O Vodafone Paredes de Coura sempre se pautou pelo carinho que demonstra pela música portuguesa, fazendo questão de a levar, todos os anos, até nós. Para aqueles que não seguem o cenário musical luso com a maior das regularidades, estes dias do mês de Agosto são sempre úteis para poder apreciar um cheirinho daquilo que se anda a passar em Portugal em termos de projectos musicais. E não falamos apenas dos dias do festival em concreto, mas também do “Sobe À Vila” onde, dias antes do início do evento, tem-se a possibilidade de ouvir apenas música feita por portugueses. E este ano tivemos nomes como os The Sunflowers, Stone Dead, Alek Rein, Nice Weather For Ducks e Conjunto Corona a rechear este aquecimento pré-festivaleiro.

A rebeldia intemporal e industrial dos Mão Morta

Com o arranque do Vodafone Paredes de Coura vemos na ementa do primeiro dia um nome já bastante querido e assíduo neste evento – os disruptivos Mão Morta. Apesar da relativa frequência com que o conjunto bracarense pisa este palco, esta foi uma edição certamente memorável, pelas bodas de prata que se celebram este ano tanto do lançamento do álbum Mutantes S.21, assim como do próprio festival.

A sonoridade soturna e sombria destes rapazes séniores pode ser difícil de encaixar, tanto num género musical, como nos nossos ouvidos, assim como a sua poesia explícita e crua o é. No entanto, este é um conjunto que desperta uma curiosidade notável devido à sua figura coletiva, e em especial devido a Adolfo Luxúria Canibal. Este senhor, jurista nas horas vagas, provou em solo courense (não que precisasse) ser um dos maiores frontmen portugueses que o solo lusitano já viu nascer, com todos os seus traços sepulcrais e cavernosos. Se num momento nos encontramos em Paredes de Coura rodeados de milhares de pessoas a escutar malhas do baú dos anos 90, logo de seguida somos transpostos para uma fábrica abandonada no meio do nada, onde tudo é sujo e pegajoso e onde, na escuridão de uma sala onde em tempos se fabricaram objetos cortantes e satânicos, nos deparamos com um ser vivo. Não conhecemos a sua génese, mas pelos gesticulares e grunhidos diríamos ser uma espécie de híbrido entre Homem das Cavernas e Tom Waits, com as células embebidas em álcool e barbaridade. E lá nos encontramos, em frente a este mutante, sendo nós o único ser humano com que deve ter contactado nas últimas centenas de anos. Assim, chegando bem pertinho de nós, roçando e questionando a linha entre o sinistro e o romântico, vem-nos tartamudeando as suas vivências descabidas ou, quem sabe, não passem tudo de invenções de um ser solitário e desvairado invadido pela insanidade e ebriedade natural. É desta forma que Canibal e os seus irmãos de sangue nos vão apresentando o álbum aniversariante, repleto de episódios bizarros e sonoridades bem vincadas. Contrastando com as imagens e líricas promíscuas e com o seu som fabril, o grupo bracarense demonstrou a sua perícia e sentido de equilíbrio com melodias de piano, ainda que curtas, delicadas, doces e singelas (como em “Berlim”).

Cave Story: Um trio de mancebos estridentes e bravos

Se o primeiro dia foi marcado pela nostalgia industrial dos Mão Morta, o segundo dia seria precisamente marcado pela aragem e frescura de artistas como Cave Story e Bruno Pernadas. Estes são dois exemplos bem demonstrativos do ótimo leque musical que Portugal fornece atualmente, abarcando desde o jazz espacial ao guitar rock simples e firme.

Para além dos arranjos aliciantes e da batida imponente e circular dos Cave Story, a voz de Nuno Rodrigues é a cereja no topo do bolo. Com um timbre que nos serve de almofada para um sono eterno esta é, paralelamente, como uma voz de um amigo bêbedo e rabugento que nos acorda a meio de uma power nap  preciosa – vem-nos imediatamente Julian Casablanca à cabeça. De mãos bem agarradinhas ao baixo e de pés bem soltos no chão, Pedro Zina dá a pujança necessária para a agressiva e insurreta “Youth Boys”, uma daquelas faixas de dois minutos e meio que dão genica para meia hora de möshes e mais meia de sexo selvagem na tenda – uma faixa imperdível para ser tocada e sentida ao vivo. Com melodias dissonantes e capazes de rasgar os cortinados da casa da vizinha, Nuno vai crescendo em termos de desinibição e diminuindo em termos de introspeção, culminando numa saída bem reflexiva da sonoridade dos Cave Story. Dando a conhecer ao mundo uma nova faixa – “Special Dinners” –, a banda das Caldas da Rainha dá por terminado um concerto contrarrelógio. Nuno, largando a guitarra da maneira mais safoda possível depois um pequeno devaneio de feedback, deixa-nos a escorrer água da boca, num concerto que só deu para abrir o apetite.

Cave Story @ Vodafone Paredes de Coura 2017

A mestria exótica jaz(z) nas mãos de Bruno Pernadas

Tocando ao mesmo tempo que os Cave Story, mas numa órbita totalmente diferente estava Bruno Pernadas e a sua orquestra jazzística que, apesar da hora ingrata, nos levaram às estrelas mais distantes a bordo das suas melodias bem limpinhas e espaciais. Desviando-se da rota do jazz dito “clássico”, Pernadas consegue arquitetar composições exímias e concomitantemente poppy, retirando o possível caráter elitista expectável. Com as suas harmonias tanto vocais como instrumentais, a banda do músico luso teletransportou-nos para uma outra galáxia onde tudo é natureza com a noite a ser alvo dos maiores dilúvios existentes para, na manhã seguinte, tudo secar prontamente com os 40 graus de temperatura. Neste novo habitat, o Homem é o melhor amigo do dinossauro e todos os seres vivos se interligam, os humanos adquirem a capacidade de falar e entender os animais, conjugando-se numa sintonia tropical e extraterrestre divinal. Com uma voz vinda do fundo do Oceano Pacífico, ouvimos Margarida Capelo como uma daquelas sereias adormecidas no porão de um barco de piratas do século XVI, com toda a delicadeza e atrevimento digno de uma sereia. Apesar das divergências tomadas em cada álbum, os três discos do lisboeta servem como uma luva para o soundtrack deste ambiente abrasador e estrelar. Servindo como líder mas fundindo-se no seu coletivo como um mero servo musical, Bruno Pernadas prova mais uma vez o seu domínio e virtuosismo em solo courense.

O profeta recôndito e grato de nome Manel Cruz

Chegamos, por fim, ao último dia, com um dos grandes alicerces da música alternativa portuguesa – o mítico Manel Cruz. Este senhor é um fenómeno raro em Portugal, um génio escondido, que vai aparecendo, de quando em vez, provocando a euforia e comoção de todos os que o anseiam escutar. Com a mordacidade de Gil Vicente, a introspeção de Pessoa e a aura misteriosa de D. Sebastião, este herói nacional arrebatou-nos de felicidade e surpresa num concerto onde o público não teve aquilo que queria, mas algo muito maior. Todos esperavam – uns com mais confiança que outros -, que Manel Cruz tocasse pelo menos uma faixa dos lendários Ornatos Violeta. Tal não aconteceu, mas nem por isso se fechou os olhos ao assunto. “Toca Ornatos, ó boi!” era a frase que centenas de pessoas tinham na cabeça, frase essa que estava bem explícita num cartaz assente no ar. Não tivemos Ornatos, mas tivemos um Manel Cruz com uma genuinidade e sinceridade que nos fez sentir tão próximos dele. Este é um ser com o dom da palavra, com a capacidade de exprimir os seus sentimentos e os de meio mundo, de explicá-los e formulá-los como nós próprios por vezes não entendemos.

Abraçando os temas mais quotidianos da existência pessoal, Manel Cruz incorpora também a absurdeza e o estranho sempre com a sua arma de fogo pronta a disparar – variando entre o banjo, guitarra acústica e elétrica. Quantas e quantas vezes já deve este senhor ter servido de psicólogo aos destroçados, de padre aos errantes, de amigo aos mais solitários. E por falar em padre, este foi um concerto que teve Deus presente em grande plano. Com tiradas de sarcasmo e deboche que só este homem poderia conceber, e skits das maiores profudenzas da comédia virtual, vamos ouvindo frases como: “troco a missa por uma chamuça” ou “Deus aqui não manda nada”, dando cor aos ouvidos e ao ouvido de gesso gigante por detrás de toda a banda. Ainda que a sua poesia tenha como foco o lado mais dissecador e meditabundo da nossa existência e das nossas relações, o liricista portuense provou-nos que a sua veia cáustica também paira pela dimensão política, como em Ovo – projeto que conta com membros dos Sopa da Pedra, We Trust e Retimbar:

Ninguém tem a cara lavada
Todos brincamos na merda
Mas eu estou disposto a mudá-lo
Não estou disposto a comê-la.

Foi desta forma cheia vida, conteúdo, camadas interpretativas e sonoras que Manel Cruz e a sua banda foram passando por territórios conhecidos e desconhecidos, desde Estação de Serviço, Extensão de Serviço a Foge Foge Bandido. Com uma voz reconhecível em segundos e com um experimentalismo sempre bem-vindo, o bandido mais discreto de Portugal abriu-nos coração durante esta hora e pouco de concerto, com uma gratidão inestimável e notável, digna de um herói que parece não se tomar como tal.

Manel Cruz @ Vodafone Paredes de Coura 2017