Apresentação do novo single “Together” – Março 18, Sabotage Muvi Calling #03, Sabotage Rock Club

Porque a Tracker publicou recentemente alguns artigos sobre os Lotus Fever, o início desta reportagem é um agradecimento à equipa do lisboeta Sabotage Club, pelo serviço Público que tem feito, de oferecer Palco aos melhores jovens artistas pop-rock portugueses e consequentemente de oferecer aqueles jovens artistas à população jovem de espírito e aos cada vez mais estrangeiros (i)migrados e turistas na região de Lisboa – continuem e sejam exemplo para a ‘paisagem’ de Portugal!

Devemos nunca esquecer os programadores e técnicos que nos oferecem os artistas em palco. Porque os Lotus Fever são uma daquelas transcendentes bandas capazes de fazer esquecer que o palco está num clube, que fica algures neste planeta e que é cuidado por uma equipa de pessoas! Sobretudo a um impressionável publico mais jovem que o previsto (para uma banda com tantas influências antigas), como aquele que foi ao Sabotage na noite da última sexta-feira. E que ainda por cima beneficiou de um som bem tratado, que por isso não retirou brilho às excelentes canções dos Lotus Fever.

A rápida rendição ao Talento!

Duas guitarras e respectivos acessórios, uma bateria e dois teclados electrónicos (um dos quais ‘mascarado’ de baixo eléctrico, auxiliado por um computador). Para os Lotus Fever conseguirem um grandioso concerto é a instrumentação que basta, juntamente com a suficiente voz de Pedro (suficiência que é muito importante no poderoso rock). E sem ser um concerto grande – só 8 canções, num pequeno clube onde não cabem centenas de pessoas – foi mesmo um concerto grandioso, intenso, que levou o público ao rubro desde muito cedo. Porque após o instrumental de introdução (o conceptualismo levado dos discos para o palco), a banda arrancou em grande estilo, com a fantástica “Introspection”, do ainda único longa duração Searching For Meaning que os Lotus Fever tocaram parecido com a versão de estúdio, mas visivelmente sentindo o momento, com muita ‘alma’ na interpretação, que imediatamente empolgou a jovem plateia.

Após um alegremente conciso Obrigado por virem! Esta chama-se “Collapse” e é do nosso primeiro álbum, os Lotus Fever avançaram na trip por aquele disco tocando energicamente, enquanto a canção beneficiava da natural reverberação fora de um estúdio, tanto que o público espontaneamente cantarolou sobre o solo de guitarra do instrumental, rebocado pela potente batida na bateria – numa evidente rapidíssima rendição ao virtuosismo da jovem banda, que por não tocar muito ao vivo, não fazia intuir uma ‘claque’ tão grande e fervorosa (houve mesmo um fã lucidamente sóbrio que, após o concerto, pediu ao repórter da Tracker que dê uma boa nota a eles, porque foi altamente!). É que, no que tem de épico, o som dos Lotus Fever é ainda mais engrandecido ao vivo, sobretudo quando bem tratado pelos técnicos. No final da “Collapse” o público aplaudiu gritando, extasiado por tanta qualidade, como a banda pareceu ter sentido: na pausa entre canções, o guitarrista Manel relaxou bebendo um gole do seu tinto – até nesse detalhe os Lotus Fever revelam refinamento!

Invertendo a ordem de Searching For Meaning, a banda entrou de mansinho “Into The Light”, tema que após o início cantado na emo(cionada) órbita de Mew e Sigur Rós, bruscamente se acendeu ligado à corrente do hard rock e de Pedro cantando as etéreas notas longas da letra. A meio, variaram para um arranjo mais pop, dançável, ao jeito de Bloc Party, espontaneamente correspondido pelo público, com ritmadas palmas; um momento no qual o conjunto estava exibindo grande confiança – também Pedro oleou as cordas vocais (e brindou ao público) com vinho tinto – e uma segurança própria de colectivo que ensaia muito bem o talento que tem, expressada em mudanças de intensidade e de ritmo que enriqueceram o ambiente, típicas do rock progressivo e sinfónico, um conceito logicamente escolhido por jovens que evidenciam gostar de experimentais jam sessions.

Juntos, público com a banda, até ao fim da viagem.

O novo single “Together” foi enquadrado no anúncio “Amanhã vamos entrar em retiro musical, para compor o que esperamos seja o nosso segundo album”. Pedro ‘calou’ uma das guitarras e tomou posse do segundo teclado, para tocar (e cantar ‘para o Mundo’) a assumidíssima pop daquele vívido single. Foi talvez a canção que brilhou menos, mas só porque é impossível recriar ao vivo todos os sons da densa pós-produção da versão de estúdio. Por enquanto, é um caso isolado na obra dos Lotus Fever, que da banda ostenta ‘só’ a identitária habitual grandiosidade do som – apetece dizer que, se ‘venderam a Alma ao diabo’, ao menos fizeram um típico single em grande estilo (recebido apoteoticamente pelo público), que no concerto foi bonificado com um final esticado em jam session.

Introduzida por um longo instrumental, em que o baterista Diogo ‘foi’ John Bonham e Manel ‘foi’ Jimmy Page, “Mild Temptations” foi o esperado tributo conceptual a Led Zeppelin (recordem a “Black Dog”), para o qual Pedro também cantou parecido com o mí(s)tico Robert Plant – as referências dos Lotus Fever, sem serem cópias, são muito explícitas, resultando num som cheio de Verdade, que eles não fingem ser ‘a invenção da roda’. E que prazer foi ver Diogo não prejudicar a execução técnica enquanto aumentou a intensidade do drumming! Olhando para os lados, era visível muitas pessoas se abanando (algumas mesmo em headbanging), realmente sentindo o som que estava fazendo-as vibrar. E foi já com essa noção que Pedro tranquilamente anunciou um recuo vindo dos “confins da nossa história, do nosso primeiro EP, e chama-se “White Lies” (Beneath The Curtain), canção cujos destaques foram, no início, a voz de Pedro parecendo tributar a Thom Yorke e, no final, o longo solo de guitarra, na fronteira do hard rock com o blues rock – ou o rock’n’roll puro e duro, afinal de contas -, e que o público também recebeu muito bem, aplaudindo com muitos gritos de manifesto gáudio.

Os Lotus Fever não disseram que “Split Step” seria o último tema do corpo do concerto. É uma canção que os Mew gostariam de ter feito, mas no Sabotage foi tocada num arranjo tropicalista que pôs muitos jovens a dançar. A meio, Pedro sugeriu então que o fim estava próximo, quando apresentou os membros da banda durante a intermédia potente trip instrumental; quando voltaram ao refrão, foram espontaneamente acompanhados por grande parte do público, que sabia a letra de cor e, após a banda ter saído do palco, não parou de euforicamente aplaudir e exigir encore, para esticar um pouco mais o magnífico concerto. Um encore de muita cumplicidade entre o palco e a plateia, na “Oceania” energicamente bombada e correspondida com cadenciadas palmas durante o progressivo instrumental que antecedeu os desvanecentes versos finais.

Aos Lotus Fever, só se pedia que fossem a excelência dos discos. E a banda não surpreendeu, muito felizmente! O futuro é uma incógnita, mas eles até em colapso são fabulosos 😉

Lotus Fever @ Sabotage Rock Club