ou digo eu? – Bruno

Dizes tu… – Jorge

Um futebol assim ao fim da tarde (risos). – Bruno

Quatro para quatro (risos)! – Jorge

A nível internacional ou nacional, quais foram os trabalhos que mais vos impressionaram até agora neste ano?

Eu ficava-me por Tame Impala (risos) – Bruno

Marching Church, um side project do vocalista dos Iceage que tenho ouvido estes dias e acho que está espetacular. A maneira como ele consegue meter melodias que são quase britpop num projecto tão experimental… – Jorge

Finalmente, os Los Waves têm alguma novidade que querem anunciar?

À parte das Tardes da Júlia (risos), vamos tocar em Peniche em Outubro, num concerto inserido no campeonato de surf e patrocinado pela Rip Curl. É o concerto a seguir a este e depois não faço ideia… – Jorge

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