O que os Lotus Fever vão apresentar amanhã no lisboeta Sabotage Club é talvez um dos melhores singles portugueses deste ano, “Together”, sobre o qual a Tracker publicou recentemente. Mas poderá ser também um conjunto de canções do próximo álbum (ainda sem nome e data anunciados). E ainda deverá ser algumas canções de Searching For Meaning, que foi um dos melhores álbuns de 2014, afirmação nada exagerada, porque era (e é) uma dúzia de canções que, bem promovida, poderia ter sucesso no Reino Unido ou nos ‘States’ – ou no lusófono Brasil… -, tal é a qualidade daquele disco.

Bom senso e bom gosto. E talento para os expressar!

No início da década passada, no saudoso O Mensageiro da Moita da Rádio Voxx, Luís Pinheiro de Almeida lamentava o défice de qualidade da pop portuguesa cantada em Inglês, que era um aceitável motivo para a falta de investimento para exportar a mesma como Portugal promove o calçado, a joalharia e o próprio território (turismo). Porém, até à actualidade, o trabalho convergente de uma elite com talento e/ou visão conceptual multiplicou o número de artistas (e técnicos e espaços nos centros mais urbanos) produzindo em padrões de qualidade dignos do Reino Unido, da América do Norte ou da Austrália, numa evolução que já justifica apoio forte de diplomacia económica (como é feito pelos países escandinavos e Islândia), porque tem permitido à cena pop portuguesa ser reconhecida pela imprensa europeia como uma das melhores, mais profícuas e também mais criativas do velho continente, graças a projectos como The Legendary Tigerman ou Moonspell ou Buraka Som Sistema, que têm actuado cada vez mais vezes e em espaços cada vez maiores fora de Portugal.
E mesmo naquele contexto artístico já muito bom, em 2014 os Lotus Fever surpreenderam com a imensa qualidade do álbum Searching For Meaning! É verdade que Pedro (guitarras e voz), Diogo (bateria), Manuel (guitarras) e Bernardo (teclados) não eram debutantes – em três anos, já tinham lançado o promissor maxi-single Into The Light (2012), que revelou a competência e a identidade rock neo-progressivo da banda e a qualidade da voz de Pedro, e tinham dispensado o jocoso nome inicial (Roadies), em 2013. Todavia, Searching For Meaning é um ambicioso disco conceptual, que ao longo de 50 minutos evidenciou a precoce maturidade de uma jovem banda que, com muito bom senso, sabia o que queria em cada parte do disco (e mesmo quais efeitos especiais em certas partes de faixas) e conseguiu produzir as canções adequadas a cada conceito e à própria visão para o álbum.

Além disso, aquele disco, apesar de enraizado no rock e com um tronco progressivo, é bastante aberto, com ramos de art rock, de psicadelismo, de soul (com sopros de metais) e até de alguma electrónica, sintetizando o bom gosto por diversificadas influências referidas pela banda, tais como Pink Floyd, Radiohead, Bon Iver, Tame Impala e Jeff Buckley (também no estilo vocal de Pedro). E ainda se poderia especular sobre influências subconscientes, como Frank Zappa ou o free jazz de Pat Metheny, em certos compassos, o melhor dos Ocean Colour Scene, em momentos quase de jam session, ou ainda Perry Farrell e Robert Plant – respectivamente contemporâneo e ídolo de Jeff Buckley -, no estilo vocal. Tudo talentosamente expressado nas 12 canções daquele arrebatador Searching For Meaning, épico em alguns períodos, merecedor de uma nota 90%.

E a nova “Together” volta a evidenciar a competência dos Lotus Fever, desta vez para produzirem um eficaz single, num desvio estilístico para a pop, que mantendo o conceptual bom senso da identitária epicidade neo-progressiva, parece inspirado com bom gosto em bandas como os eufóricos Kasabian, os harmónicos Foals ou os elegantes Alt-J. Para (re)descobrir com muita atenção, amanhã, no Sabotage Club!

“Together” @

Lotus Fever: Da pop do Portugal cosmopolita

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