Do Brasil chegam-nos figuras ilustres e marcantes, bonitas pela poesia das suas vozes e gestos, destacadas pelos abraços demorados que carregam ou pelos punhos que se elevam aos céus, clamando por justiça. Os tempos não estão fáceis, mas o amor, esse conceito indecifrável, gera sementes boas e fortes e não consegue ser apagado com ligeireza.

Para fechar bem o mês de Agosto, mês derradeiro do Verão e da época em que a cabeça tende a esvaziar Luiz Gabriel Lopes, um dos membros dos Graveola e integrante dos TiãoDuá, tem também o atrevimento de actuar a solo e que bem que o faz embora, na verdade, nunca esteja verdadeiramente sozinho. A ArtCasa, associação na zona da Bica, em Lisboa, que acolhe maravilhosamente os artistas e os visitantes, prestou um espaço acolhedor, quente e cheio de muitas almas e garantiu um serão de fazer arrepiar o coração. Luiz, em outras vidas, já havia lá tocado e esta noite testemunhou que a junção da sua arte, com as peculiaridades da sala, gera magia.

Com o seu espírito errante, de verdadeiro cidadão do mundo capaz de guardar nos bolsos um bocadinho de cada paragem numa viagem imensa carregada de experiências musicais, Luiz apresentou-se em família, e foi em família aplaudido.
Sentando-se com a sua guitarra, em tons acústicos, apresentou algumas faixas de Fazedor de Rios, álbum a solo de 2015 e trouxe ainda músicas dos Graveola e o Lixo Polifônico e outras invenções suas. Um banquete quase sem fim de sons, letras bem pensadas e ainda o coro da plateia, com refrões de fazer inveja.

Iúri Oliveira, que também actua com Sara Tavares trouxe, a certa altura, a percussão, concedendo um ritmo mais mexido aos sons de um Luiz até então acompanhado só pela sua guitarra e, nesse instante, bateram-se pés no chão e a ‘química musical’ aconteceu sem dificuldades. Diogo Duque, que costuma tocar com Bruno Pernadas, emprestou o seu maravilhoso trompete em sessões de cordas fenomenais, conseguindo a cereja no topo dos bolos. Os três, em conjunto, conseguiram um gingar absolutamente fascinante repleto de alegria, espontaneidade e muita melodia à mistura. Um brinde à amizade e à criatividade além-fronteiras e a certeza que as trevas que se assistem a nível social e político podem, e devem, ter solução à vista. Em nome da esperança e da luta sem armas de fogo, Luiz trouxe votos de união e fraternidade.

Quero ver teu sorriso de perto, teus braços abertos, eu sou seu irmão.

Estreando a noite com “Amigo”, numa franqueza que nos atingiu a todos, Luiz foi falando constantemente com o público e recompensando a sala com a sua disposição feliz. Trouxe ainda “1986”, faixa que representa o ano do seu nascimento, cantando e contando das peculiaridades de cada origem e existência humana, em que cada surgimento é um evento único e insubstituível. Destacamos ainda “Yoko”, faixa composta em homenagem a uma cadelinha que viveu com Luiz em Belo Horizonte de melodia contagiante, naquela ondulação de músicas que jamais saem da cabeça viciantes que se tornam.

Meditar com ajuda das plantas, sobre a ciranda das encarnações, entender a língua dos humanos.

O amor de cada letra transparecia para os tectos e paredes do ArtCasa e os votos de expectativa quanto ao futuro, de respiração de tempos vindouros positivos, tornavam-se eminentes. Luiz, cantando as vidas dos homens que têm os céus sobre os ombros, trouxe ainda uma maravilhosa composição, “Haux Haux”.

Ferva água que é pra fazer uma sopa quente, e lhe meta um bocado de tudo que é decente, que é pra ver se melhora a cegueira dessa gente, que é de entristecer.

Luiz Gabriel Lopes @ ArtCasa, Lisboa

Entre aplausos, palmas, sorrisos, o poder da palavra de Luiz foi sempre imenso e intenso. Falou-nos da situação do Brasil – seu país de nascença – na sua complexidade, e confirmou que os cantos de força podem ser reestabelecidos através de uma conexão do poder humano. A recordação de que, entre todas as pessoas, existe uma força, um pulsar carregado de potência, e é precisamente nessa energia que surge a possibilidade de atirar com o atrito para fora.

Esconjuro a maldade que fala na boca dessa gente, não me mete medo não.

No fim de “Haux Haux”, esta ode máxima ao colectivo e à junção entre indivíduos, Luiz soltou ainda um “Fora Temer, filho da p*ta!”. Não podemos escolher ficar fora desta realidade. Ficar de fora é fechar os olhos e isso deve evitar-se. Nada de cruzar os braços!

Nesta rota de viajante, chega “Quileia” para nos contar que “meu lamento é só saudade”, faixa que muito ganhou com a participação de Diogo Duque. De sambinha em sambinha, grito em grito, Luiz não cessou canções, fazendo com que todos na sala, ao aproximar do fim do concerto, se erguessem e dançassem com a corrente da sua voz e com a batida insuperável de Iúri Oliveira.

Muito obrigada ao Luiz, ao Iúri, ao Diogo e ao ArtCasa por esta odisseia, num embalar camuflado de noite que a todos renovou de várias esperanças de uma das melhores formas possíveis: através da união de amigos na criação de música.

Setlist:
Amigo
1986
Apologia
Yoko
Prólogo
Desprendimento
Haux Haux
Crapicorniana
Lembrete
*
Quiléia
Um Índio
Maquinário
Chama vioceia
Talismã
Fazedor de Rios

As fotos desta noite, pela lente de Mariana Narciso.

Luiz Gabriel Lopes @ ArtCasa, Lisboa